11 de outubro de 2018, 22h22

Bolsonaro e o medo branco de passar a ser tratado como negros sempre foram tratados no Brasil

Tomaz Amorim: “Agora vocês estão sentindo o medo que nós sentimos”. “Agora eu estou sentindo o que vocês sempre sentiram”. Precisamos, então, não apenas evitar o risco futuro, mas transformar drama o presente. A questão é de pele, sentir na pele, estar na pele do outro, mesmo que hipoteticamente”

Foto: Reprodução/YouTube

Afrofuturismo é um termo amplo que descreve experimentos e práticas artísticas no campo da ficção científica propostos por criadoras e criadores negros. Trata-se de explorar possibilidades fantásticas, imaginar os povos africanos e os negros da diáspora, finalmente, no futuro, em oposição ao primitivismo a qual foram relegados pelo pensamento eurocêntrico. Mas o Afrofuturismo, como não poderia deixar de ser, com seu deslocamento de narrativa, também diz algo sobre a ficção científica branca. Mostra, primeiro, que ela é branca, não é universal. Mostra, depois, que as próprias contradições históricas europeias, sua relação mal resolvida com o próprio passado, é combustível para sua ficção, é elaboração artística de traumas históricos. O que é o enredo de diversos cenários de ficção científica distópica se não uma projeção do passado negro no futuro branco? A escravização por uma civilização com armas mais potentes e vírus mais letais que aniquila e sequestra o grupo de sua terra não é uma transposição ficcional da história do tráfico transatlântico e da invasão europeia das américas? O Afrofuturismo tanto propõe um futuro negro, quanto desmascara o passado branco.

Algo desta mudança de ponto de vista aparece no segundo turno destas eleições no Brasil. Quem lê com cuidado nas redes sociais, quem ouve com cuidado nas conversas de bar a preocupação legítima de homens e mulheres brancos de classe média e de esquerda no Brasil sobre a possível vitória do fascista Bolsonaro no segundo turno reconhece preocupações não futuras, mas passadas e presentes. O medo de ser controlado o tempo inteiro pela polícia. O medo de ser objetificado sexualmente ao extremo. O medo de perder suas pequenas propriedades. O medo de ver suas práticas culturais criminalizadas. O medo de sofrer violência por demonstração afetiva em público. O medo de ser perseguido por grupos paramilitares. O medo de deixar de ser tratado como cidadão pelo estado. O medo de ter de emigrar. Esses medos que um possível governo Bolsonaro inspira, com razão, em certos grupos de classe média liberal, não são também os medos que experienciam cotidianamente os adolescentes negros, as mulheres negras, as pessoas em situação de rua, os ateus e não cristãos, os LGBTs, os indígenas e os camponeses, os encarcerados, os imigrantes e tantos e tantos outros grupos expostos à ação e inação do estado? Não há dúvida de que tudo isso piorará e que os mais fragilizados serão os primeiros a serem ainda mais fragilizados, mas não há também uma voz nova – a da mídia, a dos universitários, enfim, de um certo liberalismo branco – que vê como inédito o que é prática cotidiana? Se é assim, então é preciso dizer, para talvez estabelecer uma forma mais complexa de diálogo, que o fascismo aparece como mais imperdoável do que o racismo institucional porque atinge aos brancos. O fascismo, como alguns pensadores afirmam, é o colonialismo trazido para casa, para a casa europeia, para a casa-grande. Foi Aimé Césaire quem disse, em seu “Discurso sobre o colonialismo” de 1955:

“Sim, valeria a pena estudar clinicamente, no pormenor, os itinerários de Hitler e do hitlerismo e revelar ao burguês muito distinto, muito humanista, muito cristão do século XX que traz em si um Hitler que se ignora, que Hitler vive nele, que Hitler é o seu demônio, que se o vitupera é por falta de lógica, que, no fundo, o que não perdoa a Hitler é o crime em si, o crime contra o homem, não é a humilhação do homem em si, é o crime contra o homem branco, a humilhação do homem branco e o ter aplicado à Europa processos colonialistas a que até aqui só os árabes da Argélia, os ‘coolies’ da Índia e os negros de África estavam subordinados”.

Com isso, evidentemente, Césaire não faz apologia nenhuma do Nazismo e de Hitler, mas justamente denuncia sua presença no pensamento colonial vigente ainda na Europa de então e, no nosso caso, no pensamento eurocêntrico de hoje. (Como se sabe, até hoje, em 2018, os horrores do colonialismo e da escravidão foram muito pouco criticados publicamente, sem reparações ou pedidos formais de desculpas, de maneira muito distinta, por exemplo, a crimes cometidos contra povos europeus ou de origem europeia). Trazer este debate para o Brasil atual significa reconhecer no medo legítimo destes homens e mulheres brancos o medo de passarem a ser tratados pela polícia e pelo Estado como a maior parte da população nos últimos cinco séculos, com pouco ou nenhum protesto. É fato que desde “Junho de 2013”, a classe média descobriu nos bairros centrais, nos bairros que ela frequenta, as práticas frequentemente ilegais da Polícia Militar, antes reservada aos bairros periféricos. Não há nenhuma novidade nisso e há sem dúvida uma tomada de consciência social em relação a isso. Por que, então, neste momento tão dramático, em que uma frente ampla antifascista é tão necessária, apontar para as diferenças passadas ao invés do risco futuro? Quais as reações possíveis em relação a esta diferença tão radical de posições no presente, ainda que sob o mesmo risco comum?

Me parece que elas são duas possíveis. Em uma, o rancor age como principal afeto político. “Agora vocês vão passar pelo que nós sempre passamos”. (Talvez fosse possível explicar a partir daí o psicológico de uma parte do eleitorado de Bolsonaro, sobretudo o mais pobre). Em outra, há uma solidariedade mútua embasada em promessas futuras. “Agora vocês estão sentindo o medo que nós sentimos”. “Agora eu estou sentindo o que vocês sempre sentiram”. Precisamos, então, não apenas evitar o risco futuro, mas transformar drama o presente. A questão é de pele, sentir na pele, estar na pele do outro, mesmo que hipoteticamente e, ampliar, assim, as lutas, as frentes, as pautas, as vivências e recriar uma esquerda que não é mais só branca, que enxerga, finalmente, as outras tantas pautas.

Parece que apenas reconhecendo que falamos de posições historicamente diferentes podemos propor soluções realmente comuns para a questão da relação violenta do estado com os diversos coletivos. Porque se trata, justamente, de uma eleição presidencial, com dois candidatos. A recusa extrema e inegociável por todos os grupos razoáveis da sociedade do candidato fascista precisa vir, para não ser hipócrita, acompanhada de promessas igualmente inegociáveis para o governo eleito. Se a direita democrática quer negociar o plano de governo de Fernando Haddad e ele, com razão, abre seu programa para tentar formar uma frente ampla, quem está nas ruas há décadas, sofrendo e lutando contra o misto de violência colonial e fascista do Estado, seja por sua presença excessiva, como no controle dos corpos negros, femininos, LGBTs, seja por sua ausência calculada, como na falta de aparelhos de saúde, cultura e educação nas amplas periferias do país, não deveria, finalmente, ter voz, ser reconhecido? Não seria este convite, governar juntos, não apenas com as instituições políticas tradicionais, mas com o grosso da população, em sua variedade de pautas e urgências, a única peça de propaganda de fato efetiva contra o fascismo? Governar, finalmente, a partir das revoltas e dos sonhos, das reivindicações não apenas dos grupos nos quais eu me reconheço, mas de todos aqueles que reconhecem o direito à dignidade do outro e aceitam lutar juntos por ela. Democracia, portanto, para todos, sob o risco de que não haja para nenhum.