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21 de outubro de 2018, 18h34

Brasil: perdendo o espírito nacional

João Vicente Goulart: “Só através da distribuição de renda, de solidariedade, do humanismo, da justiça social, é que haveremos de restabelecer a harmonia entre nosso povo, caso contrário será uma provação necessária para retomarmos as lutas de classe”

Foto: Arquivo Pessoal

Sairemos de uma eleição democrática.

Democrática?

Com regras impostas pelos senhores despachantes das grandes empresas, grupos, monopólios, setores representativos dos mais variados e diferentes interesses econômicos, holdings, bancos, engenharias de financiamento do agronegócio e da monocultura: será mesmo que podemos chamar esta eleição de “democrática”?

Deputados e senadores que se auto outorgaram um fundo eleitoral de R$ 1.700.000.000 (Um bilhão e setecentos milhões de reais), na verdade despachantes físicos no Congresso, destes interesses corporativos de fábricas de benefícios em causa própria, como incentivos fiscais, desonerações, através de emendas parlamentares, decretos de prolongamentos de contratos de portos, liberdade para remessas de lucros ao estrangeiro de empresas multinacionais, perda dos direitos trabalhistas, opressão sindical, sonegação fiscal, e ainda por cima a concessão de foro privilegiado, para que ação da justiça lhes beneficie?

Sim, nosso Congresso, na sua ampla maioria, perdeu o espírito nacional de Nação, pelo espírito individual de interesses próprios e corporativos. Pelo fanatismo, pela mentira e pelo embuste.

O espírito da Nação se constrói conforme os indivíduos que compõem esta complexidade humana tenham, dentro de si, o espírito coletivo, e cada consciência individual formando a consciência unívoca de identificação dos objetivos da Pátria como política de progresso e paz, caso contrário, o aprofundamento das divergências sociais, condenarão a democracia, em algo subjetivo aos interesses individuais.

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A existência pluralista se faz necessária. Não podemos considerar a totalidade do pensamento dos indivíduos que formam uma sociedade, uma nação, e até mesmo um processo civilizatório contido em uma grande massa humana que pensa identicamente igual as maiorias, que de eleição em eleição, se alternam politicamente, dentro do processo democrático, pois isso seria compactar as massas populacionais a um só direcionamento de atuação política, subtraindo-lhes a capacidade da outra parte da população de pensar diferente, ou seja suprimindo-lhes a liberdade. Se não há liberdade, há de fato, a desconstrução democrática.

Se aprofundarmos a perda do pluralismo, através da univocidade do pensamento político, a tendência é sem dúvidas o direcionamento governamental, ao fanatismo, ao totalitarismo, ao autoritarismo dos velhos preceitos constitucionais: -“quem não gostar eu prendo e arrebento”.

O fanatismo não coaduna com a democracia, no sentido que “Deus acima de tudo e de todos”, transporta o indivíduo “possuído “a tanta exaltação, que o coloca, dentro de sua visão, acima do erro e do mal. Esta convicção do fanático, o faz transgredir sobre o direito dos demais, que pensam diferente a ele, os princípios e os limites da razão humana. Esta “pureza” que emana da sua “convicção”, o faz ultrapassar o direito constitucional, de que o livre pensar diferente, faz parte da vida em sociedade.

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Não podemos abolir os direitos humanos em política, em liberdade da opinião, em respeito à individualidade dos seres humanos, nem por nossas convicções, nem pelo messianismo da divindade.

A invasão de uma reunião da CNBB, dois dias atrás, nos mostra o grau de comprometimento de certos correligionários de Bolsonaro, não só com a falta de entendimento com a Constituição brasileira, quanto aos direitos individuais, como também nos mostra o quanto estas atitudes de fanatismo arrebatam nossa liberdade de expressão.

Vivemos em comunidade, e isso implica em diversidade, em respeito a todos os membros que fazem parte dessa sociedade. A família comunitária, o bairro, o munícipio, o Estado e a Nação, implica em bem-estar, pois o próprio conceito “comunità”, é antagônico e contraditório a “má comunidade”, uma vez que pressupõe o bem de todos, dentro das normas sociais.  A imposição de costumes, religiões ou comportamentos restritivos a vontades individuais, orientações sexuais e supressão de liberdade de expressão, são degenerações próprias do autoritarismo ou das imposições messiânicas do fanatismo ideológico, que estamos presenciando, na perda do Espírito nacional.

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A nossa democracia, através de nossa Constituição cidadã de 1988, não permite que nossa sociedade produza uma metástase social, onde nossos valores multiculturais, miscigenados, religiosos, diversos, humanitários, solidários, se transportem como canceres malignos e se instalem no ódio desacerbado das consciências antidemocráticas de nossa Nação brasileira.

Esta é apenas uma eleição.

Não vamos fomentar a perda do Espírito nacional.

O desequilíbrio tremendamente anti-humano de nossas classes sociais haverá de estabelecer a justiça. Só através da distribuição de renda, de solidariedade, do humanismo, da justiça social, é que haveremos de restabelecer a harmonia entre nosso povo, caso contrário será uma provação necessária para retomarmos as lutas de classe.