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23 de março de 2011, 16h00

“Ofensa a Joaquim Barbosa lembra que negros brasileiros não têm direito a ter um nome mesmo quando tem cadeira no STF”

Morenos escuros
Por: Paulo Moreira Leite em sua Coluna
23/03/2011

A realidade se encarrega de demonstrar, todos os dias, a fraude que envolve a chamada democracia racial brasileira. Basta olhar nas mesas ao lado de seu local de trabalho. Ou ligar a TV.

(Há progressos elogiáveis na televisão brasileira, a começar pela indicação de um galã negro na novela das 9. Convém registrar, contudo, que em passado recente ocorreram protestos e até ações na Justiça contra o tratamento dispensado a personagens negros em nossos folhetins eletrônicos).

Ontem, ao referir-se ao ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal, como “moreno escuro”, o deputado Julio Campos, do DEM do Mato Grosso, apenas se encarregou de falar em voz alta aquilo que se comenta em voz baixa. Negros bem sucedidos, como Joaquim Barbosa, não tem direito a um nome. São identificados pela cor da pele.

O deputado Julio Campos disse em seguida que não teve a intenção de ofender o ministro, sem dar-se conta de que essa explicação apenas inspira uma segunda pergunta: como se pode definir a pessoa que considera expressão “moreno escuro” ofensiva?

É complicado, mesmo que se deva admitir que o racismo está tão impregnado em nossa vida social que é um desses valores que residem no inconsciente das pessoas e se manifestam mesmo quando o sujeito não tem a intenção explícita de machucar nem ofender.  Está no fundo, como se diz.

Nossa doutrina racial se baseia na idéia da mestiçagem que seria, dizem nossos ideólogos, a principal vacina contra o racismo. Por isso usamos a palavra “moreno” ou “moreno escuro”. A verdadeira causa dessa sutileza de linguagem é outra.

Nosso vocabulário teme a palavra “negro” ou “preto”, como se fosse carregada demais, com tanto peso e tantos significados que se prefere ocultar. É um eufemismo semelhante a palavra “judeu” que assumiu tanto peso em função do holocausto que muitas pessoas preferem falar “israelita”, referindo-se a uma opção religiosa — o que não deixa também de ser uma forma de esconder a condição de “judeu” e apagar um crime da história.

Os “morenos” em suas variadas tonalidades entraram em nosso dicionário social porque ajudam a construir o mito do país mestiço. O raciocínio é assim: num país misturado, o racismo seria uma impossibilidade técnica, digamos assim. Santa ingenuidade. Ou pecaminosa esperteza.

O mito da mestiçagem apenas ajuda a encobrir a origem social do racismo brasileiro. Ocorreu uma grande mestiçagem em tempos coloniais, mas foi um processo de nada teve de igualitário ou de partilha cultural, como se tenta sugerir nos dias de hoje.

Foi um massacre permitido pela escravidão, no qual homens brancos sequestravam e violavam mulheres negros, gerando filhos aos quais não se dignavam a dar seu sobrenome.

Vem daí a expressão “negrinhos”. “Ou morenos.” “Ou morenos escuros.”

O curioso é quando o termo é empregado para designar um ministro do Supremo. É mesmo um escândalo — ainda que possa ocorrer todos os dias.

Veja também:  Artistas correm em defesa de Paulo Betti, acusado de racismo por Milton Gonçalves

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