escrevinhador

por Rodrigo Vianna

21 de junho de 2010, 10h12

Um passeio pelo Rio de Janeiro dos escravos

Em um início de tarde calorento do Rio de Janeiro, subo uma escadaria íngreme que surge, como que do nada, da Rua Camerino, na zona portuária da cidade. Após uma dezena de degraus, num escape à esquerda, vejo um mendigo e logo adiante três ou quatro corpos estendidos em meio a restos de comida e garrafas PET.

por Rogério Pacheco Jordão

Em um início de tarde calorento do Rio de Janeiro, subo uma escadaria íngreme que surge, como que do nada, da Rua Camerino, na zona portuária da cidade.  Após uma dezena de degraus, num escape à esquerda, vejo um mendigo e logo adiante três ou quatro corpos estendidos em meio a restos de comida e garrafas PET. Eles estão deitados sobre o chão de terra numa clareira onde trilhas levam a outras escadarias que, por sua vez, dão em raízes de árvores ou interrompem-se em muretas, numa espécie de labirinto sem pé nem cabeça.  Não parece, mas trata-se de um parque, ou mais precisamente o “Jardim Suspenso do Valongo”, construído em 1906, informa a plaqueta. E embora não existam indicações aos transeuntes, foi nesta encosta que funcionou, 200 anos atrás, o maior mercado de escravos do Brasil.
Cheguei até lá por meio de um mapa do século XIX, reproduzido no ótimo livro “A vida dos escravos no Rio de Janeiro, 1808-1850”, da historiadora norte-americana Mary C. Karasch. Ela esmiúça a vida dos escravos no Rio na primeira metade do século XIX, apoiada em extensa documentação. Muito interessante. A partir desta leitura, elaborei um breve roteiro turístico-histórico.  O passeio pode ser feito em um único dia e circunscreve-se à área central da cidade, a começar pela zona portuária.  Uma das regiões mais antigas do Rio, será “revitalizada” por conta das Olimpíadas e das obras do projeto “Porto Maravilha” (verbas públicas e privadas).  O  momento é, pois, oportuno para que aliemos reformas urbanas à recuperação & preservação da memória – coisa rara de acontecer no Brasil.

O roteiro:

Parada 1: o Valongo


O Valongo em pintura de Jean-Baptiste Debret

Na virada do século XVIII para o XIX o Rio de Janeiro já suplantara Salvador como o principal porto de desembarque de escravos vindos da África. Entre 1790 e 1830  chegaram na então capital da Colônia (depois Império) 706 mil africanos, provenientes principalmente de onde hoje ficam Angola, Congo e Moçambique, conforme dados compilados pelos historiadores João Fragoso e Manolo G. Florentino. Parte significativa desta massa humana teve como destino inicial no Brasil o mercado do Valongo — na verdade um conjunto de casas ou “armazéns” distribuídos ao longo de um vale entre os morros da Conceição e o do Livramento, na região do cais (10 minutos a pé da atual Praça Mauá).

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No local há hoje, na subida para o Morro da Conceição, a ladeira do Valongo, uma travessa estreita que sai da Rua Camerino e que circunda pelo alto o chamado “Jardim Suspenso do Valongo”,  onde durante o dia dormem mendigos e crianças, ambos protegidos dos olhares dos pedestres pela arquitetura do local – da calçada abaixo vê-se apenas uma murada alta. Subindo a ladeira, enfim, e contornando o dito jardim – e após passar por um conjunto de casebres — você tem uma vista do vale, sendo possível imaginar, com algum esforço, como era a área 200 anos atrás.

No cume do Morro estão instalados uma unidade do Exército  e um observatório astronômico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Não há referência ao antigo mercado – nenhuma placa, nada. A única indicação explicitamente histórica visível no entorno encontra-se materializada na praça abaixo, em um obelisco, onde lê-se que o “Cais do Valongo” foi reformado e “embelezado” em 1843 para a recepção à princesa Teresa Cristina de Bourbon, que,  vinda de Nápoles, casar-se-ia com D. Pedro II. E é tudo.

E do lado oposto, subindo-se a ladeira do Livramento (onde, aliás, nasceu o escritor Machado de Assis), dominada por casarões do início do século XX, muitos dos quais transformados em cortiços, chega-se a uma torre de transmissões da Embratel. De lá é possível avistar, virando-se as costas para a região do Cais, a Central do Brasil e o Campo de Santana.

Mas antes da próxima parada, um adendo, já que estamos perto do Valongo: a uns 400 ou 500 metros dali, na Rua Pedro Ernesto, 36, funciona o Instituto Pretos Novos (IPN), no antigo bairro da Saúde, atual Gamboa. O IPN repousa sobre um cemitério – o dos Pretos Novos – onde foram enterrados milhares de africanos, muitos advindos dos barracões do Valongo ou diretamente dos navios negreiros,  e que funcionou entre 1769 e 1830 (a partir deste ano o tráfico tornou-se ilegal). O cemitério foi “descoberto” por acaso em 1996 durante a reforma de uma casa – vale a pena ver os detalhes no site do IPN. E prossigamos.
Parada 2: o Campo de Santana

O Campo de Santana em 1820, na concepção de Franz Josef Frühbeck: no canto direito, no alto, os morros do Livramento e da Conceição, em cujo vale ficava o mercado do Valongo. E abaixo a vista aérea nos tempos atuais.

Em seu livro Karasch diz que o Campo de Santana (na região central, atual Praça da República) foi um ponto importante para a vida social dos escravos, que para lá iam, particularmente aos domingos, em suas horas de liberdade (outro local de reuniões era a Praça Tiradentes, não muito longe dali). Eram ocasiões festivas, com música e dança. A historiadora reproduz a descrição de um desses momentos feita por um mercador inglês chamado Robertson, que em 1808 achou que “não havia nada igual fora da África”.

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Escreveu o viajante: “Em frente avançavam os grupos das várias nações africanas, para o campo de Sant´Ana, o teatro de destino da festança e algazarra. Ali estavam os nativos de Moçambique e Quilumana, de Cabinda, Luanda, Benguela e Angola (…). A densa população do campo de Sant’Ana estava subdividida em círculos amplos, formados cada um por trezentos a quatrocentos negros, homens e mulheres. Dentro desses círculos, os dançarinos moviam-se ao som da música que também estava ali estacionada; e não sei qual a mais admirável, se a energia dos dançarinos, ou a dos músicos”. (Karasch, pág 326).

Posteriormente, as autoridades proibiriam as grandes concentrações de escravos, consideradas “perturbações da ordem pública”, nas palavras de Karasch (embora, frise a historiadora, a proibição não tenha surtido totalmente efeito, tendo os encontros perseverado).

Fui ao Campo de Santana para tentar identificar algum rastro deste passado. Ficava por lá, também, um dos principais pelourinhos da cidade. Era ainda local para vendas públicas de escravos. Mas, mesmo com estes elementos significativos – e assim como no Valongo –, não há pistas.

Ponto de passagem, a algumas centenas de metros da Central do Brasil, de onde partem os trens para as zonas oeste e norte da cidade, chama a atenção no parque, a despeito de seus ares decadentes, suas belas árvores e cutias, que andam a solta. É certo que o local foi palco de grandes “momentos históricos”, nos dizeres da Wikipedia, como a coroação de D Pedro I e a Proclamação da República, conforme nos lembra, também, um desgastado monumento eregido no centro do Campo. Mas  creio que não faria falta ao menos uma plaquinha no local, algo como: “E aqui reuniam-se na primeira metade do século XIX os escravos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro em seus momentos de liberdade, aos domingos…”, lembrando, talvez, como aponta Karasch, que, em alguns intervalos de anos, quase a metade da população da cidade chegou a ser formada por cativos, em grande parte africanos, que trouxeram consigo diversas culturas, ricas em línguas (de origem banto, kikongo, quimbundo), hábitos, crenças (diferentes religiões), culinária (pirão, angu), musicalidade (tambores de diversos tipos, marimbas) , sabedorias etc. E tocamos adiante.

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Parada 3 — Igreja Nossa Senhora do Rosário

A Igreja Nossa Senhora do Rosário (metrô Uruguaiana) é uma das poucas construídas e fundadas na cidade por irmandades de escravos e libertos. No fundo desta igreja funciona atualmente o Museu do Negro.

Ocupando um corredor e uma sala, o Museu é acanhado, com imagens de santos (como a de São Benedito, depositário de bilhetes pedindo graças), um busto de Zumbi dos Palmares (que recebe homenagens dos devotos), um pequeno mapa com os fluxos do tráfico negreiro da África para o Brasil a partir do século XVII, fotos de procissões da Irmandade nos anos 1950 (curiosamente a maioria dos que aparecem nelas é de brancos), uma palmatória de madeira, além de retratos de pessoas negras de destaque, como o de um Marechal do Exército (que agora me escapa o nome) e o da ex-governadora Benedita da Silva.

Já a Igreja propriamente dita é toda reformada, pois pegou fogo nos anos 1960, informa uma tabuleta de metal na entrada.

E na sala escura e quente da nave lateral onde as velas queimam, há duas reproduções de pinturas com homens trabalhando o que parece ser uma moenda de cana; é difícil distinguir por conta do negrume. Dali é possível ver por uma fresta a calçada do lado de fora, onde, ao alcance dos braços, uma mulher toda de branco monta diariamente uma tenda para consultas – quase ouve-se sua voz lá de dentro.

Pode-se sair deste breve roteiro com a impressão de que as pessoas teriam muito a ganhar se fossem oferecidos nos espaços públicos (via monumentos, placas, exposições criativas) resquícios mais amplos (e generosos) de nossa história. Se, como já sugeriu o cientista político americano Benedict Anderson, as nações são “comunidades imaginadas”, é certo que o acesso a informações mais diversificadas nos estimularia a sonhá-las, quem sabe, em tons mais coloridos.

Rogério Pacheco Jordão é jornalista e mantém o blog Entrementes

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