Luiz Roberto Alves

08 de maio de 2019, 05h00

Brasil, abaixo do ego. Deus, abaixo do Mito

Luiz Roberto Alves: “Quando o senhor Jair Messias entenderá que é presidente eleito por gente diversa, desigual e que o país é o portador da maior diversidade natural e cultural do planeta?”

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

O senhor Jair Messias deixou claro, em uma de suas descargas discursivas, que precisa destruir leis, instituições, normas, acordos, tradições, hábitos e processos culturais republicanos; em seguida, reconstruí-los segundo a sua verdade, ainda que esta não tenha nada a ver com aquela por ele propalada, a bíblica. A construção viria somente de sua cabeça, na qual falta história, ciência, razão, amor, solidariedade, fé e conhecimento.

Não é preciso ser profeta para ver que ele segue à risca o desvario que acumulou, o que deveria causar imensa preocupação aos seus eleitores e a todo o sistema legislativo e judiciário. Este terá de ser responsabilizado diretamente em caso de omissão ou submissão ao desvario, ao desatino. E o primeiro ato de consciência dos/das representantes e dos/das togados/as instalados/as em Brasília é que circunstancialmente o desatino pode se realizar na história como razão política, como res publica invertida, como metáfora de audácia política e, finalmente, como mito, diante do qual a história é sufocada. Via de regra, raramente os poderes legislativo e judiciário estão vacinados contra os desatinos naturalizados como res publica.

Há desatinos diários nesta república. Para criar uma semiose, bastam poucos exemplos, todos eles associados ao senhor Jair Messias: mancomunar-se aos assassinos de Evaldo, reduzir orçamentos da universidade pública porque se abriu para o debate livre, armar latifundiários para matar quem entra em suas terras, trocar pessoas e lugares como se troca dinheiro por doce barato, apelar para o coração de um dirigente bancário para baixar juros, humilhar servidores fieis aos regulamentos públicos, cuspir sobre ciências indispensáveis para a construção do humano no mundo, obedecer a supostos intelectuais que não abrem a boca sem violências e excrecências verbais, fruídas pelos discípulos-marionetes etc. Cada fenômeno igual ou similar a esses é desatino, é ato destrutivo dos modos de organização republicana, do espírito e da carne das leis e processos socioculturais. Dentro desses, sofre o humano.

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A destruição segue. O senhor Jair Messias imagina que está a encarnar o arauto portador da espada e encarregado da destruição. Ele já citou a Bíblia a propósito dessa destruição. No entanto, novamente recebeu a mensagem de orelhada, pois não leu o contexto, não fez qualquer exegese, não ligou fatos e tempos dos textos. Em realidade, nos textos de Mateus e Lucas, Novo Testamento, há associação ao texto profético de Miquéias, que trata da injustiça universal. Nos textos evangélicos a injustiça universal é o contexto da ação dos novos apóstolos, os quais iriam logo se espalhar pelo mundo. Mas a injustiça universal não tem nada a ver com um poder indutor, moderador e estimulador da sociedade e suas culturas, que é uma presidência eleita.

Se Jair Messias quisesse seguir ao pé da letra os textos de Mateus e Lucas, deveria começar por reconhecer as relações absurdas que ocorrem em sua própria família, pois os projetos de leis, discursos parlamentares e textos de redes sociais de Carluxo, Eduardo e Flávio causam cizânia, propõem absurdos legais, ignoram a mínima educação no trato social e se voltam, sistematicamente, a favor de gente bruta e contra os interesses das crianças e dos adolescentes vulneráveis, empobrecidos e carentes do suporte do Estado.  O senhor Jair Messias deveria, em primeiro lugar, usar sua espada moral contra eles, pelos desatinos que também produzem e pelos males que se dispõem a causar.

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Quando o senhor Jair Messias entenderá que é presidente eleito por gente diversa, desigual e que o país é o portador da maior diversidade natural e cultural do planeta? Aqui, sua suposta espada destruidora amplia a injustiça local e universal a cada passo, a cada dia. Na marcha do desatino que vai criando, fundamentada no ego e no mito pessoal, vai faltar-lhe história, tempo e espaço político para qualquer ato construtivo. Logo, será um dirigente encalacrado e embananado nos seus próprios desvarios. Se ele começasse imediatamente a ler Julio Cortázar, talvez pudesse vislumbrar saídas a partir do cipoal que a cada dia mais o enreda.

Em verdade, seus motes de governo estão invertidos: o Brasil não está acima do seu ego endeusado e seu Deus se submete aos rituais do próprio MITO que construiu na escalada eleitoral.

A mobilização da consciência nacional é o antídoto para despertar as forças republicanas capazes de superar os males e abismos que Jair Messias e seus ministros estão a construir a cada ato de destruição.

Se o senhor presidente ainda for capaz de ouvir algo – pois só ouve a si mesmo – convém lembrar uma máxima do Oriente Médio: a destruição do outro implica a própria destruição. O fenômeno não se paga em prestações, pois se dá simultaneamente. Certamente, a suposta bancada da Bíblia, e muito menos da Bala, nem de longe imaginam que essa leitura humana primordial seja uma verdade.

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E por tratar do outro, que é intrinsecamente constitutivo do eu, criadores do nós, é indispensável lembrar que no dia 2 de maio último Paulo Freire concluiu a travessia deste nosso mundo em 1997. Paulo foi um dos mais finos analistas da relação entre o eu e o outro, sem submissão alguma, de que parte para suas leituras pedagógicas de ensinantes e aprendentes.

Jair Messias ainda se prepara para lançar-lhe chamas (vindas do seu inferno pessoal?) e dias atrás disse a uma criança que vai mudar o patrono da educação, que é “chato”. Onde é que o pobre presidente vai encontrar Paulo? Trata-se, pois, de mais um desatino. Mais um ato de autodestruição. Seja por aproveitar-se da criança a favor do desvario, seja por enredar-se num universo que ele não conhece, o mundo freireano da alegria de conhecer, do rigor de ensinar e do prazer de se afirmar no mundo e na vida.

Ninguém jamais conseguiu convencer o presidente de que Paulo Freire não tem nada a ver com os problemas da educação brasileira, pois há tempo foi alijado dos processos pedagógicos propostos ao magistério, que deram preferência às últimas novidades traduzidas da Europa ou dos Estados Unidos.

Será que o senhor Jair Messias ainda aprenderá alguma coisa? Ou não passará dos seus mitos?

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.