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24 de setembro de 2018, 21h51

Bolsonaro não é o “inimigo ideal” no segundo turno. Derrotar Bolsonaro é o centro da tática. #EleNunca. Dia 29: Às ruas! Às ruas! Às ruas!

Em novo artigo, Valerio Arcary escreve que “é tão fundamental a mobilização nacional e internacional do próximo sábado dia 29, liderada pelo chamado das Mulheres contra Bolsonaro, para demonstrar nas ruas que há força social disposta a enfrentar o fascismo”

Foto: Reprodução/TV

“O fascismo é um movimento espontâneo de grandes massas (…) de origem plebleia dirigido e financiado pelas grandes corporações capitalistas. Se formou na pequena burguesia, no lumpemproletariado e, até certo ponto, também, nas massas proletárias; [os] dirigentes empregam uma boa quantidade de demagogia, a qual é necessária para a formação do movimento de massas… Sua base genuína é a pequena burguesia (1). Leon Trotsky

Ninguém pode prever com segurança real o que vai acontecer nas próximas duas semanas. Reina ainda a incerteza. Há a possibilidade da exploração política do atentado de Juiz de Fora, dando espaço na televisão para o desequilibrado esfaqueador. Há na gaveta o depoimento de delação premiada de Palocci. E teremos os debates, entre eles, o decisivo na TV Globo, na semana que vem. Há, finalmente, o imponderável. Que no Brasil costuma ser, surpreendentemente, grande.

Mas, tudo indica que Bolsonaro não deve cair abaixo de 25%, se é que não pode ainda crescer um pouco, e deve, portanto, ocupar uma das vagas no segundo turno. Isso é o mais provável. Também é mais provável que a transferência de votos de Lula para Haddad continue avançando. Não é razoável que a candidatura do PT tenha menos de 20%, provavelmente, mais. Isso deve ser suficiente para chegar ao segundo turno.

A última hipótese de Alckmin era a retirada das outras candidaturas que se situam no campo do ajuste fiscal iniciado por Temer (Meirelles; Álvaro Dias, Amoêdo, Marina), mas essa carta desesperada do núcleo duro da fração paulista da classe dominante, apresentada por Fernando Henrique Cardoso, fracassou.

Mas não concordo que esta desgraça histórica de um confronto com Bolsonaro seja um bom cenário. Estou entre os entusiastas da candidatura Boulos/Guajajara. Penso que ela representa uma semente de futuro para a reorganização. Defendo que ela seja defendida até o fim.

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Mas, como qualquer outro militante de esquerda, não sou indiferente às escolhas táticas que as outras correntes da esquerda fazem. Derrotar Bolsonaro deveria ser o centro da tática da esquerda nestas eleições. Defendo esta posição desde meados do ano passado. Mantenho esta opinião. Em reunião no Instituto Polis, lá atrás, quando começamos a esboçar a tática da Aliança do PSol com o MTST em torno da candidatura Boulos, afirmei que existia no Brasil um perigo, para a toda a esquerda, reformista e radical, de um “inverno siberiano”.

Considerar que Bolsonaro seria o candidato mais fácil de ser derrotado em um segundo turno é um erro. Um erro grave com consequências, potencialmente, devastadoras. Trata-se de uma subestimação do neofascismo. Não é verdade que seja possível prever que Haddad será favorito contra Bolsonaro. Será uma eleição, por enquanto, quando ainda estamos a duas semanas do primeiro turno, completamente, imprevisível.

A avaliação de que Bolsonaro é o inimigo principal da esquerda não autorizava concluir que a melhor forma de derrotá-lo seria uma Frente Eleitoral entregando para Ciro Gomes a liderança do campo político de oposição ao golpe. Política não é aritmética. Um mais um não resulta sempre em dois. Considerei não só legítima, no sentido de plausível e honrada, mas, politicamente, inteligente, a decisão do PT de forçar até ao máximo limite a candidatura de Lula. Claro que era mais do que certo que Lula não poderia concorrer, dada a relação política de forças defensivas. Claro que defender Lula até o fim atrasava o lançamento do seu substituto, e retardava a conquista da transferência. Esta tática iria exigir sangue frio. Porque só seria eficaz fazer a curva, na direção de Haddad, depois de esgotadas todas as possibilidades. Não era a melhor tática, somente, porque cabia ao PT defender sua posição de partido com maior influência entre os trabalhadores e o povo diante de Ciro Gomes e do PDT. Era a melhor tática porque o principal trunfo do PT era e permanece sendo o respeito de Lula junto da parcela das massas populares que influencia.

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O argumento de que reconhecer Bolsonaro como inimigo poderia dificultar a passagem de Haddad para o segundo turno, e dar algum fôlego para uma candidatura de centro, não me parece razoável por três razões: (a) quando consideradas as variáveis fundamentais (história, raízes sociais, representação nacional), e as pesquisas não sendo conclusivas, não há evidências sérias de que Ciro Gomes estaria em melhores condições de derrotar Bolsonaro do que Haddad; (b) no Brasil a imensa maioria da população, confirmada em sucessivas pesquisas, não se autodefine, ideologicamente, como sendo de esquerda, centro ou direita, mas se posicionam, politicamente, em dois campos: o campo anti-Temer e anti-ajuste, e o campo anti-corrupção e anti-PT, e serão estes dois medos que irão medir forças no segundo turno; (c) a parcela do eleitorado que realiza a aposta complexa de cálculo de probabilidades para um voto útil antecipado é, relativamente, pequena no Brasil, embora seja significativa em alguns nichos sociais.

Isto posto, este cálculo de que Bolsonaro seria o inimigo ideal no segundo turno é superficial por, pelo menos quatro razões:

(a) o discurso tem a sua importância em eleições, mas não é o único fator político: o que é decisivo é a força social das candidaturas, isto é, a forma como as classes e frações de classe têm a percepção de seus interesses, ou seja, a credibilidade de cada candidatura; (b) a hipótese que será formada uma ampla frente antifascista sob a liderança de Haddad, deslocando os setores médios, é somente uma hipótese. A expectativa de que as candidaturas do centro apoiarão Haddad é insensata. Em comparação, o Brasil não é a França, Haddad não ocuparia o espaço de Macron, e a classe média está, comparativamente, muito mais à direita, em função do apelo fascistoide de ordem para a segurança pública;

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(c) um giro de Haddad para o centro pode levar à perda de votos na classe trabalhadora organizada, onde o PT perdeu muita influência, sem a garantia de atrair votos na classe média. Pode não ter o prêmio de uma ampliação da votação, porque a experiência com o giro à direita de Dilma Rousseff, depois de eleita em 2014, é muito recente;

(d) a despeito de que a maioria da burguesia não considera, hoje por hoje, Bolsonaro como o melhor representante de seus projetos, não está descartado que esta maioria se desloque, e venha a abraçá-lo no segundo turno. Talvez a maioria dos pesos pesados da classe dominante fique equidistante. Talvez a Avenida Paulista se divida.
Mas o perigo é sério.

Por isso, é tão fundamental a mobilização nacional e internacional do próximo sábado dia 29, liderada pelo chamado das Mulheres contra Bolsonaro, para demonstrar nas ruas que há força social disposta a enfrentar o fascismo.

Subestimar Bolsonaro, com metade do tempo de TV’s e rádio no segundo turno, depois de tudo que já aconteceu, seria fatal.

(1) Leon Trotsky. “O que é fascismo?” Publicado em “The  Militant” em 16 de janeiro de 1932. Disponível em português em: https://issuu.com/socialismohoje/docs/queeofascismo

Consulta em 08/07/2017.