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08 de julho de 2013, 18h01

Uma análise sobre necessidade de médicos e condições de trabalho em prefeituras, com base em minha experiencia em saúde publica

QUEM DERA FOSSE SIMPLES ASSIM

Uma análise sobre necessidade de médicos e condições de trabalho em prefeituras, com base em minha experiencia em saúde publica.

Por: Ricardo Wândega*, em seu Facebook, via Renam Brandão

Existe muita generalização, na discussão dos médicos estrangeiros. Diversas outras coisas têm de ser observadas.

Não sou contra a vinda de médicos. Isso é corporativismo puro. Com menos vagas livres o salário médio tende a abaixar ou demorar pra reajustar, pois diminui o poder de barganha.

Enquanto classe essencialmente capitalista da até pra entender que os médicos reajam assim. Mas veja como no afã de desqualificar esquecemos de coisas mais importantes. Por exemplo: muitas vezes esses salários não são pagos em dia e as condições de trabalho são péssimas.

O problema da falta de médico é multifatorial. Já existem investimentos em faculdades, novos cursos e até em mudança da grade priorizando matérias de saúde publica, coletiva e sanitária. Os investimentos federais são imensos. Aí vem o problema maior que ninguém fala: as prefeituras e secretarias de saúde muitas vezes são puramente bunkers políticos, centralizados em poucas pessoas.

Quem tem noção de qualidade em saúde pública está limitado ou atado por gente que não sabe nada do setor, e só quer usar (não só os médicos) os profissionais e os serviços de saúde, pensando em objetivos eleitorais. Não se consegue mudar saúde só com dinheiro. As prefeituras não utilizam as verbas corretamente, isso se utilizarem. Perdem muitos investimentos por falta de projetos, ou porque não deram a contrapartida financeira. Muitas atrasam os salários, ou não pagam o prometido, não investem nos hospitais (a não ser que o dinheiro seja investimento federal ou estadual direto).

Como exemplo: meu salario atrasou 3 meses, eu sou o único gastro endoscopista da microrregião que trabalho… Mesmo assim não me contrataram de novo, provavelmente por motivos políticos, ou “contenção” de despesas. Preferiram ficar sem.

A classe medica é no geral, elitista e egoísta e quase sempre o dinheiro vem antes de tudo. As exceções não têm vencido a batalha do público x privado. Não me sinto representado pela minha própria classe. Não consigo sequer conversar alguns minutos com colegas, sobre assuntos como esse sem me irritar (preconceitos escorrem da boca a cada frase). Apesar disso não acredito realmente que alguém deixaria outro morrer na emergência, como vi em algumas postagens.

Que fique claro que não defendo essa guerra entre médicos e sociedade. O que realmente mudaria a cabeça desse pessoal seriam boas grades curriculares, e um sistema publico que atraísse e fosse gratificante de ser defendido, com sólidos e consistentes planos de carreira, e estrutura (tem hospitais e postos, que avalio ser mais seguro arriscar, ficando em casa!). A verdade é que o futuro profissional já sai da faculdade com a ideia de que o SUS é só uma etapa ruim, que vai passar. Eu passei 7 anos sendo médico de família e sanitarista…. E estou completamente decepcionado por não conseguir fazer as coisas que pretendia. Culpo principalmente as prefeituras. E Deus sabe o quanto eu briguei (Na Bahia ainda é pior). Infelizmente, hoje só estou trabalhando no setor privado, às vezes prestando serviço pra prefeituras.

Sinto-me vazio sem os pacientes do serviço público, mas o nível de exploração e uso político das prefeituras pequenas (que é meu nicho de trabalho) estava insuportável. Enfim, não dá pra reduzir tudo a médicos sem coração e falta de médicos.

Existe muita gente dedicada e comprometida com a saúde pública. Meu intuito era mostrar que a discussão está sendo feita de forma rasa e superficial. Quem dera fosse simples assim.

*RICARDO WÂNDEGA – Médico Sanitarista – Especialista de Família e Comunidade.

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