05 de julho de 2018, 20h46

Bolsonaro x Alckmin: amor aos patrões e ódio aos trabalhadores

"Se tudo seguir do jeito planejado pelos investidores, a manutenção do governo golpista estará assegurada com a vitória de algum candidato 'centrista'. Contudo, se não conseguirem forjar um 'Macron brasileiro', o nosso Trump servirá"

A direita, que sempre esteve no poder, nunca viu uma oportunidade tão clara para retornar ao cargo de presidente da República por meio das eleições. Se Luis Inácio Lula da Silva se tornar inelegível (o que parece óbvio), será difícil evitar a concretização desse projeto iniciado em 2014.

Esta direita, controlada por banqueiros e outros investidores, se esconde por trás do código “centro”. Exatamente como Macron nas eleições francesas do ano passado. E com essa nomenclatura até o MDB arrisca-se a lançar um candidato para concorrer o cargo de presidente, coisa que não vemos a muito tempo. Ninguém quer perder essa oportunidade. Já estou vendo a retórica de Índio da Costa, quando candidato a prefeitura do Rio de Janeiro em 2016, sendo balbuciada pelos golpistas sedentos pelo poder: “Nem de esquerda e nem de direita”. Aliás, o próprio Macron usou desse lugar comum em sua candidatura, afirmando que deu uma nova cara a política francesa.

A política tem que ser pensada através das artimanhas, estratégias e inspirações que conduzem as tomadas de decisão. O nosso cenário foi forçado a se parecer ao cenário francês do ano passado. Caso Lula se torne inelegível, qualquer um anseia concorrer com um Bolsonaro, candidato da extrema direita, no segundo turno. Sem dúvida, o polêmico presidenciável é o único que não é capaz de ganhar, contudo tem seu lugar no segundo turno reservado (embora Alckmin pense o contrário).

O golpe desenvolveu um ódio ao PT. E a maior fração do combustível para esse ódio foi fornecido pelos cães de guarda de uma direita vulgar, representada pelos seguidores de Jair Bolsonaro e pelos militantes do MBL. As esquerdas, por sua vez, que acreditam que Lula seja o único candidato capaz de recuperar o Brasil, retrucam o ódio ao deputado federal. Travou-se uma disputa entre quem expele a maior quantidade de espuma pela boca. Mas, depois de tudo, o ex-presidente, mesmo preso, está disparado nas pesquisas de intenção de voto com o dobro de pontos de todos os outros candidatos somados. Seria possível, depois de toda essa divergência e ódio criado mutuamente, que um eleitor de Lula votasse em Bolsonaro caso o primeiro fosse impedido de se candidatar?

O fim de um fantoche radical

Os mais de 30% de intenção de voto ficará nas mãos do candidato que se opuser ao famigerado “mito”. Todos sabem que Lula será, encarcerado ou não, o fator decisivo dessas eleições. É muito provável que quem chegar ao segundo turno, e vir a disputar com Bolsonaro, seja o vencedor da corrida ao cargo de presidente da República. Por isso vemos a direita agitada, apresentando uma série de pré-candidatos.

Na França, aconteceu que o candidato da esquerda, Jean-Luc Mélenchon, acabou por pedir que não votassem em Marie Le Pen no segundo turno.1 Diversos jornais da esquerda disseram o mesmo, e muitos apoiaram de forma mais clara Macron, o candidato de centro. Falava-se sobre o risco do aprisionamento de judeus e do afogamento de imigrantes, da perseguição policial de refugiados, até que votar em Le Pen é o mesmo que ser cúmplice da chegada de Hitler ao poder.2 O fato é que, de uma forma ou de outra, o interesse dos banqueiros foi novamente assegurado.

Não que estes últimos, no caso brasileiro, ao lado dos empresários não votariam em Bolsonaro (e o mesmo aconteceria na França no caso Le Pen). Mas somente se o opositor a este pusesse em risco os lucros catastróficos descompromissados com as relações de trabalho. Bolsonaro já disse ser a favor do fim dos direitos trabalhistas, alegando ser o caminho óbvio para o pleno emprego. E, por conta disso, arrancou aplausos do público do encontro promovido pela Confederação Nacional da Indústria.

Não se pode negar a proximidade que havia do discurso de Le Pen com o discurso nazista, assim como o fato de o discurso de Bolsonaro se aproximar ao dela. Inclusive, à época, Bolsonaro chegou a se manifestar à favor da candidata francesa. Sem dúvida, Macron é “menos ruim” que Le Pen. O problema é a sinuca de bico criada no campo político por aqueles que realmente controlam o poder. Prender Lula – o que de fato transformou claramente as eleições em uma fraude – obrigará a imensa multidão que deposita nele confiança, a votar em um candidato de direita transvertido em “centro”, que sem dúvida vencerá as eleições.

Há agora um forte movimento da mídia para enfraquecer a imagem de Jair Bolsonaro. A sua função de algoz do petismo, da esquerda em geral, já deu. A imprensa não quer mais ninguém brincando de mau. O fantoche radical, útil para denegrir a imagem do PT, em um primeiro momento, já não serve mais. A depreciação que se faz hoje a Bolsonaro, não é para tirar dele os seus eleitores (se isso acontecer, melhor ainda para o projeto “centrista”), e sim para convencer ainda mais os eleitores de Lula, caso este não venha como candidato, a não votarem, definitivamente, no (desculpem-me pela reprodução do ridículo) “Trump brasileiro”.

A ideia de “centro” é um conceito vazio para omitir as lutas de classe no campo da política. Se arrancarmos os elementos estúpidos do discurso de Bolsonaro, pelos quais consegue atrair seus eleitores, não haverá muita diferença em relação ao discurso de Alckmin, que também arrancou aplausos no evento da CNI, ao afirmar que, se presidente irá diminuir os impostos da pessoa jurídica. E cita nada mais nada menos que Donald Trump. Não existe nenhum discurso em que alguns dos dois candidatos falem em prol dos trabalhadores. Os dois só falam em prol dos patrões e, jamais, se colocaram contrários aos privilégios parlamentares.

Não foi possível acabar com Lula como queriam, embora tenha havido um enfraquecimento da esquerda e do próprio PT, como vimos nas eleições regionais de 2016. Sendo assim, a única solução será incapacitá-lo de concorrer às eleições presidenciais. Se tudo seguir do jeito planejado pelos investidores, a manutenção do governo golpista estará assegurada com a vitória de algum candidato “centrista”. Contudo, se não conseguirem forjar um “Macron brasileiro”, o nosso Trump servirá.

Enfim, a luta dos candidatos para chegar ao segundo turno será interessante. Contudo, ao chegar lá, será o ex-presidente Lula que dará a palavra final. É muito mais improvável este defender Bolsonaro que qualquer outro. Mas de qualquer forma, a direita prevalecerá e um Brasil ainda mais fechado para as classes trabalhadoras exigirá luta e uma maior organização.

1https://g1.globo.com/mundo/eleicoes-na-franca/2017/noticia/lider-da-esquerda-radical-francesa-se-posiciona-contra-voto-em-le-pen.ghtml

2https://diplomatique.org.br/eleicoes-tiram-a-mascara-da-midia-francesa/