03 de setembro de 2018, 22h32

Cachimbos, charutaria, Abelardo Jurema e Facebook

Nova crônica do Blog do Mouzar

Mexendo numa gaveta que não abria há um tempão, o que vejo? Cachimbos! Vários.

Fui fumante de cachimbo, como muita gente (geralmente homens, mas algumas mulheres também – aliás, no interior, muitas mulheres velhas pitavam fumo de corda em cachimbos de barro).

Hoje em dia é raro ver alguém dando suas baforadas gostosas em cachimbos. E quase não vejo também estabelecimentos especializados em cachimbos e fumos especiais para eles. “Antigamente”… Gozado chamar de “antigamente” um tempo que na minha cabeça não é tão distante assim. Mas “antigamente”, pelo menos até o início dos anos 1980, fumar cachimbo era um hábito comum e, além de lojas especializadas neles e em fumos especiais, em um monte de bares havia charutarias, coisa que muitos jovens não devem nem imaginar ter existido.

Num canto do bar, fora do balcão, era comum ter um pequeno cubículo cercado de vidro em que se vendia cigarros, charutos, cigarrilhas, cachimbos, fumos para cachimbo e para cigarros, papel para cigarros, bocetas (isso mesmo – bolsinhas especiais para colocar fumo), fósforos, isqueiros, fluidos para isqueiros e, em alguns, balas e bombons. Era a charutaria.

E vejam como um objeto qualquer – no caso o cachimbo – pode fazer com a memória da gente! Lembrei-me de Abelardo Jurema, ministro da Justiça do governo João Goulart. Seus grandes feitos foram criar um órgão de controle de preços de gêneros alimentícios e congelamento de aluguéis durante um período.

Veio a “Redentora”, o golpe que uns babacas de hoje louvam, e Abelardo Jurema teve que se mandar, como um monte de gente. No caso dele, exilou-se em Lima, no Peru.

Quando se falava o nome “Abelardo Jurema”, o pessoal da ditadura babava de ódio: “comunista”, perigoso e não sei que mais. Mas ele era do PSD (Partido Social Democrático), que nada tinha de esquerda, que geralmente se aliava ao PTB, partido de João Goulart. Nem o PSD nem o PTB de hoje têm a ver com esse passado.

Quando acabou a ditadura getulista, seus seguidores criaram dois partidos: o PSD, maior, conservador, controlado por políticos tradicionais, especialmente grandes proprietários rurais, e o PTB, mais ligado a sindicatos e com pequeno viés de esquerda em alguns lugares. Aliavam-se em muitas eleições. Juscelino Kubitschek foi o último presidente pelo PSD, e o vice-presidente era João Goulart, apelidado Jango. O vice, na época, não era eleito automaticamente, na chapa do presidente. Votava-se para presidente e para vice. Tanto que Jango foi reeleito, vencendo o candidato de Jânio Quadros, presidente eleito depois de Juscelino.

Pois bem, Abelardo Jurema era do PSD, tinha sido prefeito de sua terra, Itabaiana (PB) e de João Pessoa, e também deputado e senador, sempre pelo PSD da Paraíba. Quem se inteirasse de sua história nunca o incluiria no rol de subversivos, comunistas, revolucionários… Mas exilado tinha essa fama. Será que teria se convertido?

Na época da campanha pela Anistia, de vez em quando saíam nos jornais e revistas matérias sobre exilados. Fiquei sabendo então que o temido Abelardo Jurema tinha uma charutaria na cidade de Lima. Ex-ministro da Justiça vivendo de vender cigarros, charutos, fumo pra cachimbo… Que castigo! E continuava com a fama de “esquerdista”.

Eu achava estranho que um irmão dele, Aderbal Jurema, era deputado da Arena (o partido da ditadura) e um dos mais ferrenhos direitistas, defensor fanático dos militares. Certo… Irmãos não precisam, necessariamente, ter ideias iguais. Não é nada incomum alguém de esquerda ter irmão direitista. Só que Aderbal Jurema era demais. E eu pensava: será que ele não quer a volta do irmão, que vive precariamente no Peru?

Bem, veio a anistia e começaram a voltar os exilados. Cada voo com um bando deles era uma festa. Os aeroportos ficavam lotados esperando a chegada de alguns deles, que às vezes nem iam pra casa direto: iam direto do aeroporto para alguma reunião, palestra, festa…

Um dirigente do PC do B, não me lembro do nome dele, morreu do coração dentro do carro que o levava do aeroporto para um evento, logo que chegou. Era um tempo de muitas emoções. Apolônio de Carvalho foi levado do aeroporto de Congonhas para o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, onde daria uma palestra. Na época eu colaborava no jornal “Brasil Mulher” e todas as mulheres que trabalhariam no fechamento de uma edição queriam ir ver e ouvir Apolônio, que lutou contra Franco na Guerra Civil Espanhola e de lá atravessou para a França, onde foi membro da Resistência contra o nazismo, era considerado herói nacional da França.

Falei para elas que fossem: eu ia fechando a edição sozinho. Depois da palestra, voltariam para concluir os trabalhos. Foram, e voltaram lá pelas onze da noite, apaixonadas por ele.

E eis que volta Abelardo Jurema. Para mim, uma lenda. Eu estava curioso para saber como o famoso “esquerdista” seria recebido pelo irmão direitista. Na época já tinha uma reformulação partidária, em que a Arena virou PDS e o MDB tinha virado PMDB.

Surpresa: Abelardo Jurema filiou-se ao PDS, que substituiu a Arena como partido da ditadura. Tinha ideias bastante afinadas com as do irmão.

Viram só o que uns cachimbos abandonados me fizeram lembrar?

Bom… E onde entra o Facebook nesta história? É que resisti durante anos ao canto da sereia. Por insistência de amigos, acabei entrando no Facebook há meses. Sabia que isso serviria para me decepcionar com algumas pessoas. E não falhou: lendo o que postam no tal de Facebook, vejo que o Brasil tem um montão de pessoas como Abelardo Jurema. Só faltava ocasião e lugar para mostrarem o que são.