10 de outubro de 2014, 16h28

“A Bolívia é o país que mais crescerá na América Latina”, elogia FMI

Segundo informe da organização, o país teve com os oito anos de Evo Morales melhorias em seus índices sociais e econômicos – provável consequência de um rompimento das políticas econômicas pós-neoliberais recomendadas pelo próprio FMI e o Banco Mundial

Por Vanessa Martina Silva, em Opera Mundi

“A Bolívia é o país que mais crescerá na América Latina, junto com a Colômbia”, diz o informe mais recente do FMI (Fundo Monetário Internacional), publicado nesta terça-feira (07). Apesar da economia em expansão, o maior desafio do país nos próximos anos será superar totalmente a pobreza extrema, que, segundo a ONU atinge 25,4% da população. Questões econômicas, infraestrutura e os desafios sociais que persistem no país estão entre os pontos centrais das eleições, que serão realizadas neste domingo (12) para escolher presidente, vice-presidente, senadores e deputados no país.

Em termos econômicos, o país resistiu melhor que grandes economias latino-americanas à crise financeira internacional iniciada em 2008. O movimento de combate aos efeitos da crise foi feito pela forte presença de empresas públicas, que foram ampliadas, em todos os estados do país de forma descentralizada e contribuíram para fortalecer o mercado interno.

“Há vários anos, o desempenho macroeconômico da Bolívia tem sido muito bom. Essa performance, ativamente apoiada em políticas sociais, ajudou a aumentar em quase três vezes a renda média da população e reduziu a pobreza e a desigualdade”, disse a economista do FMI Ana Corbacho, em coletiva de imprensa concedida no começo do ano. Para 2014, a estimativa do organismo é de que o país cresça 6,4%.

Para entender o cenário econômico boliviano e os desafios que deverá ser enfrentado pelo novo governo, Opera Mundi conversou com o economista, diretor do Celag (Centro Estratégico Latino-Americano de Geopolítica) e professor de pós-graduação da Flacso (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais), Alfredo Serrano, que está em La Paz para acompanhar o processo eleitoral no país andino.

O informe do Celag sobre as eleições bolivianas, publicado no último mês, avalia que o desafio para o próximo mandato presidencial será manter o crescimento sustentável, diminuir o desemprego, superar a pobreza e a pobreza extrema, melhorar os índices de saneamento e expandir a infraestrutura com a criação de estradas e o fornecimento de gás para o interior do país.

Para Serrano, a avaliação positiva do FMI com relação à Bolívia é consequência de um rompimento das políticas econômicas pós-neoliberais recomendadas por organismos internacionais como o próprio Fundo e o Banco Mundial. “[Isso] Gerou efeitos e resultados que não são os defendidos fundamentalmente pelo FMI”, avalia o economista.

Após nacionalizar setores estratégicos, o país ordenou as contas, redistribuiu excedentes econômicos com políticas sociais e isso “teve um efeito dominó no consumo interno, além de satisfazer necessidades básicas, que antes eram insatisfeitas. Além disso, o modelo adotado hoje permite ao país acumular uma reserva que se encontra acima da média regional em termos do PIB, o que aplaude o FMI”, avalia Serrano.

Crise econômica

Os números positivos se devem também à particularidade da economia boliviana. “Apesar de Brasil e Argentina terem grandes ‘translatinas’ [empresas que operam na América Latina e no Caribe], dependem muito do capital financeiro internacional. Os modelos produtivos também são estruturas concentradas em poucas mãos. Já a Bolívia tem a vantagem de ter um modelo econômico arraigado na produção comunitária pré-capitalista com certa logica de intercâmbio capitalista”, esclarece Serrano. A economia boliviana é, portanto, pouco dolarizada. Nos últimos anos, inclusive, a tendência é de que a moeda nacional cresça, fortalecendo ainda mais a economia, observa.

Apesar dos avanços obtidos no país, Serrano considera que não é possível falar, ainda, em uma entrada massiva de pessoas na classe média, embora “seja certo que as pessoas estão em condição melhor do que antes”. Para o especialista, o grande desafio para o futuro da Bolívia é modificar a matriz produtiva do país para satisfazer, de forma sustentável, a nova demanda interna e assim “não depender fundamentalmente das importações, como sucede em outros países da América Latina”.

Integração regional

A integração latino-americana é outro ponto importante dentro desse processo, aponta o professor. “A Bolívia entendeu que qualquer mudança interna exige uma fórmula diferente nas relações exteriores. O governo entende que a recuperação da soberania é a única maneira de transformar o modelo econômico interno de forma virtuosa e entende que só se pode resistir ao capital transnacional a partir de uma grande aliança regional. Isso é uma das coisas que Bolívia levou a cabo com muito afinco”.

No âmbito regional, a integração é o caminho para se proteger de certas ofensivas a partir de alianças com Estados como Brasil, Argentina, Venezuela e Equador, avalia o economista. “É fundamental assumir um papel protagonista na região e considero oportuno participar do Mercosul diferente da era neoliberal, com rosto mais humano”. Ele conclui que a aproximação com o G-77 + China “mostra como a Bolívia deixou de ser um país isolado, satélite dos países capitalistas mundiais, para ser parte ativa das novas transições geopolíticas no âmbito mundial”.

Foto de Capa: Diálogos do Sul