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09 de junho de 2011, 09h43

Possenti: Merval Pereira, guardadas as devidas proporções, é claro, deve tantas explicações quanto Palocci

Confesso que fico esperando a coluna do Possenti sair no Terra Magazine, é sempre uma leitura fantástica.

PS. O título que adotei no post é um trecho de uma das notas de sua coluna de hoje, fiquei em dúvida entre a frase escolhida e sua ironia com Caetano. Obviamente, a sua coluna prossegue e avança na real discussão sobre o aprendizado da língua portuguesa na escola e questiona as falsas polêmicas que rondam os especialistas de última hora em educação, livro didático, materiais pedagógicos, mas achei mais divertido a escolha que fiz :)

Ensinar o quê?
Por: Sírio Possenti, no Terra Magazine
09/06/2011
Já comentei neste espaço um programa Roda Viva que entrevistou Fernando Reinach. Ao final, perguntaram-lhe por que, na opinião dele, apesar de tamanho progresso científico em biologia, ainda há criacionistas. Sua resposta me impressionou: é que ensinamos ciência como se ensina religião, como se se tratasse de fé. Sua sugestão, para que este estado de coisas mude, é escolher alguns tópicos e “ensinar” o máximo possível sobre esses casos (já que é impossível ensinar tudo de maneira detalhada).

Exemplo: em vez de decorar as leis de Newton e fazer alguns exercícios, deve-se estudar a história que vai da ruptura com as teorias ptolemáicas até a física newtoniana. Tratar-se-ia de informar-se sobre os procedimentos de Tycho Brahe, de Kepler, de Galileu e de Newton: quais foram os dados coletados, como os coletavam, como chegaram a eles e como os organizaram até chegar a leis simples e gerais. Uma passada pela história de Giordano Bruno seria importante, para que os estudantes soubessem que, dependendo dos interesses confrontados pelas pesquisas, o cientista pode ser literalmente queimado (nos últimos tempos, não tem havido fogueiras, mas houve exílios, censura e muito emprego ameaçado; eventualmente, alguém poderia (os lingüistas, por exemplo) ser metaforicamente queimado por “inquisidores”…).

Tem-se lido, nas últimas semanas, que a escola não deve ensinar lingüística, mas português (ou gramática). Ora, tanto as diversas teorias lingüísticas quanto as diversas gramáticas têm duas faces: adotam uma teoria sobre a linguagem e desenvolvem ou seguem métodos de descrição e explicação dos dados. As gramáticas não só ensinam como se deve falar e escrever, mas também ensinam (empurram goela abaixo) que há passivas sintéticas, sujeitos ocultos, objetos diretos pleonásticos, que os substantivos designam seres e os adjetivos, qualidades etc. (sem análise de dados, sem nenhum argumento convincente). A lingüística faz a mesma coisa: cada teoria tem sua “filosofia” da linguagem e sua abordagem descritiva e explicativa (acho que argumenta melhor). Se se pode ensinar gramática (descritiva), por que não ensinar linguística? Para sonegar conhecimento?

O ideal, evidentemente, seria que os alunos pudessem aprender tudo, o que é impossível. Dadas as limitações, talvez seja interessante seguir a sugestão de Reinach (afinal, no mestrado ou no doutorado, o aluno estuda mesmo só um pequeno tópico – um tipo de fungo, uma conjunção, um fonema e suas variantes, um autor ou até mesmo um só livro deste autor).

O que a escola não pode fazer é ensinar pela metade o pouco que decide ensinar. Ou ensinar de maneira errada. Suponhamos que, no segundo grau, um professor de português (uma escola ou uma cidade) decida que os alunos devem ter uma idéia razoável do processo de mudança de uma língua (provocado, talvez, por um poema de Bilac).

Vai ter que escolher uma das seguintes alternativas: a) fornecer uma lista relativamente volumosa de palavras do português, e informar que vieram de tal palavra de outra língua (livro < liber; mulher < muliere; chuva < pluvia etc.); b) selecionar alguns casos especiais, que revelem diversos aspectos do processo de mudança, e fornecer aos alunos explicações mais completas.

Por exemplo, em vez de informar a seco que fígado vem do latim ficatum, pode mostrar que: a) na mudança, consoantes surdas se tornaram sonoras entre vogais (o “c” e o “t” de ficatum se transformaram em “g” e “d”) – e fornecer outros exemplos; b) em latim, fígado era jecur, antes de ser ficatum. Explicação: havia uma prática de engordar gansos, entupindo-os de figos (em latim, ficus) para obter fígados gordos, que eram uma iguaria (ainda são: os franceses adoram foie gras, fígado gordo). Com o tempo, a palavra que designava o fígado foi esquecida e substituída pela que informava qual tinha sido o alimento que transformara um fígado comum naquela maravilha. Ficatum não queria dizerfígado, mas “fígado”, com acento em GA, isto é, alimentado por figos.

Em suma: fígado vem de ficatum, é correto. Mas vêm como? Ocorreram mudanças sonoras (c > g; t > d; -um > o) e, além disso, uma sensacional metonímia: passou-se a chamar o fígado pelo nome que dizia respeito ao alimento que tornava o fígado especial (um fígado “figado”).

Há outros exemplos do mesmo tipo, bem conhecidos: pêssego consta como derivado de persicum, numa dessas listas bobas. De fato, os romanos chamavam o pêssego de malum persicum (maçã persa, da Pérsia); com o tempo, persicum (outra metonímia) passou a ser o nome da fruta; também houve mudanças de alguns sons: há uma assimilação de “r” pelo “s”; c > g (como emficatum) e muda-se o final da palavra.

Também há exemplos vivos. Dos vários tipos de lingüiça, um deles é a lingüiça calabresa, frequentemente chamada apenas de calabresa (pizza com calabresa, p.ex.). O adjetivo que a qualificava passa a ser seu nome.

Talvez não falte um aluno que pergunte, na aula sobre fígado, se é por causa dessa origem que os “caipiras” chamam o fígado de figo. Se fosse, mais do que coincidência, haveria a permanência de uma associação antiga. Mas não é. Nesta variedade popular, diz-se figo como se diz estamo (estômago), forfo (fósforo),abobra, chacra etc. A explicação mais óbvia para estes fatos é uma “tendência” do português a eliminar palavras proparoxítonas (pelo menos as populares), tornando-as paroxítonas – fenômeno que foi comum na passagem do latim ao português (áquilla > águia, ténebra > treva, ásinu > asno…).

Você acha isso feio, horrível? Pois aposto que diz abobrinha, chacrinha e xicrinha. Se diz, é porque deriva estas palavras de chacra, xicraabobra

Palocci & Merval

Merval Pereira, guardadas as devidas proporções, é claro, deve tantas explicações quanto Palocci. Palocci é médico e virou consultor financeiro de alto coturno. Merval é jornalista sem livro, exceto por uma coletânea de colunas, e virou imortal na Academia Brasileira de Letras. Como convenceu seus eleitores? A um jornal, disse que leu os clássicos russos e franceses, que sempre gostou de escrever e que fazia jornal na escola!! Moacyr Scliar deve estar arrependido de ter morrido.

Uma noite

Revi, no domingo, o documentário Uma noite em 1967, sobre o Festival da Record daquele ano. Caetano ficou em quarto lugar com “Alegria, alegria”, que cantou sob vaias no início e aplaudido no final. Entrevistado (em 2010) sobre o festival, sua participação e a dos primeiros colocados, sobre o tropicalismo que nascia etc., fez análises bastante interessantes. Sobre “Alegria, alegria” disse, entre outras coisas, que, nos shows, ainda pedem que a cante e que “de vez em quando, eu volto a cantá ela (sic)”.

Errado? Não! Certíssimo! “Cantar ela” é uma variante falada culta, absolutamente dominante na fala. E exatamente é igual à variante popular.

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Veja também:  Diante da pressão popular, governo recua e libera parte dos recursos para a Educação

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