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19 de Janeiro de 2018, 21h45

Célio Turino: Carta a Rodriguinho Maia sobre comentários a respeito da Bolsa Família

Em artigo, Célio Turino lembra que “Rodriguinho” Maia, deputado que afirmou que o Bolsa Família “escraviza” as pessoas, nunca trabalhou, sempre viveu à sombra do pai e vive de bolsas cedidas aos parlamentares, tendo como principal feito de sua biografia o arquivamento da denúncia contra Temer. Leia Prezado Rodriguinho, Tomo a liberdade de chamá-lo no […]

Em artigo, Célio Turino lembra que “Rodriguinho” Maia, deputado que afirmou que o Bolsa Família “escraviza” as pessoas, nunca trabalhou, sempre viveu à sombra do pai e vive de bolsas cedidas aos parlamentares, tendo como principal feito de sua biografia o arquivamento da denúncia contra Temer. Leia

Prezado Rodriguinho,

Tomo a liberdade de chamá-lo no diminutivo porque, apesar de seus quase 50 anos de idade, tudo o que você conquistou na vida profissional e política foi à sombra do seu pai, o ex-deputado e ex-prefeito do Rio de Janeiro, César Maia. A propósito, procurei em sua biografia algum trabalho privado, ou por próprio mérito, e não encontrei, se houver, por favor, avise para ajuste biográfico. Sei que, desde 1999, aos 28 anos de idade, você tem sido eleito deputado federal e atualmente é presidente do Congresso, como foi um outro neto de político, um tal de Aécim.

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Escrevo para falar sobre um comentário seu, realizado nos States, no “Brazil Institute do Wilson Center”, em Washington. Você fez considerações sobre o programa BOLSA FAMÍLIA, dizendo que “criar um programa para escravizar as pessoas não é um bom programa social. O programa bom é o que dá condições para que ela volte à sociedade e possa, com suas próprias pernas, conseguir um emprego”.

Ao ler seu comentário, passou-me a seguinte ideia: é chegada a hora do povo tomar coragem e dar condições para que você e seus colegas no Congresso voltem também à sociedade e possam, segundo suas palavras, com suas próprias pernas, conseguir um emprego. Afinal de contas, Rodriguinho, você passou toda a vida adulta recebendo a “Bolsa Deputado”, cargo esse, conquistado, exclusivamente, pela articulação e nome de seu pai. E já se vão 20 anos! Cinco mandatos sucessivos, e sem, ao que se saiba, qualquer contrapartida concreta para a sociedade. Soube também que, ano passado, como presidente da Câmara, você livrou os brasileiros da “escravidão da CLT”, e agora os trabalhadores podem caminhar pelas “próprias pernas”, vendendo sua força de trabalho em contratos intermitentes, no valor de R$ 4,75 a hora, sem direito a férias, descanso semanal remunerado, décimo-terceiro, seguro desemprego e aposentadoria. Como grande obra em seus vinte anos como deputado há também a manutenção de Temer na presidência da República, graças às suas ações para o arquivamento de denúncias contra ele. Algo mais? Ah, sim, tem a reforma da previdência, que você deseja ver aprovada no próximo mês, talvez para livrar os aposentados da escravidão, afinal de contas, acumular aposentadoria e pensão para uma viúva com 80 anos de idade, também deve escravizá-la.

Rodriguinho, já que você anunciou que pretende fazer uma campanha contra Bolsas escravizantes, gostaria de apresentar algumas sugestões. Comece pela “Bolsa Moradia de Deputados, Juízes e Promotores”, o valor é de R$ 4.300,00/mês. Essa Bolsa deve ser viciante, tanto que vocês não largam dela! Tem até um deputado, amigo seu, um tal de Bolsonaro, que, mesmo sendo proprietário de imóvel em Brasília, segue agarrado à Bolsa. Em recente entrevista à imprensa, esse seu colega disse que usufrui a Bolsa, à revelia da lei, registre-se, para “comer gente”. Neste caso, fica a sugestão, uma vez que você é presidente da Casa e ainda não tomou providências a respeito, o nome mais apropriado para esta Bolsa deveria ser “Embolsonaro Graçonnièri”; o que você acha? Outra Bolsa que você poderia enfrentar é a “Bolsa Paletó”, igualmente recebida por congressistas, juízes e promotores públicos; no caso de congressistas o valor é de R$ 33.700,00 no início da legislatura e mais R$ 33.700,00 ao final; uma escravização e tanto! Certa vez ouvi de um Juiz que esta Bolsa se justificava porque eles precisavam se vestir bem e não tinham condições de viajar todo ano para Miami. Está aí o nome para esta Bolsa: “Bolsa Miami”.

Daí pergunto, você vai tomar alguma providência em relação à essas Bolsas, ou sua preocupação será só com as famílias que recebem entre R$200,00/300,00 por mês, para manterem os filhos na escola e vacinados?

Saiba, Rodriguinho, que a Bolsa Família salvou muitas vidas. Segundo artigo publicado na revista inglesa, The Lancet, entre 2004 e 2009, o impacto na redução da mortalidade infantil, em municípios com alta cobertura do programa, foi de 19,4%. Em doutorado defendido na Universidade de Sussex, também no Reino Unido (como percebi que você gosta de reverenciar o conhecimento produzido no exterior, preferi manter apenas estudos realizados lá fora do Brasil), houve uma redução de 76% na diferença de aprendizado entre estudantes beneficiários do programa e aqueles que não o recebem. Isso porque a Bolsa Família favorece o ingresso das crianças na “Idade Certa” escolar, bem como a manutenção destes na escola. É isso que liberta, Rodriguinho, a educação, a cultura, o respeito às famílias, o empoderamento da mulher, que passa a administrar uma renda familiar, sem dependência do marido. O que escraviza é não oferecer meios para a manutenção das crianças na escola, é o aviltamento do trabalho. É verdade, pelos interiores do Brasil (e também nas cidades grandes) há muitas histórias de mães que decidiram não mais trabalhar em “casas de família”, afinal de contas, com o advento da Bolsa Família, elas passaram a ganhar o mesmo valor que antes recebiam nessas casas, R$ 200,00/300,00 por mês (isso sim é trabalho de escravo!), só que agora para cuidar dos próprios filhos, mantendo uma horta, um galinheiro no quintal.

Entendeu a diferença, Rodriguinho?

As Bolsas que você e sua turma recebem, herdeiros desde o tempo das Capitanias Hereditárias, essas sim, escravizam, elas os tornam escravos do Sistema. A Bolsa para os pobres, diferente das que você recebe, até por terem valor muito menor, tem o poder de libertar gerações, são Bolsas que apontam para o futuro, fruto da generosidade civilizatória e não da barbárie e do egoísmo. Enquanto as Bolsas para as quais você se cala são as Bolsas da ganância, a Bolsa Família é a bolsa da compaixão e do respeito. Mas não o culpo desta insensibilidade com tais sutilezas, afinal, seu papai pode não ter lhe ensinado sobre generosidade e compaixão; nem seu sogro, avô de seus netos, um tal de Moreira Franco, dono de muitas bolsas e bolsos cheios. Mas há um ensinamento que, creio, seja universal para todas as crianças: não seja covarde, não bata nos menores que você! Você já é um menino crescido, Rodriguinho, seja homem, ao menos enfrente os do “seu tamanho”. Nem peço que seja corajoso e destemido para enfrentar os maiores que você, como banqueiros, grandes empresários e financistas, esses sim, recebedores da maior Bolsa de dinheiro público do mundo. Apenas enfrente aqueles de seu tamanho. No cargo que você ocupa, quem sabe, pode reduzir as despesas do Congresso Nacional, um dos mais caros do mundo, parece-me que o sexto mais caro do mundo, na relação PIB/habitantes.

Mas, caso você prefira a covardia, batendo nos mais fracos, caberá ao povo, nestas eleições de 2018, mandar você, e todos os seus “amiguinhos”, que adoram crescer contra os menores, para casa. Quem sabe assim, você “volte à sociedade e possa, com suas próprias pernas, conseguir um emprego”, provavelmente seu primeiro emprego. É isso, Rodriguinho, um dia talvez você cresça, mas pelo jeito isto não ocorrerá, pois sua escolha já foi feita por seu pai, e assim seguirá escravo do Sistema que escraviza. Mas saiba que, um dia, os mais fracos, os menores, que são muitos, um dia se levantarão e dirão que não querem ser “mais escravos de ninguém”. E quando este dia chegar, será “pra por pra trabalhar, gente que nunca trabalhou!”.

*Célio Turino é historiador e escritor