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25 de setembro de 2014, 23h18

Wagner Iglecias: Marina na CUFA, com discurso fácil da meritocracia, deseduca o eleitor

Deseducação política

Por Wagner Iglecias, especial para o Maria Frô

Em evento nesta 5a. feira, na sede da Central Única das Favelas, no Rio de Janeiro, a candidata Marina Silva insinuou que o atual governo quer se apropriar do esforço individual de milhões de pessoas que melhoraram de vida nos últimos anos: “Não é correto o governo, qualquer governo, o meu –se Deus o povo brasileiro quiserem e eu for eleita–, o PSDB, o PT, quem quer que seja, se apropriar do esforço das pessoas e tentar passara a ideia de que tudo que você conquistou foi o governo que te deu, isso não educa nem ao governo, nem à sociedade. É a visão patrimonialista, da casa grande e da senzala.’

Foto: CUFA
Marina, até por sua origem extremamente humilde, sabe como ninguém o quanto o povo brasileiro rala, sempre ralou, e muitas vezes em condições extremamente difíceis. É óbvio que a melhoria de vida dos mais pobres se deve ao seu esforço. Mas este esforço, por parte do povo, sempre existiu. O que não existia eram condições para que este esforço desse resultado. Logo, não fosse a criação de programas sociais por parte do governo e de um ambiente econômico propício, esses milhões de pessoas não teriam subido na vida. Ou será que nos anos 1980 (ou antes do Plano Real, ou antes do Bolsa Família, ou da geração de milhões de postos de trabalho), quando a imensa maioria do país era muito pobre, as pessoas não ralavam e não se esforçavam?

Que governantes tentem, o tempo todo, incutir na cabeça dos eleitores o quão maravilhosos são, e quanto benefício trouxeram às pessoas, é algo tão natural quanto as tantas promessas que fazem visando conquistar um novo mandato ou apear do poder um adversário. Nesse sentido o governo petista não é diferente dos demais. No entanto, ao apelar para o discurso fácil da meritocracia, da redução de tudo ao esforço individual, quem deseduca o eleitor é Marina. É claro que num processo de ascensão econômica de milhões de pessoas tão despolitizado como foi o verificado neste governo petista qualquer candidato se depara com um terreno fértil para o blablablá fácil. Mas relegar a segundo plano a política e a economia para tratar o fenômeno social mais importante do país neste século é no mínimo imprudente. Ainda que em eleição valha dizer qualquer coisa.

Para completar, a candidata coroou seu raciocínio falando em patrimonialismo e casa grande e senzala. Evocou Raymundo Faoro e Gilberto Freyre para, acho, fustigar o PT. Ou li muito mal Os Donos do Poder e Casa Grande e Senzala ou acho que ela quis, na verdade, referir-se a clientelismo. O que, se foi isso mesmo, reitera a ideia bastante conservadora e difundida em amplos setores da sociedade brasileira de que política social é algo irrelevante e que se resume a um toma lá, dá cá para compra de apoio político.

*Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.