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25 de outubro de 2018, 08h09

Bolsonaro, o falo fumegante e o abraço de um pai

Bolsonaro, no fundo, tem muito medo. Um medo infantil. De um ser que ainda está preso aos medos da criança e do filho que foi. E, em uma sociedade patriarcal, formada em uma cultura machista, misógina e racista, esse medo encontra eco dentro de milhões de indivíduos.

Jair, a mãe, Olinda, e o pai, Geraldo (Arquivo de família)
Já tem algum tempo que busco algumas informações para fazer uma análise comportamental e da personalidade de Jair Bolsonaro à luz da Terapia das Relações Humanas – que agrega a Psicologia Transpessoal, as Constelações Familiares, a Terapia Familiar de Virgnia Satir, a Gestalt Terapia de Fritz Perls, a Antroposofia de Rudolf Steiner e a Neurolinguística. Ressalto que o texto tem o propósito de fazer uma análise comportamental e não um julgamento – ou algo que seja interpretado de maneira a provocar a ira e o ódio já tão praticados nestas eleições. Antes de mais nada, é importante salientar que a...

Já tem algum tempo que busco algumas informações para fazer uma análise comportamental e da personalidade de Jair Bolsonaro à luz da Terapia das Relações Humanas – que agrega a Psicologia Transpessoal, as Constelações Familiares, a Terapia Familiar de Virgnia Satir, a Gestalt Terapia de Fritz Perls, a Antroposofia de Rudolf Steiner e a Neurolinguística.

Ressalto que o texto tem o propósito de fazer uma análise comportamental e não um julgamento – ou algo que seja interpretado de maneira a provocar a ira e o ódio já tão praticados nestas eleições.

Antes de mais nada, é importante salientar que a Terapia (e consultoria) das Relações Humanas busca, por meio de um processo de autodesenvolvimento, trazer à consciência a compreensão de padrões comportamentais de relacionamentos – seja com o outro, com grupos sociais, consigo mesmo ou com o mundo.

Todo processo de desenvolvimento humano – do indivíduo e da sociedade – se dá através da relação com o outro e para isso fazemos uso da comunicação, nossa matriz social. Portanto, a maneira como eu me comunico, como me relaciono com o outro e o mundo diz muito sobre mim e minha própria história.

Basicamente, aprendemos a nos relacionar, com a gente mesmo e com o mundo, em nosso locus nascendi, no triângulo primário – formado por mãe, pai e filho – em nosso primeiro grupo social: a família.

A mãe, pela ligação fisiológica desde o ventre, está mais relacionada ao desenvolvimento do sentir, da relação interna, do ser consigo mesmo. O pai, que nos recebe na luz, é a primeira representação de mundo que temos, da relação com o outro.

E é para pertencer a essa família que desenvolvemos as características (caráter) que, somadas ao temperamento, formarão o conjunto daquilo que acredito e valorizo (crenças e valores), que serão traduzidos em minha identidade. Ou seja, eu sou (identidade) para pertencer (ao grupo social, sendo a família o primeiro).

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Basicamente, é na relação com a mãe e o pai – para “pertencer” a eles – que construímos nossa identidade e nossos padrões de relacionamento, que depois são transportados para outros grupos sociais – a escola, a família, a sociedade. Assim, com essa base comportamental formada nesta tríade primária, começamos a fazer política, no sentido etimológico da palavra: de viver e se relacionar na cidade (polis), de ser cidadão.

Rudolf Steiner, na linha de desenvolvimento humano da Antroposofia, revela que, para um desenvolvimento sadio e altruísta, nos primeiros sete anos de vida a criança deve internalizar a mensagem de que “o mundo é bom”. Nos sete anos seguintes, até os 14, a mensagem é de que “o mundo é belo”. E no setênio seguinte, quando completa o aterramento aos 21 anos, de que “o mundo é verdadeiro”.

Em entrevista à jornalista Claudia Carneiro na revista IstoÉ Gente, edição de 14 de fevereiro de 2000, Bolsonaro conta um pouco da relação com o pai, Percy Geraldo Bolsonaro – morto em 1995 – em uma das raras vezes que tocou no assunto.

“Eu não conversava com ele até os 28 anos de idade. Ele bebia descaradamente e brigava muito em casa, com minha mãe e os filhos. Mas nunca bateu em filho. Um dia constatei que não iria mudá-lo. Resolvi pagar uma pinga para ele. Nos tornamos grandes amigos”.

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Em reportagem na revista Crescer de março de 2015, sobre a mãe, dona Olinda Bonturi Bolsonaro, o irmão de Jair, Renato “confirma que nem sempre o deputado e o pai se deram bem. ‘Meu pai tinha o estilão dele, boêmio’, continua ele, que é capitão da reserva do Exército, como o irmão famoso. ‘Mas nunca deixou um filho trabalhar, porque achava que filho tinha que estudar’. Era ‘uma pessoa dura’, conforme conta. ‘Enérgico. Não admitia que os filhos fizessem nada errado. Fumava e bebia, mas não permitia que fumássemos ou bebêssemos’.”.

Essas declarações sobre a relação com o pai resumem muito do comportamento político de Bolsonaro hoje. Internamente, o capitão da reserva carrega consigo a referência de um modelo de homem e de mundo – que o pai representa para os filhos – violento, brigão, autoritário.

E para “pertencer” ao pai, Bolsonaro se defende desse “mundo violento” com a referência que tem internalizada do masculino: usando a violência e o seu autoritário “falo fumegante” de homem “amante das armas”, como gosta de definir sua relação com armas de fogo.

Para se proteger do medo desse “mundo violento”, o menino Jair se arma até os dentes – e defende que todos se armem. E é contra esse “mundo violento” que ele ataca as pessoas que pensam diferente dele – seja em relação à política, à opção sexual, à cor, à raça. Que ele defende a guerra para banir todos que acredita que represente uma ameaça.

Bolsonaro, no fundo, tem muito medo. Um medo infantil. De um ser que ainda está preso aos medos da criança e do filho que foi. E, em uma sociedade patriarcal, formada em uma cultura machista, misógina e racista, esse medo encontra eco dentro de milhões de indivíduos que carregam em si semelhantes medos infantis.

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Dessa maneira, o debate do futuro de toda uma nação, de milhões de pessoas, se desenvolve de forma infantilizada e amedrontada, fragmentada pelo medo do que o outro representa – e não pela oportunidade que o outro nos dá de evoluirmos, como indivíduo e como sociedade, ao refletir as nossas próprias sombras.

Por medo de coisas que a maioria nem mesmo sabe exatamente o que são, mas que trazem consigo referências internalizadas de sombras da sociedade e podem ser traduzidas em algumas generalizações como “comunismo”, “socialismo”, “petismo”.

É pelo medo infantil que Bolsonaro e muitos de seus apoiadores não debatem questões relativamente importantes para a nação, repetindo pelos porões das redes sociais discursos infantilizados, rasos e sem sentido, como “roubalheira do PT”, “transformar o Brasil numa Venezuela”, “kit gay”.

E é ressoando o discurso violento de um homem sem maturidade alguma para lidar com seus próprios medos infantis que milhões pretendem ir às urnas neste domingo. Medos que só podem ser curados se forem levados e acolhidos no abraço de um pai.

Plínio Teodoro é jornalista, colaborador da Fórum, terapeuta e consultor das relações humanas

Links das reportagens que menciono:
https://www.facebook.com/claudia.carneiro.585/posts/10210835421922213

https://revistacrescer.globo.com/Voce-precisa-saber/noticia/2015/03/ele-era-digno-nao-era-de-falar-besteira-diz-mae-de-jair-bolsonaro.html

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