06 de julho de 2018, 14h39

“Bom de bola e bom de cuca”: a esquerda em campo

A esquerda quando fala sobre futebol destaca as figuras de João Saldanha e Sócrates. Mas o historiador Euclides de Freitas Couto mostra outras figuras curiosas da esquerda futebolística e que ganhou uma grande visibilidade no período dos quartéis

Afonsinho e Sócrates

A esquerda quando fala sobre futebol destaca as figuras de João Saldanha e Sócrates. O primeiro foi membro do partido comunista e não tinha medo dos generais que queriam intervir na escalação de seu time. O segundo era militante do PT e lutou pelas Diretas Já. Até Tostão que deu uma entrevista emblemática no O Pasquim, revelou seu posicionamento mais a esquerda, mas recebeu uma ligação que o obrigou a não se manifestar caso quisesse continuar a jogar pela seleção.1

Mas o historiador Euclides de Freitas Couto mostra outras figuras curiosas da esquerda futebolística e que ganhou uma grande visibilidade no período dos quartéis. Inclusive o presidente da Confederação Brasileiro do Desporto (CBD), na segunda metade da década de 1970, era o Almirante Heleno Nunes da Arena.

O técnico Zagallo voltando as suas atividades como técnico do Botafogo após a Copa de 70 se tornou o ícone da perfeição alcançada por uma equipe de futebol. Contudo, o centro de treinamento do clube ganhava as feições de um quartel e “o jogador de futebol assumia a fisionomia de um soldado”.2 A ideia de disciplina, fortalecida pela modernização da educação física, caiu como uma luva para os militares que, totalitaristas, queriam interferir nas diversas atividades do país.

Mas Zagallo, símbolo de organização e eficiência, foi contestado por Afonsinho, meio-campo do alvinegro carioca. Sua barba, no estilo de um jovem militante de esquerda não agradava o técnico tricampeão, e este agiu através de um ethos autoritário, característico as condições do poder a época. O jogador não queria insinuar nenhum tipo de provocação, mas se sentiu ofendido. Foi punido sendo proibido de jogar em qualquer time, o que levou a entrar com uma ação contra o Botafogo.

O caso Afonsinho mobilizou toda a esquerda, de movimentos estudantis a classe artística. A ponto de Gilberto Gil escrever uma canção, em 1973, intitulada “Meio-de-campo”, em sua homenagem e coragem:

Prezado amigo Afonsinho

Eu continuo aqui mesmo

Aperfeiçoando o imperfeito

Dando um tempo, dando um jeito

Desprezando a perfeição

Que a perfeição é uma meta

Defendida pelo goleiro

Que joga na seleção

E eu não sou Pelé nem nada

Se muito for, eu sou um Tostão

Fazer um gol nessa partida não é fácil, meu irmão.

O historiador Euclides Couto observa a letra destacando a imagem que certos jogadores tinham para a esquerda. Pelé “era considerado um modelo de jogador perfeito que, no entanto, corroborava a ideologia preconizada pela ditadura militar”.3 Portanto, Gil preferia Tostão, devido ao impacto de sua entrevista para o Pasquim.

O historiador também analisa o caso Reinaldo, centro-avante do Atlético Mineiro que foi a Copa da Argentina de 1978. Mas pelo seu gesto habitual de comemorar o gol com os punho cerrados, repetindo os gestos dos atletas norte-americanos Tommie Smith e John Carlos, quase não participou do campeonato mundial.

A Argentina e o Brasil passavam por uma ditadura militar, por isso exilados políticos argentinos craram na França um comitê de boicote à Copa da Argentina, o COBA. Pacifistas e intelectuais aderiram ao movimento, como Alain Touraine, Jean Paul Sartre e Roland Barthes. Mas o movimento não teve apoio de outras seleções.

Reinaldo, conhecedor do momento político pelo qual passavam o seu país e a Argentina, manteve suas convicções. Os militares, por sua vez, temiam que o jogador pudesse usar a visibilidade da copa para criticar o sistema aqui implantado. Isso porque Reinaldo não apenas comemorava com os punhos cerrados, mas desde o segundo semestre do campeonato brasileiro de 1977, demonstrava seu posicionamento ideológico na imprensa mineira, “defendendo a anistia aos exilados políticos, o voto direto e o fim da ditadura no país”.4 O jornal de esquerda Movimento, dizia que Reinaldo, “ao contrário de Pelé, acha que o povo brasileiro está preparado ‘como sempre esteve’ para votar”. A edição estampava o jogador na capa com a frase: “Bom de bola e bom de cuca”.

Essas manifestações mostram que os ideais de esquerda penetravam em vários aspectos da cultura brasileira. A rebeldia e o inconformismo do jovem brasileiro, representados nesses jogadores, mostram que o futebol não é um mero instrumento de alienação com podem achar alguns. Além disso, somente a investigação histórica, como a promoveu o historiador Euclides Couto, pode nos revelar discursos e atitudes que foram apagados da memória coletiva e pelos grandes veículos de comunicação.

1 http://trivela.uol.com.br/onze-vozes-futebol-que-se-rebelaram-nos-anos-de-ditadura/

2 COUTO, Euclides de Freitas. A esquerda contra-ataca: rebeldia e contestação política no futebol brasileiro (1970-1978). In: Revista de História do Esporte, vol 3, n 1, jun, 2010.

3 Id. p. 09.

4 Id. p. 14.