idelberavelar

02 de maio de 2011, 14h28

Carta aberta a Tarso Genro: Sobre a língua viva não se legisla. Vete a lei, Governador

Excelentíssimo Governador Tarso Genro:

Eu e uma legião de eleitores de esquerda fomos surpreendidos, no dia 19 de abril, com a aprovação, pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, do projeto de lei 156/2009, de autoria do Deputado Raul Carrion (PCdoB), que “institui a obrigatoriedade da tradução de expressões ou palavras estrangeiras para a língua portuguesa, em todo documento, material informativo, propaganda, publicidade ou meio de comunicação através da palavra escrita no âmbito do Estado do Rio Grande do Sul”. Foi o estranho dia em que a direita representou a voz da sensatez. Apesar de que, felizmente, não está claro que o Sr. sancionará essa nociva e inútil lei, o Sr. condenou as chacotas e declarou que só as pessoas “muito caipiras” podem se opor às tentativas de defesa do vernáculo. Começo esta carta aberta atendendo o seu pedido de que a matéria seja tratada com seriedade, embora, que fique dito, para quem conhece algo acerca de como funciona o idioma, é meio irresistível dar algumas risadas de uma lei como esta. Noto, no entanto, minha discordância com seu uso do termo “caipira”. Em seu sentido pejorativo—que eu costumo evitar, aliás–, “caipira” é, segundo Houaiss, o “acanhado, pouco sociável”, enfim, justamente aquele que constrói cercas em volta de si mesmo. Caipiras são, portanto, os defensores da lei.

Tenho esperança de que o Sr. consultará alguns dos extraordinários profissionais do Instituto de Letras da UFRGS ou da Faculdade de Letras da PUC/RS—duas instituições de ponta, que estão entre as melhores do Brasil, tanto em literatura como em Linguística—antes de sancionar essa sandice. Sim, porque de sandice se trata.

A Linguística, como qualquer outra disciplina, possui diversas correntes e debates internos. Mas há um postulado do qual nenhum linguista discordaria: a língua é organismo vivo, em constante transformação. O dicionário é só uma sistematização pontual—um recorte—da coleção de vocábulos utilizados pelos falantes da língua em determinado momento. Essa coleção vai mudando, com a queda em desuso de algumas palavras e a incorporação de outras. É um processo natural da língua. Nele, os chamados estrangeirismos aparecerão sempre. Especialmente num mundo globalizado, eles são inevitáveis e, acima de tudo, não reguláveis por decreto, ainda mais um decreto estadual. Os próprios mecanismos internos da língua se encarregam de incorporar alguns, expelir outros, aportuguesar outros. Aliás, se formos ser rigorosos e eliminar todos os estrangeirismos, terminaremos onde? No tupi-guarani ou na passagem da vulgata latina ao galaico-português?

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Vamos aos exemplos.

O Sr., que é colorado, se lembra da época em que os termos “córner” e “escanteio” coexistiam na língua portuguesa. Houve época em que era só “córner”. Com o tempo, os dois foram coexistindo e hoje “escanteio” parece ter se imposto, embora “córner” ainda seja compreensível para a maioria dos fãs de futebol. Aliás, “futebol”, um dia, foi gravado “football” e era um puro estrangeirismo. Será que a língua portuguesa estaria mais autêntica e protegida se usássemos “ludopédio”? Ora, a grafia de “football” foi aportuguesada e hoje ninguém pensa mais nisso. É a língua, Governador. Por outro lado, “match”, que era o termo usado nas publicações esportivas brasileiras dos anos 20, morreu mesmo, substituído por “jogo”, “partida”, “certame” ou “peleja”, sem que nenhum Carrion tivesse aparecido para decretar seu fim. Os próprios mecanismos que regem a interação real entre os falantes—estudados pela sociolinguística e pela pragmática—se encarregam da triagem. Muitas vezes, a grafia estrangeira permanece, sem dano nenhum ao idioma, como é o caso, aliás, dos dois gigantes gaúchos, o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense e o Sport Club Internacional.

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“Abajur”, não muito tempo atrás, era “abat-jour”. Algum Carrion da época teria nos obrigado a usar “quebra-luz” e, assim, privado os falantes da língua de um enriquecimento lexical, que hoje nos permite designar um objeto específico, sem nenhuma ambiguidade. “Sutiã”, até outro dia, era “soutien”, e a vernaculização do estrangeirismo nos poupou do “sustenta-seios” que o PCdoB teria preferido.

Imagine, Governador, se o Deputado Carrion tivesse assessorado a administração das capitanias hereditárias e proibido os estrangeirismos na época. Não teríamos hoje a marca lexical mais distintiva da língua portuguesa, que não é “saudade” coisa nenhuma, mas a indefectível “bunda”. Só nós a possuímos. Foi um presente maravilhoso do quimbundo, e que hoje é tão brasileiro como o samba–outro estrangeirismo, aliás. Os hispanos não têm “bunda”. Usam “culo”, o que, sabemos, não é a mesma coisa. Dá para imaginar, Governador, uma língua portuguesa sem bunda?

O Deputado Carrion, inclusive, demonstra ignorância da língua que quer defender. Em sua justificativa ao projeto, ele declarou que não vai ao shopping center, e sim ao centro comercial. Ora, essas duas expressões não são sinônimas! “Shopping center” é parte da língua portuguesa, e quem o diz é o dicionário Houaiss, que em sua edição de 2008 reconheceu o uso dos falantes reais, como fazem sempre os bons dicionários, e registrou: “shopping center: centro comercial de arquitetura específica”. Qualquer falante brasileiro, pelo menos das áreas urbanas, sabe disso, mesmo que intuitivamente. Mas a esquerda legislativa do Rio Grande quer abolir esse saber natural dos falantes por decreto. O Deputado Carrion afirmou que só nos EUA ele iria ao “shopping center”. Teria dificuldades, pois o que, em língua portuguesa, é “shopping center”, na língua inglesa, pelo menos nas variações dialetais estadunidenses, chama-se, em geral, “mall”, da mesma forma como o que designamos como “outdoor” em português é chamado de “billboard” em inglês. É o que ficou imortalizado como “a contribuição milionária de todos os erros” pelo genial Oswald de Andrade, escritor que confiava na nossa capacidade de absorver, incorporar, processar e transformar tudo, sem medo e sem complexo de inferioridade. É um autor que o PCdoB deveria ler com mais frequência.

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O PCdoB, partido que eu respeito e ao qual é filiada a minha atual representante na Câmara dos Deputados—já que o PT-MG meteu-se em tucaníssimos enredos–, tem, no entanto, essa estranha mania de decretar o que é e o que não é autenticamente brasileiro, como se o comunismo tivesse sido invenção tupiniquim. As cotas para as indústrias cinematográfica e televisiva brasileiras, por exemplo, são temas que podem ser debatidos seriamente. Decretar uma cerca em volta do idioma, não. Como afirmei num texto anterior, projetos desse tipo são de mastodôntica ignorância:

a) sociolinguística, porque ignoram que sobre a língua viva não se legisla.

b) filológica, porque não sabem que a evolução da língua inclui a incorporação de vocábulos estrangeiros.

c) pragmática, porque ignoram que cada falante, individualmente, tenderá a ter a capacidade de selecionar os estrangeirismos adequados para cada contexto e, no caso de não fazê-lo, a própria interação subsequente com os outros falantes atuará, corrigindo-o.

d) psicolinguística, porque querem cercear legislativamente o leque de escolhas lexicais do falante da língua.

A língua portuguesa vai bem, Governador, obrigado. Cada vez mais enriquecida pela interação com as outras. Não deixe que a esquerda do Rio Grande pague esse mico. Consulte o seu companheiro de lutas, Olívio Dutra, que é formado em Letras. Vete essa nociva, inútil, xenofóbica e medrosa lei.

Atenciosamente,

Idelber Avelar