escrevinhador

por Rodrigo Vianna

16 de junho de 2015, 08h51

Miguel do Rosário, de Caracas: Globo/PSDB inventam factoide sobre proibição de avião

Aécio acha que o Aeroporto Internacional Simón Bolívar de Caracas fica em Claudio, onde ele mandou construir, com dinheiro público, na fazenda de seu tio, um aeroporto que só ele usava, e ainda – como o próprio admitiu – usava ilegalmente.

Por Miguel do Rosario, de Caracas

O Aécio quer vir à Caracas na quinta-feira, visitar os “presos políticos”.

Mas os factoides tucano-globais contra o “bolivarianismo” já começaram hoje. O Globo acaba de publicar matéria mentirosa do início ao fim, tentando pintar, como de praxe, o país como uma ditadura.

Um joguinho armado nojento entre PSDB e Globo, para tentar construir, desde já, uma narrativa heroica para a viagem do mineiro à Caracas.

Aécio é um peãozinho barato do Tio Sam.

Repare o título da matéria: “Venezuela nega autorização para avião com comitiva de senadores brasileiros“.

Aí você lê a matéria, e o próprio Aécio admite que não tem proibição nenhuma.

“— Houve uma solicitação por parte do presidente do Senado Federal ao Ministro da Defesa, que se dispôs, inclusive a disponibilizar uma aeronave, mas por ser uma aeronave militar, precisamos de uma autorização. Se não houver, vamos com uma do Senado Federal — disse Aécio.”

Ou seja, nem há resposta ainda. No começo da matéria, a repórter admite que a fonte é o senador Aloysio Nunes e o próprio Aécio, dois golpistas descarados, dois sem-vergonhas que odeiam a América Latina.

Se houver restrição, é contra avião militar, não contra comitiva do Brasil!

O ministério da Defesa do Brasil não confirmou nada sobre emprestar avião militar. E se o ministro da Defesa prometeu mesmo emprestar um, cometeu um erro. O ministro Jacques Wagner é do governo ou da oposição? Quem é Aécio para andar em avião militar brasileiro? Ele é do governo por acaso? Não. Então se contente em ir de avião comum!

Aécio acha que o Aeroporto Internacional Simón Bolívar fica em Claudio, onde ele mandou construir, com dinheiro público, na fazenda de seu tio, um aeroporto que só ele usava, e ainda – como o próprio admitiu – usava ilegalmente?

Acha que pode pegar um avião militar e pousar em outro país sem autorização?

Por que ele não tenta ir de avião militar para os EUA? SEM AUTORIZAÇÃO!

Qualquer um pode vir à Venezuela, basta pegar um vôo comercial e vir! Que palhaçada é essa!

Visitar os jornalistas presos ou demitidos no regime de terror que ele e sua irmã ajudaram a instalar em Minas, e que foi um dos motivos de sua acachapante derrota eleitoral em seu próprio estado em 2014, isso Aécio não quer, né?

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Sobre “ditadura” e prisão política, o jornalista Marco Aurélio Carone, do Novo Jornal, tem muita a coisa a dizer.

Alguns jornalistas vítimas da ditadura Aécio em Minas fizeram um excelente documentário-denúncia sobre o tema. É um desses vídeos que nunca vai passar na Globo. Então você só sabe da existência dele pelos blogs (mas não blogs “cubanos”, claro).

Visitar os presos políticos do Sergio Moro, como o tesoureiro do PT, João Vaccari, preso sem provas, nem pensar, né Aécio?

Por que não foi visitar professores, de seu próprio país, espancados pelo governador de seu próprio partido?

Tucanos são assim.

Mandam cortar cabeças de jornalistas no Brasil, xingam e agridem blogueiros de seu próprio país, mas idolatram blogueiros cubanos patrocinados pelo Tio Sam…

Por coincidência, ou nem tanto, eu cheguei em Caracas hoje à tarde.

No aeroporto, fui recebido por uma linda “terrorista” bolivariana. Uma moça gentil e culta que o chavismo tirou da favela.

Para entrar no clima, botei dois livros bolivarianos na mala.

O primeiro é “Vivendo no fim dos tempos”, do Zizek, um delicioso ensaio sobre: as crises que tem assolado o capitalismo nos últimos anos, as crises da própria esquerda, e as manifestações cada vez maiores de revolta popular no coração do mundo desenvolvido.

Até anotei algumas frases para usar por aqui.

Tem uma citação de Mao que serve de consolo para esses tempos difíceis:

“Há grande desordem sob o céu, a situação é excelente”, dizia Mao. Ele dizia isso, naturalmente, numa situação bem distinta da nossa, mas acho que serve como mote para encontrarmos brechas de esperança em qualquer crise.

***

Enquanto Aécio, em dobradinha com a Globo, não produz novos factoides anti-Venezuela para eu comentar, falemos um pouco sobre o Brasil.

O encontro de Cunha com grupos golpistas e truculentos pró-impeachment, em São Paulo; a tentativa de alguns senadores de oposição de golpear a Petrobrás; e os delírios cada vez mais antidemocráticos da República do Paraná, me parecem exemplos emblemáticos dessa “desordem sob o céu” de que falava o líder chinês.

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Os procuradores do Paraná, ao invés de procurarem evidências para condenar corruptos (e não ficar de mimimi de que empresários usaram de “contra-inteligência”), gastam sua energia dando chiliques barbosianos, como pedir ao Moro que proíba um dos réus de usar o play do prédio.

Por que não pedem logo para amarrar o cara ao pé da cama? Pelo amor de Deus! O réu ainda não foi condenado, ainda terá tempo de se defender, entrar com recurso, etc. Qual o desespero de não querer que o cara frequente o play do prédio?

E agora Sérgio Moro pediu abertura de inquérito contra Palocci…

Mais um factóide para o Jornal Nacional!

Que coisa estranha, fazer isso antes da acareação entre os delatores!

Ora, Youssef negou, taxativamente, a delação de Paulo Roberto Costa, de que Palocci teria “pedido” R$ 2 milhões ao doleiro.

Essa é a única “prova” de que dispõe Moro… Costa diz que Palocci pediu dinheiro a Youssef. E Youssef, perguntado, responde: “Esta afirmação não é verdadeira.”

Isso lá é motivo para abrir inquérito?

Moro deveria voltar a estudar direito com Luiz Fachin, que acaba de reiterar: delação premiada não é prova.

Fachin poderia acrescentar: sobretudo se o próprio delator nega a história!

Entretanto, a gente sabe como funciona o mecanismo: apenas a abertura de inquérito já constitui uma condenação midiática, política, psicológica.

Uma condenação real, quiçá a pior de todas, para um homem público.

Daqui a pouco Moro pede a prisão preventiva de Palocci também. E daí se bota mais fogo no clima de linchamento político que a República do Paraná e Globo querem criar – e conseguiram criar – contra o PT.

O negócio é produzir factoides em série contra o partido. E o PT não consegue se defender. A militância bate palmas para o Vaccari, mas o partido não consegue produzir argumentação política inteligente e satisfatória contra o golpe.

Ou seja, a população fica achando que a militância bate palmas para bandido. Ninguém vem à público dizer que é preciso parar de condenar previamente as pessoas, que isso é errado.

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Os caras do PMDB fazem isso. Culpados ou não, Cunha e Renan se defendem com a faca nos dentes.

O PT, não.

O PT anda completamente desorientado. Ao invés de investir em inteligência política, em formar quadros, em produzir documentos, como fez o presidente da Assembléia Nacional da Venezuela, Diosdado Cabello (acusado insanamente por golpistas midiáticos de “tráfico de drogas), o partido usa sua militância para fazer twittaço e bater palmas para o Vaccari.

É uma demonstração inútil de força.

Como dizia Mao, em outra frase citada por Zizek em seu livro: “erguem a pedra para largá-la aos próprios pés”.

O segundo livro bolivariano que eu trouxe é um romance que está na fila da estante há anos: Los ojos de los enterrados, do prêmio Nobel Miguel Angel Asturias, sobre revoltas populares na Guatemala. Coisa fina!

Durante o vôo, contudo, vim lendo algo que, suponho, pode me ajudar a escrever sobre um assunto sempre atual na Venezuela e no Brasil: A questão petroleira, um clássico de Bernard Mommer, linkado no site da estatal de petróleo da Venezuela (PDVSA).

O livro vem com um anexo sobre o golpismo, e a superação deste, no próprio seio da Pdvsa, no início da era Chávez.

É um livro extremamente interessante para quem quiser entender a história geopolítica do petróleo e os ataques de hoje à Petrobrás.

Eu fico em Caracas até sábado. Se o Aecim parar de factoides, largar a farra do Leblon, e vir à Venezuela, poderei testemunhar sua presença por aqui. Mas acho que ele vem sim. Essa armação entre ele e Globo foi feita apenas para dar mídia à sua viagem.

No hotel, que alívio assistir, na tv aberta, ao noticiário da Telesur!

Assisti a várias matérias excelentes sobre a América Latina. Uma delas mostrou trechos do discurso de hoje de Rafael Correa, que enfrenta no momento a enésima tentativa midiático-coxinha de desestabilização violenta de seu governo.

Reportagem honesta, dando voz a um presidente eleito e reeleito por seu povo.

Pretendo ainda colher material e comprar livros sobre “El Libertador” na famosa livraria del Sur, filial de Teresa Carreño, para o Projeto Bolívar!

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