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21 de setembro de 2011, 12h23

Pepe Escobar: Os BRICS querem forçar uma nova correlação de forças no FMI

Por que os BRICS não ‘salvarão’ a Europa

20/9/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online, Tradução: Vila Vudu

Na próxima 5ª-feira, em Washington, ministros das finanças e presidentes dos bancos centrais do grupo BRICS de potências emergentes – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – reunir-se-ão e, nas palavras do ministro das Finanças do Brasil Guido Mantega, “conversar sobre o que fazer para ajudar a União Europeia a sair dessa situação”.

Calma lá! Será a Cavalaria que chega para salvá-los? Estaremos próximos do fim do pânico da falta induzida de liquidez na eurozona (eurolixo)? Ou serão apenas os BRICS fazendo gestos para mostrar o que está escrito no muro – apontando para a direção de onde sopram os ventos?

A ideia básica (do Brasil) é que os músculos financeiros dos BRICS bem podem comprar umas poucas dívidas soberanas europeias. Mas só servem papéis “firmes” – da Alemanha ou do Reino Unido. O argumento básico é que os BRICS ganharão com diversificar suas reservas – na China, chegam a $3,2 trilhões; no Brasil, já passam de $350 bilhões; na Índia, acima de $320 bilhões – e fazer mais dinheiro do que se investirem em bônus do Tesouro dos EUA.

O negócio é que o seleto grupo dos BRICS já vem diversificando suas reservas há algum tempo – especialmente a China e o Brasil (que permanece como o 4º maior credor dos EUA, com mais de $210 bilhões a receber).

Haverá muita discussão em Washington. A Índia não dá sinais de muito entusiasmo. Nem a Rússia. Via Arkady Dvorkovich, principal conselheiro econômico do presidente Dmitry Medvedev, a Rússia já disse, curto e grosso, que os europeus que mostrem que têm alguma estratégia clara para salvar os PIGS (Portugal, Irlanda e Itália, Grécia e Spain), antes de a Rússia comprar mais bônus da eurozona.

Quero morder sua maçã

Quanto à China, não pergunte o que Pequim pode fazer pela Europa; pergunte o que a Europa já fez por Pequim. Ora. Fez pouco. A ação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) na Líbia – democratização a ferro e fogo – traduziu-se em perdas massivas para a China, que teve de organizar operação relâmpago de repatriamento de mais de 36 mil trabalhadores chineses e viu cancelados dúzias de contratos. E, isso, para não falar que os BRICS sempre se opuseram à guerra da OTAN – e os ‘rebeldes da OTAN’ na Líbia já ameaçaram pôr para escanteio as empresas brasileiras, chinesas e russas, na partilha do butim fresco.

O que Pequim realmente quer pode ser inferido do que disse o principal conselheiro do Banco Central da China, Li Daokui, no recente Fórum Econômico Mundial em Dalian: “As partes incrementais de nossas reservas em moeda estrangeira devem ser investidas em patrimônio físico”.

Tradução: “Gostaríamos de comprar ações da Boeing, Intel e Apple, e talvez investir proativamente nesses tipos de empresas.” Daokui disse que há espantosíssimos “$10 trilhões” à espera de serem investidos nos EUA – poder-se-ia acrescentar: só se passarem por cima do cadáver coletivo do Partido Republicano.

Daokui disse também que só depois que “o mercado do Tesouro dos EUA estabilizar-se”, a China providenciará para “liquidar a maior parte dos bônus do Tesouro que estão conosco”.

A palavra importante aqui é “liquidar” – não é “diversificar”. Aí está. Pequim, sim, realmente deseja livrar-se de todos aqueles dólares norte-americanos. Enquanto isso, continuará a comprar todas as empresas estrangeiras que puder, e, claro, inevitavelmente, também dólares norte-americanos. Os europeus que não se entusiasmem demais: Pequim gosta tanto de dívidas em euro, quanto de dívidas em dólares. De fato, a dívida em euros está sendo considerada, hoje, ainda mais mortífera.

A volta do europeu morto

Críticos do plano do Brasil dizem que a União Europeia não precisa de resgate. Que já está afogada no maremoto de euros que eles mesmos imprimem; que precisam, isso sim, de “disciplina fiscal”. Além do mais, é mau investimento: o euro fatalmente perderá contra o yuan, o rublo ou o real, e alguns países da eurozona talvez, até, deem calote na dívida.

O economista francês Emmanuel Todd – que já previa o declínio dos EUA antes, até, da invasão do Iraque –, define o euro como “conceito zumbi”. É mesmo – no sentido de que o norte da Europa, mais rico, jamais se disporá a abrir as burras para ajudar o sul mais pobre a alcançar nível econômico equivalente ao ‘do norte’.

O autismo nacional é a regra. O euro é cara demais para Grécia, Portugal, Espanha, Itália e, até, para a França. A relação euro/dólar norte-americano é adaptada para a Alemanha ou Holanda, não para os países do sul da Europa. Para esses países, o euro é como bomba de fragmentação lançada contra o crescimento.

E, porque a moeda é tão forte, as empresas não conseguem exportar. Estão-se deslocalizando feito doidas. E o desemprego explodiu. Por isso, sair do euro é solução para todos aqueles países que enfrentam problemas de competitividade. Podem desvalorizar a moeda e voltar aos negócios.

Mas aí vêm os contras. Tecnicamente, para esses países, voltar às respectivas moedas nacionais – dracma, peso, lira – já é, só isso, descomunal dor de cabeça. Então essas novas (velhas) moedas obviamente desabarão; segundo projeções do ING, cairão alguma coisa como 50% para Grécia e Espanha.

O que significa que as dívidas das empresas – em euros – crescerão exponencialmente. E o mesmo, para a inflação; estacionará em território de dois dígitos.

A única solução realista para a crise da Europa será um movimento rumo a uma Europa federal (algo como os Estados Unidos da Europa). Isso implicará que a dívida acumulada de tosos os países será dívida da Europa (implica também, em registro positivo, que acaba a especulação). A economia seria centralizada, administrada em escala europeia.

Nada, absolutamente nada, sugere que os cidadãos europeus estejam prontos a aceitar esse projeto. Então, a crise é sem fim.

Ô yeah, sim, quero segurança

O que os BRICS mais temem é que essa eurozona para sempre devastada, mais a estagnação nos EUA, levem a uma contração global que se espalhe, em grande escala, pela Ásia, pela América do Sul e África.

A opinião pública no mundo em desenvolvimento tem velhas lembranças. Muitos lembrarão o quanto o FMI “ajudou” o sul global, com seus aterrorizantes “ajustes estruturais” – desregulação geral e transferência de mais riqueza para os já mais ricos. –os BRICs, quem sabe, poderão impor suas próprias regras, em troca de “salvar” a Europa.

A “salvação” da Europa, na prática, talvez renda assentos permanentes no Conselho de Segurança para o “B” e o “I” dos BRICS (o “R” e o “C” já lá estão assentados). O Brasil exigiria verdadeiro e pleno “livre mercado” para produtos agrícolas. E a China exigiria verdadeira e plena liberdade para investir.

Mas todos sabem que nada disso acontecerá

Outra possibilidade – em termos de ajudar não só a Europa, mas a economia global como um todo – seria os BRICS lançarem massivamente projetos de infraestrutura. Fundos da União Europeia e dos EUA poderiam ser “encorajados” a entrar em ação. A China já fez; e o Brasil está fazendo; mas esses investimentos massivos em infraestrutura são sempre orientados, sobretudo, localmente e regionalmente, e não se estão traduzindo em mais empregos para europeus ou norte-americanos.

A Europa Ocidental, apesar de profundamente atingida pela crise, ainda é a maior economia do mundo; segundo a revista The Economist, pouco menos de 24% do total global, comparados aos 21% dos BRICS. E os europeus têm 32% dos votos no FMI Internacional, e os BRICS, só 11%.

Assim sendo, é provável que aí esteja o que os BRICS realmente querem obter: querem forçar uma nova correlação de forças no FMI. Para isso, por que não minar um pouco mais o poder do dólar norte-americano e desafiar um pouco mais firmemente a Europa? Sim, mas sem apostar em que o dólar norte-americano, ou o euro, os ambos, desabarão. Sun Tzu ergueria o dedão: vão em frente.

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