Colunistas

06 de outubro de 2018, 11h20

Bolsonaro 2022

Tomaz Amorim, em novo texto, diz que “uma vitória de Haddad ou de Ciro no segundo turno destas eleições, com seus planos de governos de centro e suas disposições aos velhos acordões, é garantia de vitória de Bolsonaro em 2022"

Foto: Agência Câmara

Nas últimas eleições nos Estados Unidos, os membros do Partido Democrata traçaram uma estratégia perigosa e fatal que culminou na presidência do bilionário republicano Donald Trump. Quando ambos os partidos ainda realizavam suas prévias, os democratas, sob o controle de Hillary Clinton, fortaleceram a presença de Trump na mídia, por considerá-lo então um adversário mais fácil de ser batido, atrapalhando assim as pretensões de campanhas republicanas mais moderadas, como as de Marco Rubio, John Kasich ou mesmo Ted Cruz. Quando o inesperado (embora não imprevisível) aconteceu, e Trump começou a subir vertiginosamente nas pesquisas, o erro de Hillary acabou colocando em risco sua própria candidatura dentro do Partido Democrata. As pesquisas indicavam que ela perderia para Trump e que seu adversário nas prévias seria o único capaz de derrotá-lo: o socialista Bernie Sanders, que fez comícios históricos durante sua campanha, mobilizando de forma inédita nos EUA sobretudo jovens eleitores, desejosos de transformações radicais. Em posse da informação de que Sanders venceria Trump, mas Hillary não, a direção do partido insistiu ainda assim com sua candidatura que levou ao resultado inesperado, embora não imprevisível, da vitória de Trump.

A situação da esquerda e do centro nas eleições deste ano no Brasil é semelhante. Bolsonaro, que nas últimas eleições mal tinha saído da posição de membro do baixo clero do Congresso Nacional, alcançou em curto tempo uma ascensão avassaladora, incomparável com qualquer outro candidato na história recente da política. Como Trump, ele é fruto do uso da propagação de fake news e discurso de ódio na internet, sobretudo contra mulheres e grupos historicamente oprimidos. É a ressaca dos homens trabalhadores que sentem sua posição social ameaçada, de um lado, pelos avanços do feminismo (que eles veem apenas como ameaça e não como movimento de justiça social), de outro, pela crise econômica internacional que derrete há uma década seus salários e poder de consumo. Sem entender que a libertação de gênero é de todos, e não apenas das mulheres, e sem conseguir identificar os responsáveis pela crise político-econômica, sempre encobertos pela mídia, acaba sobrando para os bodes-expiatórios da vez: mexicanos, mulheres, LGBTs, haitianos, venezuelanos, negros, povo de santo, indígenas etc. Todos os que não são como eu são os culpados: menos, é claro, os banqueiros e seus lacaios nas redações dos jornais, nas assembleias legislativas e nos palácios de governo. Se há racismo, classismo, machismo em períodos mais estáveis, estas manifestações não se comparam com sua forma mais pura de ódio organizado que toma as massas em períodos de crise. Nunca faltam também os mestres do ódio, patrocinados rapidamente pelos verdadeiros responsáveis pela crise, do seu trono seguro nas Bolsas de Valores, que dirigem a frustração socioeconômica em termos identitários, étnicos etc. Não há fascismo de massa sem crise econômica e sem falta de perspectiva política.

Veja também:  AO VIVO: Ministro da Educação se explica à Câmara sobre cortes na educação

Mas também é importante lembrar um segundo fator determinante na ascensão de Trump e Bolsonaro. Se a crise permanente e crescente que os trabalhadores experienciam desde 2008 ofereceu aquele ambiente apropriado para o crescimento do populismo de extrema direita, sua participação escrachada, outsider, no sistema político precisou ser autorizada, legitimada por forças políticas tradicionais já instituídas. Esse favor quem fez foram justamente seus adversários. Nos EUA, Hillary com Trump e, no Brasil, PT – sob cujos governos fortaleceu-se o centrão, a bancada da bala e a bancada evangélica, grupos de sua base aliada durante a maior parte dos seus governos e base justamente onde se estabeleceram nomes medíocres como Bolsonaro, Eduardo Cunha, entre outros – e PSDB (que abandonou qualquer pudor democrático a partir de 2014, capitaneado pelo derrotado Aécio Neves, instaurando definitivamente no Brasil o clima de que valia tudo para tirar o PT do poder, tudo mesmo, como bem entendeu uma parte grande do seu eleitorado, até o Bolsonaro). Quando perceberam o erro e viram o monstro que ajudaram a criar, já era tarde. Trump eleito e Bolsonaro no segundo turno.

Se o debate sobre as pesquisas eleitorais do segundo turno, que até agora dão Ciro Gomes, intocado pelo antipetismo, como vitória mais certa sobre Bolsonaro, é argumento seguro, semelhante aos dos apoiadores de Bernie Sanders entre os democratas estadunidenses, falta nele ainda uma visão mais profunda das razões do surgimento de um Bolsonaro e, sobretudo, da tendência do seu crescimento. Este debate estratégico precisa ser ponderado a partir de uma distância maior. Não basta impedir o fascismo aqui e agora se sua tendência é continuar crescendo até nos engolir a todos. A pergunta sobre quem uma aliança antifascista deveria apoiar no primeiro turno não deveria ser tomada olhando para o segundo turno, mas para 2022.

Veja também:  Bolsonaro divulga texto anônimo que sugere renúncia

Em 2017, quando a Europa respirava aliviada após a vitória de Emmanuel Macron contra a candidata da extrema direita Marine Le Pen na França, o filósofo Slavoj Zizek jogou um balde de água fria na euforia geral prevendo uma vitória acachapante de Le Pen nas próximas eleições francesas, porque justamente ele, Macron, candidato dos grandes bancos, não poderia estancar a crise que destruía aos poucos a classe média e justamente empurrava os trabalhadores, sem referência de esquerda, para os braços do populismo de direita. Apenas um programa de esquerda contrário aos bancos, que taxasse fortunas ao invés de concentrá-las cada vez mais, ofereceria uma solução aos olhos da maioria. Neste sentido, a vitória de Macron acabava de enterrar as poucas e últimas esperanças da maior parte dos trabalhadores em um regime democrático, ou seja, em um regime que é governado a partir dos anseios da maioria para a melhora da qualidade de vida da maioria. É na falha da democracia sob o capitalismo que aparecem os defensores do capitalismo sem democracia. A semelhança com o Brasil é evidente.

Uma vitória de Haddad ou de Ciro no segundo turno destas eleições, com seus planos de governos de centro e suas disposições aos velhos acordões, é garantia de vitória de Bolsonaro em 2022. Nem a direita, nem o centro têm condições de oferecer uma solução para a concentração de renda galopante no Brasil. Justamente aqui, o país mais desigual do mundo, em que dez por cento da população concentra metade da renda, com tendência a acumular cada vez mais. A esquerda mundial encontra-se ainda desorganizada, mas a necessidade de seu ressurgimento permite pequenos momentos – ainda incompletos – de sonho coletivo. Desde a Primavera Árabe, a sociedade global assiste a tentativas, no centro e nas periferias, do Occupy Wall Street à luta das mulheres curdas, de organização autônoma de trabalhadores e jovens. Que parte grande destes movimentos tenha terminado com regressões conservadoras, como os processos iniciados em junho de 2013 no Brasil, é prova mais da incapacidade da esquerda tradicional e da nova de dialogar com a insatisfação justa das massas, do que de uma inclinação conservadora inicial. As eleições de 2018 no Brasil estão sendo disputadas sob o signo do medo, do menos pior, no limite, de uma defesa do conservadorismo como se ele fosse antídoto para o conservadorismo mais radical que cresce no horizonte. Apenas um plano de governo que ouse enfrentar a concentração brutal de renda e terras e mídia no Brasil aplacaria a fúria justa e mal direcionada da maior parte dos trabalhadores.

Veja também:  Crônica de 15 de maio

Sintomático

Neste sentido, é muito sintomático que Bolsonaro dependa dos votos brancos e nulos para vencer no primeiro turno. É do desencanto com a política que ele tira suas forças. (Walter Benjamin, o filósofo judeu suicidado pelo nazi-fascismo durante a Segunda Guerra Mundial, explicou que o Fascismo sempre surge como testemunha de revoluções fracassadas, que o Fascismo parodia o Socialismo como o Anticristo parodia a promessa messiânica). O contexto político sem uma voz forte que ouse defender programas de esquerda (o que aconteceu com as pautas civilizatórias da reforma agrária ou da regulamentação da mídia, por exemplo?), o contexto político em que socialistas, trabalhistas e socialdemocratas se acotovelam para mostrar ao mercado quem é mais obediente, quem é o mais liberal, o contexto político sem alternativa de esquerda é o que alimenta a candidatura de Bolsonaro e, infelizmente, é esse cenário de continuidade benéfica a ele que se anuncia com uma vitória de Haddad ou Ciro Gomes na maneira com que suas candidaturas têm se construído até agora. Ainda há tempo de mudar, seja fortalecendo novos projetos, como os de Guilherme Boulos do PSOL ou de Vera Lúcia do PSTU, seja reformando, a partir de uma posição intransigentemente de esquerda, estes planos de governo com maior alcance e evitar assim não uma tragédia possível a curto prazo, mas uma tragédia certa a médio e longo prazo (ou seja, que se instalará progressivamente a partir de 1.º de janeiro de 2019).