Brasil troca bolas de futebol por balas de fuzil
27 de junho de 2018, 12h39

Brasil troca bolas de futebol por balas de fuzil

A morte do estudante Marcos Vinícius é um triste retrato de um país que troca salas de aula e bolas de futebol por balas de verdade – por Wadih Damous

Por Wadih Damous*

Poucos dias antes de uma bala atingir pelas costas o corpo do estudante Marcos Vinícius da Silva, 14, durante uma operação da polícia do Estado do Rio de Janeiro na Favela da Maré (em que outras seis pessoas também morreram), Temer enviou ao Congresso a MP 841 que retira recursos da Loteria Federal, antes repassados à saúde, cultura, educação, assistência social e esporte para um Fundo de Segurança Pública.

Quando Michel Temer, atabalhoadamente, decretou a intervenção militar no Estado do Rio de Janeiro, denunciei da tribuna do plenário da Câmara que isso se tratava de um engodo midiático que custaria a vida de muitos trabalhadores pobres e jovens cariocas, principalmente, fora da redoma da zona sul.

A intervenção militar no Rio desmoraliza a cada dia o papel das Forças Armadas e sequer foi capaz de apontar os responsáveis pelo covarde assassinato de Marielle Franco e Anderson. Quem comandou a trágica operação na Maré? O general Braga Neto teve controle sobre ela ou a polícia agiu por conta própria? Por óbvio, o desgaste e a cobrança recairão sobre as Forças Armadas.

A Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro denunciou o uso de helicópteros, chamados pelos moradores de “caveirão voador”, que despejaria sobre a população da Maré tiros de fuzil. Entidades que acompanharam a operação que assassinou Marcos Vinícius apontam que foram encontradas mais de cem marcas de disparos no chão, nas casas e nas ruas, o que reforça o uso da aeronave para disparos sobre a população.

Do total de mortos na última operação na Maré há denúncias de que a maior parte foi assassinada dentro de casa, após ser rendida pela polícia. Esses fatos devem ser objeto de apuração e denúncia na Comissão Popular da Verdade.

Marcos Vinícius se preparava para ir à escola quando foi atingido pelas costas. Agonizando, perguntou a mãe se os seus assassinos não teriam visto que ele estava de uniforme. A ambulância, que poderia ter salvo a sua vida, demorou a chegar por que a polícia teria bloqueado sua entrada por mais de uma hora. Essas cenas e relatos trágicos têm acontecido com frequência.

Ao mesmo tempo em que crianças a caminho da escola recebem tiros em operações militares nas favelas, Michel Temer quer retirar ainda mais dinheiro da Cultura, Esporte e Educação para fortalecer essa política de extermínio. O Ministério da Cultura terá um desfalque estimado de 319 milhões no Fundo Nacional de Cultura, o ministério dos Esportes de 514 milhões de reais e o Fundo de Financiamento Estudantil – FIES praticamente acaba com a Medida Provisória.

Na prática, Temer assalta os cofres de áreas estratégicas para formação e desenvolvimento das crianças e adolescentes brasileiros para negar-lhes acesso ao esporte, educação, cultura e assistência social. Em substituição, aumentará os recursos para financiar uma política militar de extermínio da população jovem, pobre e negra. É fundamental denunciar os seus reais objetivos e consequências. A morte de Marcos Vinícius é mais um dentre tantos sinais do desastre da intervenção militar no Rio de Janeiro.

E, também, um triste retrato de um país que troca salas de aula e bolas de futebol por balas de verdade.

*Dep. Federal PT/RJ