Arabizando

Arabizando é uma plataforma em língua portuguesa fundada em 2013 por Thomas Farran, especialista em História e Política Árabe Moderna, com o objetivo de reunir profissionais e instituições de todo o mundo para a divulgação da cultura árabe em geral, abrir espaço para a discussão política da região sob um olhar mais crítico e alternativo e se apresentar como um espaço para dar voz à causa palestina

02 de setembro de 2015, 09h41

Bom jihadista, mau jihadista

A mídia internacional, think tanks conservadores e lóbis em Washington há tempos reúnem esforços para nos dizer quem é bom e quem é mau no conflito sírio, no que já é um filme repetido.

 
Por Thomas Farran

Na última segunda-feira (31) a BBC Brasil publicou, devidamente traduzida de seu site inglês, um artigo intitulado “O polêmico grupo que poderia ajudar a derrotar o ‘Estado Islâmico’ na Síria”.
Essa peça da BBC é o mais fino exemplo de como a semântica, e a brincadeira de classificações de grupos rebeldes no conflito sírio nada mais é do que uma ferramenta de controle da narrativa.

Na ânsia de prolongar a instabilidade na ‪Síria, que desde 2011 entrou em uma espiral de violência desencadeada por protestos (legítimos, diga-se) contra o sanguinário regime do ditador Bashar al-Assad, e assim satisfazer uma agenda, vale qualquer coisa – inclusive promover grupos extremistas à adjetivos mais amigáveis, passiveis de mais simpatia e assim dar margem para justificação.

Mais ou menos nos mesmos moldes dos ‘ratings’ em que as agências financeiras classificam nações inteiras e corporações de acordo com a conveniência.

No caso da matéria da BBC, que mais tarde foi veiculada por outros meios no Brasil, o grupo em questão é o Ahrar ash-Sham que, ao ter alianças com a al-Qai’da, já foi considerado extremista, para mais tarde ser promovido à ‘moderado’, e aparentemente agora é apenas ‘polêmico’.

Ahrar ash-Sham (Harakat Ahrar ash-Sham al-Islamyia ou Movimento Islâmico dos Homens Livres da Síria), é um exemplo clássico para a análise da narrativa do conflito sírio:  um grupo armado de matriz salafi-jihadista e cabeça da Frente Islâmica, Frente que tinha como porta-voz nada menos que Abu Khalid as-Souri, outrora companheiro de Usama bin Ladin. É seguro afirmar que o grupo é um dos responsáveis pela ascensão do discurso sectarista no seio da então revolução, nos inícios de 2012, o que acabou por se revelar uma excelente ajuda ao regime, que pode se firmar como um porto seguro às minorias que se viram alienadas do processo.

Entre os vários crimes que envolvem o Ahrar ash-Sham está o assassinato massivo de civis alauitas em Latakia, e a destruição de patrimônio cristão em Kasab, e entre os muitos grupos que tem como aliados está a Frente an-Nusra – braço da al-Qa’ida na Síria – que também passou por um processo de «rebranding», e agora é só mais um dos grupos considerados ‘moderados’.

No caso mais recente, mês passado, o grupo Ahrar ash-Sham, unido com a Frente an-Nusra e alguns batalhões do Exército Sírio Livre se engajaram em uma batalha pelo controle da cidade de Zabadani. A vila fica nos arredores da capital Damasco e foi a primeira a cair sob controle de facções rebeldes, em 2012.
Em Julho deste ano o regime, com apoio do Hizb’ullah, lançou uma grande ofensiva para retomar o controle da localidade, o que acabou por resultar no final de Agosto em um muito celebrado acordo de cessar-fogo entre as partes.

Digo “muito celebrado” porque foi exatamente assim que a imprensa internacional recebeu e publicitou o feito, deixando de lado o fator responsável pela concretização desse cessar-fogo: ao ver que estavam a perder espaço para o regime, os grupos Ahrar ash-Sham e a Frente an-Nusra viraram suas armas para outras duas vilas, Fu’a e Kafraya, e fizeram de seus habitantes reféns caso o regime não permitisse a evacuação de seus combatentes de Zabadani.

Ainda, este é o mesmo grupo que em Julho deste ano não se viu tímido ao enviar homenagens públicas ao mullah Omar, líder talibã no Afeganistão, ao ser confirmado seu falecimento.

Justificativas como “dos males o menor” e “são parceiros de potências regionais como Turquia e Qatar” não sobrevivem ao mínimo de escrutínio e analise da realidade e contexto em terreno.

Para começar, que apoiar grupos extremistas como o Ahrar ash-Sham em nome de uma batalha contra um mal maior, como o Da’esh (Estado Islâmico), foi o que criou a força que é o próprio Da’esh em primeiro lugar.
Segundo que esse discurso em eleger o mal menor, segundo o “ativista sírio ao NYT”, é muito bonito na onda do romantismo pseudo-revolucionário, a não ser que você seja alauita, ou cristão, ou ateu, ou pró-secularismo, ou democrata, ou homossexual, ou feminista ou, em geral, um ser humano razoável.

Não entendam mal: na prática o discurso sectarista esmorece, e as principais vitimas de grupos como esse ainda são muçulmanos.
A realidade é outra, vide a desgraça de Raqqa.

Já Turquia e Qatar, potências regionais, assim como Arábia Saudita, Kuwait, Emirados Árabes, são indiscutivelmente aliados – é verdade.
Mesmo porque é o que naturalmente acontece quando você é financiado por alguém, se aliar.

Mas nenhum desses fatos é mais perturbador do que o fato dessa marcha ser liderada nada menos do que por Robert Ford, ex-embaixador norte-americano na Síria, que profetiza desde 2011 sobre a queda de Assad, que sempre tem “apenas mais algumas semanas no poder”, e é agora – como bem diz no texto – um analista para o Washington Institute.

O que o texto omite é o fato do Washington Institute (WINEP) ser um think-tank reconhecidamente formado e financiado pela AIPAC (American-Israel Public Affairs Committee), o peso-pesado do lóbi pró-Israel nos Estados Unidos.
O que o texto omite é o fato do próprio Robert Ford ter se usado do Da’esh, em 2013, por intermédio do Exército Sírio Livre na batalha de Alepo, que terminou na captura de uma base aérea do regime.
O que o texto omite é que Robert Ford foi o maior responsável norte-americano em organizar grupos extremistas na Síria, e para tal criou e propagou o mito do “bom jihadista”.

O fato dessas atividades se darem enquanto o mesmo servia como embaixador, parece não levantar qualquer questão.  Certamente deveria.

Com tudo isso em perspectiva, ficam as perguntas para o leitor:

O que raios existe de “polêmico” no Ahrar ash-Sham?

E, afinal, uma vitória deste grupo é uma vitória para quem?