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22 de Maio de 2014, 19h45

Boliviana constrói casas de garrafas para famílias em situação de extrema pobreza

Projeto começou há 14 anos e já ajudou mais de 300 famílias de países latino-americanos Por Naiara Araujo, da Agência Plano  Ingrid Vaca Diez, boliviana nascida e criada na cidade de Warnes, em Santa Cruz, colocou em prática uma ideia com a qual sonhava desde que era uma niña (criança, em espanhol). Fundadora e idealizadora do Casas de […]

Projeto começou há 14 anos e já ajudou mais de 300 famílias de países latino-americanos

Por Naiara Araujo, da Agência Plano 

Ingrid Vaca Diez, boliviana nascida e criada na cidade de Warnes, em Santa Cruz, colocou em prática uma ideia com a qual sonhava desde que era uma niña (criança, em espanhol). Fundadora e idealizadora do Casas de Botellas, projeto que constrói moradias para famílias em situação de extrema pobreza utilizando garrafas pet, ela conta com um misto de orgulho e animação que já ajudou a construir mais de 300 casas na Bolívia e em países vizinhos. Em passagem pelo Brasil, Ingrid conversou com PLANOsobre a iniciativa e não escondeu sua vontade de implantar a ideia no maior país da América Latina.

Tudo começou em 2000, quando Ingrid Diez já ajudava a comunidade do bairro Alfredo Vaca Diez, nome dado em homenagem ao seu pai, ex-prefeito da região. Envolvida com causas humanitárias e com a desigualdade social que cerca os países latino-americanos, Ingrid decidiu realizar o sonho das crianças do bairro, perguntando o que elas gostariam de ganhar de presente. Brinquedos foram a maioria entre as respostas, mas um pedido chamou sua atenção. “Todos escreviam cartas falando que queriam uma bicicleta, um vestido, sapato e bolas. Só uma menina falou que queria um quarto para poder dormir, porque eles eram em oito em sua casa e dormiam muito apertados. Foi a única criança que eu demorei para entregar o presente”, conta.

Casa feita com garrafas PET em pleno processo de construção. (Foto: reprodução/Facebook Casas con Botellas)

Casa feita com garrafas PET em pleno processo de construção. (Foto: reprodução/Facebook Casas con Botellas)

“Vai ser de lixo?”

Ingrid usava garrafas de plástico para fazer artesanato e o acúmulo do material na sua casa resultou em uma briga entre ela e o marido, que se irritou com a quantidade espalhada pelo jardim. No meio da discussão, ele disse, em tom de ironia, que com aquele tanto de garrafas seria possível construir uma casa. Ela conta que concordou, mas jamais pensou que isso um dia aconteceria.  Com a ideia na cabeça, ela começou a fazer experimentos para descobrir um material que pudesse ser usado como cimento. Depois de fazer cerca de dez testes misturando materiais como barro, açúcar, mingau e linhaça, ela ficou satisfeita com os resultados e resolveu colocar o plano em prática.

Ingrid foi até a casa de Claudia, a garota que pediu um quarto, e foi contar a novidade para a mãe da menina: “Maria, já sei como te fazer uma casa”. Quando descobriu de qual material o novo lar seria feito, Maria continuou contente, mas perguntou surpresa: “vai ser de lixo?”.  A primeira etapa para a construção era juntar as garrafas. Animada com a ideia, Ingrid conta que começou a recolher muitas garrafas, saía de carro de madrugada para recolher nos lixos dos bairros mais próximos.

A primeira construção feita de garrafas na comunidade foi um berçário. Depois, Ingrid começou as obras da casa da família de Claudia, que demorou cerca de quatro anos para ficar pronta. Apesar do tamanho da casa (190m²), o que atrasou a construção foi a falta de material e de trabalho voluntário. Com todo o material e um grupo de 8 ou 10 pessoas, ela garante que é possível construir uma casa em 20 dias.

Uma das missões do projeto é fazer com que a família trabalhe pelo seu lar e isso atrapalhou, porque os pais e os irmãos de Claudia não quiseram trabalhar. Somente no segundo ou terceiro ano eles começaram a ajudar na construção. “A ideia não é que se faça e entregue a casa, eu não quero assim”, explica Ingrid. “As pessoas que vão morar na casa também têm de trabalhar. Eu faço casa para pessoas que têm sete, oito filhos e são muito pobres. Quando você trabalha na casa, você dá mais valor, não é só um presente”.

Os objetivos principais do projeto são: oferecer moradia digna, ensinar ecologia e dar trabalho. Para Ingrid, é muito importante que essas famílias saibam trabalhar e aprendam a produzir, assim elas poderão ajudar em outras construções.

Autodidata

Por formação, Ingrid é advogada, administradora de empresas e auditora. Quando questionada se fez algum curso de arquitetura para aprender a construir casas,  ela ri e nega com a cabeça, e explica que comprou livros e começou a estudar por conta própria. “Eu ia a algumas obras que estavam sendo edificadas e olhava muito, observava e perguntava. Agora, eu mesma faço os desenhos, com um papel e um lápis traço um dormitório, dois dormitórios, banheiro, sala, cozinha e pronto. Não preciso planta, só de olho”.

Com a ajuda de doações, que não são muitas, Ingrid vai seguindo com o projeto. Conseguir as garrafas é uma das tarefas mais difíceis, pois para cada metro quadrado são necessários 82 recipientes de 2L, ou 240 de 600ml.  A estimativa de custo de cada casa é de U$ 8 mil a 10 mil, porque além do material reciclável, as casas precisam de telhado, portas, janelas e tinta, que acabam sendo comprados por ela com a ajuda do marido, um empresário boliviano que apoia a ideia financeiramente.

Ingrid mantém o projeto sozinha: não existe um grupo porque, segundo ela, as pessoas não querem trabalhar voluntariamente. “Vão um dia e depois não voltam, o trabalho é muito pesado. Faz quem gosta, sem receber nada em troca, como eu”.

No Brasil

Aos 51 anos e com energia de sobra, a advogada não tem planos de parar e não esconde o desejo de implantar o projeto no Brasil, “Eu quero fazer e ensinar, aproveitar que vou voltar para cá antes do ano acabar”. Ingrid acredita que aqui a população é mais conscientizada sobre material reciclável do que na Bolívia e fala animada da coleta de lixo seletiva que viu em alguns lugares do país.

As casas feitas de garrafa se espalharam pela América Latina nos últimos anos. Além da Bolívia, Argentina, México, Panamá e Uruguai também já estão construindo esse modelo com a ajuda de Ingrid. Para alguns lugares, ela viaja e coloca a mão na massa; Para outros, o Facebook  tem sido um aliado. Até mesmo por meio de videoconferência e compartilhando fotos ela já ensinou o passo a passo da construção.

Crédito foto de capa: reprodução/Facebook Casas con Botellas