Anarca é a mãe

28 de abril de 2015, 09h06

Bruxarias

bruxas

Imagem de http://www.motionelements.com/stock-video-4554303-witches-flying-over-the-city-at-night

E eis que dei minha primeira palestra sábado passado. Quem me convidou foram as diretoras Regina Freitas e Sílvia Gimenes, do Sindicato dos Securitários do Paraná; o evento era o XV Encontro das Mulheres Securitárias do Paraná. O encontro é organizado por elas todos os anos com muito carinho, mas esta edição, por ser a décima quinta, foi especial e eu me sinto honrada de ter podido fazer parte disso.

Passamos o fim de semana todo juntas (minha família, que me acompanhou, também estava lá) e foi uma oportunidade fantástica de aprendizado para mim. Eu já havia feito rodas de conversa antes, mas nada estruturado, com apresentação etc. e foi muito legal poder experimentar esse novo formato.

Era um grupo diversificado, com pessoas das idades mais variadas; algumas sem filhes, a maioria mães, outras já avós e inclusive uma bisavó simpaticíssima. O que todas ali tinham em comum era o prazer em estar e a vontade de conviver com outras mulheres. O interesse em participar de um ambiente praticamente exclusivamente feminino. E isso, infelizmente, é algo raro em um mundo em que somos educadas para vermos umas às outras como inimigas, como concorrentes pela atenção e aprovação masculinas.

Ainda são maioria, infelizmente, as mulheres que vivem dentro dessa ilusão criada para nos desunir, para nos enfraquecer, para que não nos revigoremos com o bálsamo que é o contato com pessoas que entendem de fato aquilo que nós passamos, mesmo que cada uma passe de um jeito diferente.

Tive a oportunidade de falar sobre o mito da mulher multifuncional e o quanto essa exaltação da sobrecarga da mulher é uma forma de mantê-la desesperadamente buscando essa aprovação, tentando dar conta de fazer o impossível, ao invés de perceber que não teria que fazer sozinha o trabalho de dez pessoas se quem está ao redor dela fizesse a sua parte.

Também pude enfocar a maternidade como assunto de interesse coletivo, no sentido de perpetuação da espécie humana, e do quanto é absurdo que a mesma sociedade que tanto pressiona, direta ou indiretamente, a mulher para que se torne mãe, desampare-a tão logo ela engravide, como se fizesse sentido ela ter que se virar sozinha para lidar com a conciliação de sua maternidade com outras esferas de sua vida – especialmente a profissional e a acadêmica. Esse assunto me é tão caro neste momento que pretendo, aliás, fazer um texto só a respeito disso, que estou há meses rascunhando, e a preparação para essa palestra me ajudou a sintetizar muito do que eu quero dizer nele. Me aguardem. ;)

Mas, principalmente, pude entrar em contato com mulheres incríveis, divertidas, interessantes, cheias de histórias para contar e vivências para compartilhar. Rimos juntas, choramos juntas, nos indignamos juntas contra as opressões cotidianas e reconhecemos juntas tantas coisas que temos para desconstruir e reconstruir em nós.

Ouvindo sobre suas carreiras, aprendi muita coisa nova, assim como identifiquei muitas das coisas infelizes de sempre – aquele machismo péssimo que acompanha a existência de qualquer uma de nós, basicamente, tomando a forma, inclusive, de companheiros e chefes que tentaram sabotar a ida de algumas ao evento. E não é à toa, afinal, muitos homens se sentem ameaçados pela ideia de mulheres reunidas, rindo livremente longe da presença deles. Enquanto parece ser direito sagrado do homem sair com seus amigos, é vista com muita desconfiança a saída da mulher somente com outras mulheres. Claro. Instintivamente sabem que será esse o fim dos privilégios a que eles tanto querem se agarrar.

Talvez por isso seja essa a imagem da bruxa, uma mulher que cruza, livre, o firmamento adornado pela lua cheia, esse símbolo feminino tão antigo, preenchendo a noite com uma gargalhada maravilhosa e arrebatadora.

Antes de eu ir embora, Regina me disse que eu não me esquecesse delas, porque elas não se esqueceriam de mim. E eu disse, sincera e emocionadamente, que não. E não é porque foi a primeira palestra que eu dei na vida, mas por conta daquela energia feminina, orgulhosa e deliciosa, que me contagiou e me fortaleceu. Por conta das tantas coisas bonitas de carinho e cuidado e apoio entre mulheres que eu pude ouvir e ver entre elas. Foi uma experiência tocante e muito rica de sororidade e humanidade e eu sinto que sou outra pessoa depois dela.

Tenho certeza de que, mesmo daqui a décadas, eu ainda vou me lembrar de caminhar na praia à noite com aquelas mulheres sensacionais, conversando e dando risada enquanto o mar beijava os nossos pés. A lua não estava cheia, mas não fez diferença. Bruxaria é coisa linda, gente! <3

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Eu sou a de preto ali no cantinho esquerdo da foto =)

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