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31 de julho de 2018, 22h16

Bolsonaro ainda não pode ser descartado, é a personificação do senso comum e, portanto, factível

O deputado do PSL é a catarse dos brasileiros que se autointitulam “gente de bem”. As coisas assustadoras ditas pelo militar da reserva são as mesmas que estão sendo ditas há muito tempo no grupo da família do WhatsApp por aquele tio rico chato

Foto: Antonio Augusto/Câmara dos Deputados
Por Leonardo Aragão* Soa até irônico, mas a atuação do Poder Judiciário como um partido político no Brasil, tendo em seus baluartes de sua suposta “integridade”, “perseguição aos poderosos” e “combate à corrupção” o juiz Sérgio Moro, é um dos eixos principais da ascensão de Jair Bolsonaro entre as principais personalidades da cena política do país. Irônico porque a tática posta em marcha por figuras de conexões sabidas com o PSDB como Gilmar Mendes, anos a fio tentando desgastar os governos de Lula e Dilma, e mais recentemente Sérgio Moro e sua Constituição sob encomenda em Curitiba, pretendia enterrar qualquer...

Por Leonardo Aragão*

Soa até irônico, mas a atuação do Poder Judiciário como um partido político no Brasil, tendo em seus baluartes de sua suposta “integridade”, “perseguição aos poderosos” e “combate à corrupção” o juiz Sérgio Moro, é um dos eixos principais da ascensão de Jair Bolsonaro entre as principais personalidades da cena política do país.

Irônico porque a tática posta em marcha por figuras de conexões sabidas com o PSDB como Gilmar Mendes, anos a fio tentando desgastar os governos de Lula e Dilma, e mais recentemente Sérgio Moro e sua Constituição sob encomenda em Curitiba, pretendia enterrar qualquer possibilidade de continuidade da esquerda em espaços centrais de poder, a partir da desmoralização do PT e de lideranças populares, fortalecendo assim o outro polo histórico de disputa nas eleições presidenciais desde 1994, justamente, o PSDB.

Para isso, lançaram mão de uma combinação explosiva: crise mundial, escolhas ruins do governo Dilma Rousseff na condução da economia, uma imprensa voraz e intolerante contra um governo popular, e fizeram aflorar as insatisfações da classe média. Começou a difusão da tese de que o problema do país era a corrupção generalizada dos políticos, como se não houvessem corruptores; a dificuldade de empreender era um entrave ao desenvolvimento, talvez fosse mais difícil ser patrão do que empregado trabalhando 44 horas semanais; e mesmo num país racista, machista e homofóbico, pasme! As minorias tinham direitos demais.

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A partir de então, a coisa fugiu de controle. E aí mora o perigo em torno da figura de Jair Bolsonaro. O deputado do PSL é a catarse dos brasileiros que se autointitulam “gente de bem”. As coisas assustadoras ditas pelo militar da reserva são as mesmas que estão sendo ditas há muito tempo no grupo da família do WhatsApp por aquele tio rico chato, ou no ônibus naquele papo inofensivo entre vários passageiros, que até doeu os ouvidos, mas o ponto chegou logo, ou ainda numa conversa despretensiosa entre duas mulheres carregando compras no elevador… A indignação contra “tudo que está aí” materializada numa pessoa…

Portanto, Bolsonaro sabia muito bem a quem estava direcionando suas falas. Ao avaliar sua participação no programa Roda Viva, é evidente que os 30% de brasileiros, em média, com proximidade ideológica dos candidatos à esquerda na disputa irão detoná-lo, enquanto 10 a 15% o idolatram independente do que diga.

A questão está em compreender até onde o brasileiro reticente ao PT e eleitor histórico dos tucanos abraçou o argumento capitaneado pela elite judiciária de “limpeza da política” e colocará o debate moral e de costumes conservadores acima das demais questões. Diante da fragilidade de suas ideias vazias, beirando o absurdo, é a única possibilidade do candidato do PSL para chegar ao segundo turno.

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Caso esteja correto o argumento de que um nome da esquerda chegará ao segundo turno, e eu creio nessa possibilidade, a disputa será entre Alckmin e Bolsonaro por uma vaga na disputa final. Como cobrar “responsabilidade” dos que rejeitam o PT e crer cegamente na aposta segura à direita, que seria Alckmin, de quem destruiu o país arrebentando a democracia sem cerimônia?

Portanto, ainda não podemos dizer de pronto que Bolsonaro é carta fora do baralho. A nós, progressistas, cabe destacar o nosso programa de governo para tirar o país da crise e tornar óbvia a fraqueza de propostas concretas do candidato da extrema direita junto aos indecisos, desafio tão importante quanto a decisão do que fazer com o provável impedimento de Lula à Presidência.

 

*Leonardo Aragão é jornalista graduado pela PUC-SP e especialista em gestão pública pela Unicamp. Foi assessor para a Participação Social no governo da presidenta Dilma Rousseff e atualmente está na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados.

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