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05 de fevereiro de 2016, 16h24

Campanha contra o assédio sexual no carnaval ganha força na internet

O #CarnavalSemAssédio – criado pelo Catraca Livre com a ajuda do “Vamos Juntas?”, da revista AzMina e de blocos de carnaval de São Paulo -já conta com o apoio de nomes como Chico Buarque e Karol Conká e repercute em outras cidades por Helô D’Angelo O assédio sexual é uma prática comum. Segundo a pesquisa Chega de Fiu Fiu, 98% das mulheres já sofreram assédio nas ruas. Em época de carnaval, o clima de festa pode dar a falsa impressão de que “pode tudo” – inclusive assediar sem consequências. Foi pensando nisso que o Catraca Livre criou a campanha #CarnavalSemAssédio, em parceria...

O #CarnavalSemAssédio – criado pelo Catraca Livre com a ajuda do “Vamos Juntas?”, da revista AzMina e de blocos de carnaval de São Paulo -já conta com o apoio de nomes como Chico Buarque e Karol Conká e repercute em outras cidades

por Helô D’Angelo

O assédio sexual é uma prática comum. Segundo a pesquisa Chega de Fiu Fiu, 98% das mulheres já sofreram assédio nas ruas. Em época de carnaval, o clima de festa pode dar a falsa impressão de que “pode tudo” – inclusive assediar sem consequências. Foi pensando nisso que o Catraca Livre criou a campanha #CarnavalSemAssédio, em parceria com a Revista AzMina, com os movimentos ‪#‎AgoraÉQueSãoElas‬ e “Vamos Juntas?”, com o Bloco das Mulheres Rodadas, com o Samba em Rede e com o apoio da advogada de direitos humanos Andrea Florence e da arquiteta e urbanista Marília Ferrari. “Infelizmente, os números de abuso sexual aumentam neste período por diversos fatores, e muitos homens justificam suas condutas abusivas como sendo uma tentativa normal de ‘paquera’”, conta Heloisa Aun, jornalista do Catraca Livre e uma das criadoras do #CarnavalSemAssédio.

O objetivo é “lutar contra a violência e o machismo, promovendo a discussão de que assédio é assédio em qualquer época do ano”, como explica o Catraca Livre no evento da campanha no Facebook. As ideias e práticas para o combate ao assédio sexual são variadas: o Catraca Livre começou espalhando imagens com a hashtag #CarnavalSemAssédio e incentivando as mulheres a compartilharem fotos e relatos com a tag, e entrou em contato com ONGs como a Engajamundo para ajudar na distribuição de adesivos e plaquinhas com frases conscientizadoras. Depois, a Revista AzMina compartilhou manual que diferencia “paquera” de “assédio”.

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O movimento “Vamos Juntas?” também entrou no samba criando um grupo chamado “Vamos Juntas Pra Folia?”, no qual mulheres podem combinar encontros nos blocos de carnaval em várias cidades do Brasil. “Essa visão de que o carnaval é ‘terra de ninguém’, ainda que naturalizada, não é natural. temos que dar esse recado aos homens, mas também mostrar para as mulheres para que elas tenham certeza disso e entendam que não são obrigadas a nada”, defende a jornalista Babi Souza, criadora do “Vamos Juntas?”.

Heloisa conta que, assim que a ideia surgiu, no inicio de janeiro, ela e seus colegas entraram em contato com coletivos e páginas feministas, para alcançar o maior apoio possível. A campanha começou, de fato, no primeiro bloco de São Paulo, o “Privamera, Te Amo”, onde Heloisa e o videomaker Gabriel Nogueira foram gravar uma matéria com depoimentos de mulheres sobre situações abusivas que elas já viveram no Carnaval. Depois de alguns dias, eles publicaram o vídeo e o #CarnavalSemAssédio começou. “Inicialmente, queríamos que as pessoas compartilhassem relatos nas redes sociais. Mas quando lançamos a campanha, vimos que o melhor jeito de emplacar essa ideia era compartilhar materiais do Catraca e dos parceiros”.

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A partir daí, a campanha viralizou na internet: o vídeo da marchinha de carnaval da campanha, por exemplo, já tem quase 700 compartilhamentos no facebook, enquanto o vídeo com os depoimentos já chegou a quase mil compartilhamentos. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, vários blocos de carnaval aderiram ao #CarnavalSemAssédio, entre eles o BregsNice, o Primavera, Te Amo e o Farofa Aquática, de São Paulo, e o carioca Mulheres Rodadas. Além dos blocos, personalidades da música, da mídia e da televisão também demonstraram seu apoio à campanha: Chico Buarque, Pitty, Karol Conká, a mídia NINJA, Nando Reis, Gregório Duvivier, Adriane Galisteu, Cauã Reymond e muitos outros.

Como o Catraca Livre se espalha por várias cidades e tem muitos parceiros fora de São Paulo, a campanha chegou a ser apoiada pelas prefeituras de Salvador e do Rio de Janeiro. Com a força do “Vamos Juntas?”, da Revista AzMina e dos coletivos feministas, a projeção é que a hashtag continue viralizando e que atinja cada vez mais pessoas. Para Heloisa, a campanha vai além do carnaval: “A importância de uma campanha como essa é conscientizar as pessoas de que a violência contra as mulheres e o machismo não pode ser algo naturalizado nem no Carnaval, nem em qualquer outra época do ano.”

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Foto de capa: Gabriel Nogueira

Confira a letra marchinha de carnaval do #CarnavalSemAssédio:

“Carnaval sem assédio/ É a regra da alegria/ Agora são as minas/ As donas da folia/ Pera lá, rapaz, segure seu amor/ Não é assim que se faz/ Eu também sou da folia e a minha fantasia é só um jeito de brincar/ E pra minha brincadeira, se você se comportar/ Posso até te convidar/ Mas jamais se esqueça da lição: não é não/ Calma lá, Pierrot/ Não é assim que se conquista a Colombina/ Ela é quem determina até onde a brincadeira vai chegar/ É um charme ser cortês/ Ao contrário, estupidez, acaba com qualquer clima/ E pra encerrar, jamais se esqueça da lição: não é não”

Veja também o guia da revista AzMina para diferenciar “cantada” de “assédio”:

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