Blog da Maria Frô

ativismo é por aqui

02 de abril de 2016, 11h42

Revista QuantoÉ o ódio? É por dúzia ou é por quilo?

quantoéoódio

A Revista QuantoÉ conseguiu superar a Veja.

Ivana Bentes e Soninha Correia escreveram dois posts em suas páginas que reproduzo aqui. Confesso que ontem quando vi a capa e a matéria (que além de um arrazoado misógino não nomeia uma única única fonte que sustente seus ataques grotescos) pensei: não vou dar visibilidade para esse lixo.

Quem acompanhou a semana da presidenta viu o acolhimento e o afeto que ela recebeu não apenas analisa a pseudo-matéria da QuantoÉ como uma peça de ficção e má-fé, mas entende que o objetivo central é tentar desesperadamente anular o poder de mobilização da sociedade civil organizada em defesa do Estado de Direito. A direita viu, mesmo que a imprensa tenha tentado esconder e desqualificar que além de mais de um milhão de pessoas mobilizadas nas ruas no dia 18/03 e mais um milhão no dia 31/03,  lideranças de inúmeros movimentos sociais, das periferias, do campo e da cidade, associações de juristas e advogados, mulheres, artistas e grande parcela da sociedade civil que preza a democracia, a legalidade, o Estado de Direito foram pessoalmente prestar seu apoio e solidariedade a Dilma Rousseff. Várias dessas personalidades e lideranças inclusive não são petistas e fazem oposição à política econômica do governo, não ao país.

Eu particularmente acho que já passou muito da hora das feministas deste país em massa saírem processando esta canalha. É preciso fazer um esforço, ter isso como meta. Não é possível que a bandidagem corra solta no jornalismo canalha e não haja instrumentos legais para punir a quem irresponsavelmente só despeja o ódio e abre totalmente mão de fazer jornalismo. E a Secom já passou da hora de parar de financiar esta canalha. Invista os recursos dos impostos que nós pagamos nas tvs e rádios públicas, comunitárias. Seque a fonte dos grupos midiáticos e monopolizados que só tem um objetivo: desestabilizar o país e pôr fim ao Estado de Direito.

Seguem os textos:

Por Ivana Bentes em sua página do Facebook

Um ataque as Mulheres! É um acinte, um desrespeito e uma violência contra todas as mulheres a capa da Revista IstoÉ com um texto vexaminoso, utilizando todos os estereótipos e adjetivos machistas e misóginos, para desqualificar uma mulher na Presidência do Brasil!

A estratégia da revista é a mesma utilizada no vazamento contra Lula, que expunha sua fala informal em telefonemas privados usados para desclassificá-lo moralmente.

Mas com Dilma Rousseff é ainda pior, mais escandaloso, sexista e intolerável. É um ataque as mulheres. Vendo o impeachment balançar na correlação das forças políticas, com uma reação vigorosa nas ruas do Brasil e na mídia internacional, a revista IstoÉ parte para uma desqualificação psicológica e emocional da Presidenta da República, que teria “perdido o equilíbrio e as condições emocionais para conduzir o país” e é descrita (sem fontes identificadas) como uma desequilibrada, histérica, furiosa e a beira de um ataque de nervos e propensa a atos violentos.

Trata-se de um ataque genérico de um jornalismo covarde (“fontes do Palácio do Planalto”) que usa aspas fantasmas (ninguém é citado!) para demolir sua reputação com base no ódio as mulheres que ocupam espaços de poder e nos clichês que descrevem uma mulher histérica, desequilibrada, destemperada, com “crises nervosas” sendo “medicada” para aplacar seus rompantes e acessos de violência e histeria.

O texto é uma peça de como a mídia passa a usar da pessoalização, de argumentos e análises extra política para demolir a pessoa, o caráter, construindo um personagem de ficção em que a Presidenta é comparada com “Maria, a Louca”, uma autista com uma retórica “cretina” e cuja permanência significa uma ameaça de “volta do terror”(!)

Passam de um estereótipo, “a gerentona masculinizada” , para outro: o da mulher acuada e descontrolada que responde a um ataque político não com articulação, atos, ações e discursos, mas como uma mulher histérica e furiosa quebrando móveis!

Os adjetivos utilizados para desqualificar a Presidenta mulher fazem parte de um extenso vocabulário moral, científico, médico e psicanalítico de destituição do feminino como força política, como sujeito social e como modo de ser e existir: mulheres irascíveis, fora de si, vingativas, destemperadas e moralmente e psicologicamente condenáveis!

O texto é uma peça para ser analisada pelos professores e estudantes de Comunicação, as feministas, os analistas políticos e simbólicos, e qualquer leitor critico como a derrocada de tudo que entendemos como jornalismo!

O “ódiojornalismo” produzindo peças maniqueistas e dualistas, textos de ficção e novelização do real se volta agora contra as mulheres!

Estamos vendo (é um sentimento cada vez maior) uma mulher honesta e digna, com um passado de luta, sofrer um ataque misógino e moral, sofrer uma injustiça política (impeachment sem crime é golpe!) em um ambiente extremamente hostil, machista e predador em que uma figura histriônica e corrupta de um homem como Eduardo Cunha se mantém liderando a Câmara dos Deputados comandando um golpe contra a Democracia no Brasil.

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NÃO HÁ LIMITES PARA O ÓDIO

Por: Soninha Correa

Acabei de ver a capa do panfleto semanário IstoÉ. Não li a matéria por dois simples motivos: 1) Não é possível que haja qualquer coisa que se aproxime de jornalismo, quando uma capa e sua respectiva chamada são de um nível que não consigo encontrar palavras para classificar. 2) Meu estômago não resistiria a tamanha putrefação.

A capa da IstoÉ ultrapassa todos os limites. Todos. Poderíamos falar do limite da dignidade humana. Ou, quem sabe, do desrespeito humano. Ou ainda à institucionalidade. Não. Nada disso responderia a atitude misógina do panfletário folhetim.

IstoÉ, para cumprir seu rito golpista, utiliza-se do pior proselitismo de reforço ao ódio, ao fascismo e ao machismo.

Quando uma médica se recusa a atender um bebê por este ser filho de alguém que pensa diferente de si, é por ter seu argumento embasado em situações dessa natureza.

Temos no país o que há de pior, em todo o mundo, no que diz respeito ao papel da mídia que, apoiada numa legislação retrógrada, faz o que quer, na certeza da impunidade.

A novidade do golpe é iniciar uma campanha que apresente a presidenta como uma louca. A desequilibrada que não tem condições de governar o Brasil.

Mas, tenho que dizer: nisso Lula e Dilma tem culpa, sim. Não fizeram as reformas estruturantes e democratizantes que o país tanto necessita.

Entre elas, destaco, a reforma da mídia. Subestimaram o papel que a imprensa golpista poderia exercer (e está exercendo) em favor da classe que representa e serve, utilizando-se das gordas verbas publicitárias. Subestimaram, em última instância, a luta de classes.

Pois, se Dilma está sendo tratada como demente, pelo menos que tenha um surto de lucidez e decrete uma nova Lei de Meios no Brasil, que puna minimamente crimes como essa capa de IstoÉ.