escrevinhador

por Rodrigo Vianna

08 de outubro de 2010, 09h06

Para além das quatro linhas: futebol e Brasil

O futebol pode ser um tema de maior alcance desde que concebido para além das quatro linhas de seu campo de jogo. Neste texto, que inaugura a coluna Jogo de Classe, cabe destrinchar essa premissa.

por Felipe Carrilho

O futebol pode ser um tema de maior alcance desde que concebido para além das quatro linhas de seu campo de jogo. Neste texto, que inaugura a coluna Jogo de Classe, cabe destrinchar essa premissa.

O professor José Paulo Florenzano, autor do mais que recomendado livro A Democracia Corinthiana – práticas de liberdade no futebol brasileiro, disse certa vez numa entrevista que “o futebol é um fato social total”, ou seja, que esse esporte é um fenômeno permeado por uma multiplicidade de aspectos, com implicações políticas, econômicas, sociais, culturais etc.

Embora a produção acadêmica brasileira e o mercado editorial apresentem sinais de que começam (tardiamente, diga-se) a perceber esse fato – com a publicação de obras como a citada acima –, o jornalismo esportivo da grande mídia faz questão de ignorá-lo.

Basta uma rápida olhada, por exemplo, nas páginas de esporte dos grandes jornais do Brasil para perceber que a cobertura é sempre factual e restrita aos lances dos jogos e às declarações de atletas ou dirigentes. Os colunistas – por vício ou pela exigência produtivista de escrever semanalmente, mesmo que não haja assunto relevante – limitam-se a comentar as rodadas, analisando o rendimento dos atletas, as opções dos treinadores, as nuances dos esquemas táticos…

O futebol só extrapola o campo de jogo, para esse o jornalismo esportivo, quando há alguma denúncia de corrupção ou irregularidade, geralmente ocasionada quando da eminência da realização de um grande evento, como uma Copa do Mundo, uma parceria de algum clube com determinada empresa, ou a construção de um estádio, e, via de regra, é tratado com superficialidade e sensacionalismo.

O esporte mais popular do mundo é, portanto, entendido como caso de polícia ou um mero entretenimento por esses veículos, e é aí que reside o problema. É por causa dessa concepção estanque que esnobes enchem a boca, ainda hoje, para bradar por aí: “o futebol é uma válvula de escape”, ou, numa versão pretensa e falsamente engajada, “o futebol é alienante”.

Até parece que não estamos falando de um dos mais significativos traços culturais do Brasil e um dos elementos centrais de sua identidade e autoestima. Até parece que o futebol não foi um dos principais meios pelo qual os negros e os operários resistiram e se integraram socialmente neste país na virada do século 19 para o 20 e ao longo deste. Até parece que não houve Leônidas da Silva, Afonsinho, Tostão, Reinaldo e Sócrates. Até parece que a Democracia Corinthiana não prenunciou as Diretas Já. Até parece que o presidente Lula não fazia os seus discursos grevistas no final dos anos 1970 em um palanque montado dentro de um estádio de futebol de São Bernardo do Campo.

Esta coluna tem a pretensão de mostrar aspectos do jogo que são ignorados pela grande mídia e ressaltar o potencial inventivo e transformador do futebol enquanto valor cultural do povo brasileiro.

Felipe Carrilho é historiador e autor do livro “Futebol, uma janela para o Brasil – As relações entre o futebol e a sociedade brasileira”