05 de novembro de 2018, 18h20

Bolsonaro 3 em 1

Juliano Medeiros: “Resta saber se teremos condições de compor as alianças necessárias para desmascarar o projeto bolsonarista antes que ele destrua o Brasil”

Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Em artigo publicado no último domingo (4), Miriam Leitão afirma que “o novo governo vai ter que enfrentar o dilema de escolher em qual das suas agendas pretende investir a lua de mel do começo do mandato”. A colunista do jornal O Globo se refere às três agendas que deram o tom dos primeiros discursos e anúncios feitos por Bolsonaro na última semana.

A primeira agenda seria aquela reivindicada pelo mercado e que fez com que especuladores de todo o mundo comemorassem a vitória do ex-capitão. No centro dessa agenda está a reforma da previdência, com aumento da idade mínima para aposentadoria e ampliação da participação do mercado de previdência privada. Inclui, ainda, privatizações de empresas estratégicas e o aprofundamento da desregulamentação das leis trabalhistas, ampliando a retirada de direitos iniciada por Temer. Uma agenda ultraliberal, defendida de forma pragmática por Bolsonaro para ter o apoio de setores do mercado.

A segunda agenda seria aquela representada pelo “bolsonarismo” puro sangue. Essa agenda é composta de uma série de medidas conservadoras que buscam retirar direitos conquistados por minorias ou impedir sua expansão. Inclui também propostas como a flexibilização do estatuto do desarmamento, a criminalização dos movimentos sociais e a perseguição de professores através do horrendo projeto “Escola Sem Partido”. É uma agenda movida pelo ódio, pela campanha de demonização das esquerdas, pela ignorância e pela má-fé. E é a que melhor representa a visão de mundo do presidente eleito e do bando de lunáticos que forma seu séquito de devotos.

A terceira agenda, incluída de última hora, é a da luta contra a corrupção. Para conduzi-la, Bolsonaro nomeará nada menos que Sérgio Moro como “superministro” da Justiça. Além de manter a fidelidade de setores da classe média reacionária, a nomeação é um gesto para um segmento que alcançou poderes inimagináveis nos últimos anos: a magistratura federal. Com o fim iminente do foro especial por prerrogativa de função (o chamado “foro privilegiado”) nada mais útil a uma coalizão recheada de velhas raposas da política – como Onix Lorenzoni e Alberto Fraga – e sociopatas – como Alexandre Frota e Kim Kataguiri – do que manter boas relações com os juízes que, muito em breve, terão poderes para perseguir os políticos que bem entenderem.

A existência dessas três agendas, descrita por Míriam Leitão, parece-nos correta. O que é incorreto, no entanto, é imaginar que Bolsonaro terá de priorizar uma delas, ou ainda, que possa haver algum nível de incompatibilidade entre elas. Pelo contrário. A agenda tipicamente bolsonarista mobiliza o que há de pior na sociedade brasileira e horroriza qualquer democrata, é verdade. Mas serve perfeitamente como “cortina de fumaça” para fazer avançar a destruição dos direitos e a entrega do patrimônio público. Enquanto parte da intelectualidade crítica e do mundo da cultura se mobiliza em petições e abaixo-assinados online, Bolsonaro costura acordos com o mercado e o Congresso Nacional para viabilizar, com a menor resistência possível, a reforma da previdência que, em 2017, foi barrada pela mobilização nas ruas.

O mesmo vale para a presença de Moro no superministério da Justiça. Além de acenar para a magistratura e fortalecer a agenda ultrapunitivista do Ministério Público, Bolsonaro mantém a cruzada contra a corrupção na ordem do dia. Com isso, neutraliza parte da opinião pública e arrasta até mesmo setores progressistas da sociedade – e com eles, vergonhosamente, parte da esquerda – para a cantilena de que a corrupção é o pior dos males no Estado brasileiro. Portanto, se bem administrada, a agenda do combate à corrupção pode ser tão ou mais instrumental que a agenda bolsonarista para minar a resistência da opinião pública às suas medidas econômicas.

Isso significa que lutar, por exemplo, contra o projeto “Escola Sem Partido” ou denunciar a transferência da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém é perda de tempo? Claro que não. Teremos de combater todas as medidas que representem retrocessos. Mas é preciso perceber que numa correlação de forças desfavorável e com tropas visivelmente limitadas, as forças democráticas e progressistas terão de escolher em quais batalhas apostar suas fichas. Evidentemente, essa escolha se dará levando em conta a capacidade de compor alianças mais amplas em cada um dos combates e o nível de disposição para a luta de nossos próprios batalhões.

No caso da agenda bolsonarista, por exemplo, é possível que o arco de alianças seja mais amplo, atraindo setores liberais e de “centro”. Com isso, poderemos conquistar vitórias mais facilmente, como demonstrado, essa semana, pelo recuo de Bolsonaro na proposta de fusão entre os ministérios do Meio Ambiente e da Agricultura. Já na agenda econômica ou na agenda punitivista, por exemplo, esses liberais tendem a se alinhar com o governo, deixando a resistência a cargo de uma esquerda que ainda está em busca de uma linha de ação unitária para enfrentar o novo cenário.

Seja como for, está claro que a tática de alimentar a divisão do país a partir da agenda dos costumes ou da luta contra a fantasiosa “ameaça comunista” seguirá vigente no governo Bolsonaro. Da mesma forma, ele utilizará a potente arma de propaganda criada em torno da operação Lava Jato a seu favor, pelo menos até surgirem os primeiros escândalos de corrupção em seu governo. Com essas duas agendas, ele poderá criar distração suficiente para fazer avançar seu projeto de entrega do patrimônio nacional, destruição dos direitos e perseguição a seus adversários. E tudo com a ajuda de uma gigantesca máquina (possivelmente importada) de disseminação de mentiras na internet que, sem interferência das instituições do Estado, seguirá agindo impunemente.

Por isso, a esquerda precisará encontrar formas eficientes para enfrentar essas agendas. Como mostrar à maioria do povo brasileiro que uma sociedade que respeita as diferenças e a tolerância tem melhores condições de garantir paz e prosperidade? Como desconstruir a ideia de que a corrupção é o pior dos males no Brasil e que a chamada “luta contra a corrupção” se tornou um instrumento de perseguição política aos oponentes e críticos do sistema? São duas tarefas para as quais ainda não temos respostas. O certo é que, ao contrário do que sugere Míriam Leitão, Bolsonaro não terá dificuldade em equilibrar essas agendas. Resta saber se teremos condições de compor as alianças necessárias para desmascarar o projeto bolsonarista antes que ele destrua o Brasil.


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