05 de novembro de 2018, 16h18

Bolsonaro vai trazer de volta a crítica artística

Em novo artigo, Raphael Silva Fagundes diz: “Até a Rede Globo, que não está muito feliz com a ascensão do poder religioso na política, o que abriu um grande espaço lucrativo para a Record, pode vir a dar acesso a essa cultura crítica”

Foto: Arquivo Pessoal

Tentando extrair algo de bom em tudo isso, pensei na produção cultural que virá com o governo Bolsonaro. É muito possível que uma arte mais crítica ganhe espaço novamente nos veículos de grande circulação, como aquela dos anos 1980.

Ao longo dos anos petistas, o criticismo nas artes, um criticismo claro e acessível, ficou no mundo do underground. O rock nacional, a mpb, o rap e outras manifestações artísticas que estouravam eram pobres no que condiz a uma crítica ao sistema. Nenhuma letra se compara às compostas por Renato Russo, Cazuza, Raul Seixas, Caetano Veloso etc.. Até os artistas que sobreviveram, apresentaram uma queda considerável na qualidade crítica de suas letras (como o próprio Caetano). Sem falar nos que assumiram a postura conservadora para, em tese, permanecerem críticos, como Lobão e o Ultraje à Rigor.

Mas com a ascensão do neopentecostalismo na política e ao lado da vitória conservadora, esse cenário pode ser alterado. Muitos artistas consagrados colocaram-se contra o presidente eleito, manifestando-se publicamente. Até a Rede Globo, que não está muito feliz com a ascensão do poder religioso na política, o que abriu um grande espaço lucrativo para a Record, pode vir a dar acesso a essa cultura crítica.

Nos anos 1980, víamos no programa da Xuxa, Chacrinha e Faustão, artistas se manifestando através da música com letras que hoje dificilmente vemos nos programas de grande audiência. A Legião Urbana tocando “Que país é esse?”, Cazuza cantando “O tempo não para”, “Burguesia”, Raul Seixas “Ouro de Tolo”. O nível crítico dessas letras é surpreendente. E mais: tocavam na rádio de modo quase que dominante.

Talvez esse seja o ponto positivo em meio ao conservadorismo que iremos enfrentar. A cultura de massa passa por uma espécie de carência em relação a letras potentes. As produções independentes são o principal reduto dessas letras que esperam uma oportunidade para sair do porão e vir à tona, agindo pedagogicamente.

A população, de um modo geral, não é muito familiarizada com temas políticos, contudo, o contexto desperta interesse. Empolgados com a redemocratização, esses artistas lançaram suas letras. Os festivais de 1968 também produziram uma forte crítica ao sistema liderado pelos militares. Aliás, era 1968! Ou seja, a possibilidade de um ressurgimento do criticismo na arte de circulação em massa parece hoje real.

Hoje (um fenômeno que diferencia a nossa era dos períodos anteriores) temos um aparente conflito entre os meios de comunicação. A Record tem tudo para assumir o lugar da Rede Globo como a principal mídia. É sabido que os artistas que se posicionaram contra Bolsonaro na emissora evangélica receberam represálias, contudo, os que se manifestaram contra o capitão na corporação midiática da família Marinho, parece que não receberam nenhum tipo de punição. Esse aspecto aponta para o que estamos tentando dizer aqui.

Ainda existe o fato de o socialismo se fortalecer por aqui como está acontecendo nos EUA após a vitória de Donald Trump. Se a esquerda conseguir dissociar-se do PT, mostrando-se estar muito além desse partido, que faz parte de uma herança de luta e intelectual, ela pode vir com força nas próximas eleições. É necessário consolidar a ideia de um socialismo democrático, como vem sendo feito na terra do Tio Sam, para poder trazer a esquerda para moda e ganhar popularidade, mas sem, evidentemente, se fechar nas pautas morais, já que a cultura popular é bem conservadora nesse aspecto.

Há, certamente, agentes da direita se preparando para essas questões, pois elas serão inevitáveis. Ainda podemos ser otimistas, a noite não durará por muito tempo e a liberdade vai acabar prevalecendo cedo ou tarde.