Cinegnose

por Wilson Ferreira

20 de abril de 2019, 18h19

Cem dias de guerra semiótica de Bolsonaro e a alternativa transmídia

Marca simbólica, como se fosse uma espécie de lua de mel de um governo recém-empossado com os eleitores, os 100 primeiros dias do Governo Bolsonaro mostraram que o período foi tudo, menos uma lua de mel

No filme Batman: O Cavaleiro das Trevas o Coringa enfrenta um interrogatório na delegacia. Ele tem um ar de enfado e deboche e responde com evasivas para o comissário, que acaba tirando as algemas do Coringa. “Ah!… a velha rotina do policial bom e do policial mau…”, ironiza o sombrio palhaço do crime, como se antecipasse cada passo do jogo do interrogatório.

Nos filmes hollywoodianos essa é o mais manjado clichê dos filmes policiais: a dupla “bad cop”/“good cop”, com algumas variações como, por exemplo, a dupla policial engraçado/sério. Assim como Dom Quixote e Sancho Pança.

É simplesmente incrível que poucos ainda tenham compreendido que nesses 100 dias de governo Bolsonaro, a tática semiótica de “modo campanha” emula essa narrativa hollywoodiana, centrada na dupla Bolsonaro/General Mourão – enquanto o presidente pira, o vice-general baixa a bola e, de repente, vira o centro da racionalidade de um governo supostamente formado por malucos no qual todos parecem bater cabeças uns nos outros.

Demonstrando um desesperado wishful thinking (como se procurasse qualquer vesga de luz nas trevas), alguns acreditam que o “antídoto contra o Bolsonarismo” é deixar o próprio falar para tropeçar na própria paranoia e delírio.

Outros veem tanta inexperiência ou inapetência na articulação política que acham que este governo ruirá sozinho por não conseguir entregar ao “mercado” (para ser mais preciso, a banca financeira) aquilo que prometeu. Alguns até ficam alegres ao verem a queda da Bolsa e disparada do dólar a cada derrota de Bolsonaro no Congresso, ensaiando um “quanto pior melhor”.

Sem tesão para defender a Reforma da Previdência

Um dos que melhor está compreendendo esse “modo campanha” do atual governo é o professor da filosofia da Unicamp, Marcos Nobre, que em seu artigo na revista “Piauí”, na edição de abril, sintetizou tudo no título: “O Caos como Método”.

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O “modo campanha” desses 100 primeiros dias demonstrou que o cerne da guerra semiótica desse governo é produzir abordagens indiretas, dissonâncias e estratégias criptográficas. Bolsonaro vive do caos das instituições.

Como vem demonstrando seu pouco “tesão” para defender no Congresso a reforma da Previdência de Paulo Guedes. Bolsonaro não quer fazer política de governo e nem articulações no Congresso: como demonstram seus tuites, é só Exército e Judiciário. Meganhagem, Lava Jato, shows televisivos com policiais federais nas ruas e, agora, a canalização da crise no STF: ruir a credibilidade dos supostos “guardiões da Constituição”.

Em outras palavras: Bolsonaro quer cercar o Congresso não com tanques de guerra, como fez a antiga ditadura militar. Mas corroer até o osso a política, ou a “velha política” como repete o capitão da reserva, jogando a opinião pública contra o inimigo: o Congresso, formado por petralhas, corruptos e os seus inexperientes políticos do PSL – aqueles que aproveitaram o “vendaval Bolsonaro”, foram eleitos e caíram de paraquedas nas casas do Congresso sem entender minimamente as medidas corriqueiras e liturgias que dão suporte parlamentar.

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Como ficou demonstrado no comportamento dos políticos do PSL no depoimento do ministro Paulo Guedes na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados.

O “modo campanha” desses 100 primeiros dias, com o luxuoso apoio indireto da grande mídia, apresentou o seguinte modus operandi:

(a) O jogo “policial mau e policial bom” 

A estratégia semiótica concentrou-se na dupla Bolsonaro/General Mourão como central de informações e contra-informações, ao melhor estilo “good cop/bad cop”, como aponta o especialista em táticas militares, Piero Leiner, professor da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) – o uso intensivo de contradições, dissonâncias, vai e volta. Ministros alucinam, Bolsonaro tuita ou faz declarações sem medir consequências, enquanto repórteres correm para ouvir a “racionalidade” de Mourão. Como aponta Leiner, “o que importa é o clima constante de ameaça e contradição”.

Muitos veem em tudo isso trincas ou fendas que se abrem num governo que supostamente não chegará até o fim do mandato. Porém, sinto dizer, é a marca de uma eficiente estratégia de combate semiótico: a “concessão” dos militares à trupe de malucos evangélicos, olavistas e a figura quixotesca da Bolsonaro seguem uma lógica análoga a da guerra – criação de um cenário fragmentado, criptografado, para tirar da cena os militares como reais agentes.

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(b) A culpa é do PT 

A guerra semiótica desses 100 dias baseia-se também na percepção da opinião pública de que quem quebrou o País foi o PT, como aponta pesquisa XP/Ipesp (clique aqui). Como o atual governo vive da crise (necessita visceralmente encontrar culpados, bodes expiatórios e inimigos), talvez explique o tal pouco tesão em articular no Congresso a Reforma da Previdência.

Pouco importa se a reforma vai passar ou não, ou se a crise econômica vai se aprofundar: enquanto os analistas da grande mídia batem na tecla dos “políticos irresponsáveis” e o mercado alucina com quedas e disparadas, criam-se mais ventos para o moinho da aversão à política.

Fica clara a tática cognitiva de levar pela mão a opinião pública a um raciocínio silogístico bem simples: o problema do Brasil são os corruptos e os políticos; STF quer enquadrar a Lava Jato e o Congresso não aprova a “tábua da salvação” da Reforma da Previdência; logo, pau no STF e no Congresso… Isso é melhor que tanques de guerra ou um cabo junto com um soldado.

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