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12 de abril de 2019, 08h39

Bolsonaro comemorou golpe de 64 para dar recado: “Se não conseguir governar, chamarei os militares”

Para o sociólogo francês Alain Touraine, Bolsonaro é um fenômeno, "mas ele mesmo não tem nenhuma força política, nem nenhuma intenção, nenhum programa de governo"

Bolsonaro entre militares e o sociólogo francês, Alain Touraine (Montagem/Reprodução)
Em entrevista a Helena Celestino, na edição desta sexta-feira (12) do Valor Econômico, o sociólogo francês Alain Touraine, de 93 anos, mostrou pessimismo com o cenário político brasileiro e disse que Jair Bolsonaro (PSL) dá um recado claro ao incitar as comemorações do golpe de 64. “Estava dizendo: “Se eu não conseguir governar, chamarei os militares”. Claro”, diz Touraine, um dos primeiros teóricos dos movimentos sociais, acompanhando desde o Solidariedade, na Polônia, ao Chile nos anos 70; do feminismo nas ruas de Paris aos protestos antinucleares na Alemanha. Para o sociólogo, Bolsonaro é um fenômeno, “mas ele mesmo não tem...

Em entrevista a Helena Celestino, na edição desta sexta-feira (12) do Valor Econômico, o sociólogo francês Alain Touraine, de 93 anos, mostrou pessimismo com o cenário político brasileiro e disse que Jair Bolsonaro (PSL) dá um recado claro ao incitar as comemorações do golpe de 64.

“Estava dizendo: “Se eu não conseguir governar, chamarei os militares”. Claro”, diz Touraine, um dos primeiros teóricos dos movimentos sociais, acompanhando desde o Solidariedade, na Polônia, ao Chile nos anos 70; do feminismo nas ruas de Paris aos protestos antinucleares na Alemanha.

Para o sociólogo, Bolsonaro é um fenômeno, “mas ele mesmo não tem nenhuma força política, nem nenhuma intenção, nenhum programa de governo”.

Segundo Touraine, Bolsonaro ocupou uma “cadeira vazia” quando as “forças do país estavam exaustas com o populismo que teve a vantagem de incluir 20 milhões de pessoas”.

“Quando coloca-se na prisão e torna-se inelegível Lula, o ex-presidente, condenado a 12 anos, isso quer dizer que as forças do país estavam exaustas com o populismo que teve a vantagem de incluir 20 milhões de pessoas. Quando Bolsonaro diz que os sem-terra são criminosos e que têm de ir para a prisão, isso é um sinal de que a base política e econômica dessa redistribuição massiva não agrada às classes médias. Essa gente se contenta com Bolsonaro e, se houver uma resistência, fará vir os militares. Bolsonaro, na verdade, ocupa uma cadeira vazia. Ele, aliás, não tem quase nenhuma atividade”, diz.

No cenário mundial, ele prevê a perda de independência cada vez maior dos Estados nacionais, que aliam-se às superpotências. “Por enquanto são duas, a China e os EUA. Quem vai ganhar essa batalha são os chineses. Eles têm uma vontade de ferro – e uma ditadura -, enquanto Trump cria inimigos pelo mundo”.

Para Touraine, a crescente marginalização da população, em especial da classe média, se dá como consequência desse processo de concentração de poder.

“Os países ocidentais, de classe média e modernos, mostram que a política não se faz mais em termos nacionais. É globalizada. Os Estados nacionais foram substituídos pelas cidades mundiais, onde estão as redes, sejam elas de bancários, advogados, empresários, cientistas, que comandam o mundo. A globalização fez isso, mas não são todas as pessoas que têm acesso às redes globais em cada país”, afirma.

Leia a entrevista na íntegra

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