22 de junho de 2018, 19h04

Cem dias de resistência, para que nunca mais aconteça

Viúva de Marielle Franco afirma: “Nossa dor não nos paralisou, pelo contrário, ela nos faz todos os dias ter energia para seguir gritando que não nos calarão”

(Foto: Arquivo Pessoal)

Esta sexta-feira (22) marca 100 dias dos assassinatos bárbaros da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e do motorista Anderson Gomes. Apesar de as evidências apontarem para um crime político, com envolvimento de milícias do Rio de Janeiro, segundo as investigações da Delegacia de Homicídios da Polícia Civil, não há conclusão sobre o desfecho do caso. A sociedade brasileira quer saber quem são os assassinos, os mandantes e a motivação. Monica Benicio, arquiteta, militante pelos direitos humanos e companheira de Marielle por 14 anos, particularmente, tem motivos de sobra para cobrar respostas. Ela escreveu um artigo especialmente para a Fórum, no qual enfatiza a necessidade de se construir uma nova sociedade.

Cem dias de resistência, para que nunca mais aconteça

O Brasil e o mundo falam diariamente sobre a execução bárbara de Marielle Franco e Andersos Gomes. Nas redes sociais, nos diferentes veículos de comunicação, nas ruas, nas rodas de conversa, nas empresas, nas escolas. Em todos os lugares o tema está sendo debatido. Tanto pelo viés dos desdobramentos que isso vem gerando, as mobilizações, o chamado “legado Marielle”, quanto pela busca de respostas, de explicações para este crime brutal.

Desde o primeiro momento afirmamos: nenhum dia de sossego! Não deixaremos que se esqueça, para que nunca mais aconteça! E é o que estamos fazendo ao longo destes cem dias. Nossa dor não nos paralisou, pelo contrário, ela nos faz todos os dias ter energia para seguir gritando que não nos calarão. E, assim, temos recorrido a todos os canais possíveis para pressionarmos por uma resposta. Não qualquer resposta. Porque queremos identificar os/as autores deste crime, queremos saber as motivações, queremos justiça. Mas, para além disso, queremos que o Estado brasileiro assuma sua responsabilidade diante disso.

O assassinato de Marielle e Anderson configura crime político, que, por definição, é aquele que causa ameaça à ordem institucional ou ao sistema vigente. Executar uma vereadora democraticamente eleita, uma mulher negra, feminista, lésbica, que representava os anseios de mudança de grande parcela da população carioca, que era sinônimo de luta e resistência, que era reconhecidamente uma referência de figura pública no Rio de Janeiro, é um atentado grave à ordem estabelecida. O Estado brasileiro não pode ser conivente com isso.

E, por isso, estivemos nestes cem dias, falando em diferentes Câmaras e Assembleias Legislativas, em atos em defesa da democracia, com a militância nas ruas. Recorremos à Organização dos Estados Americanos – OEA e a instituições como a Anistia Internacional. Todos estes espaços, frentes e organizações representam para nós uma forma de reafirmar que não iremos esquecer. Que fazemos isso por eles, pela memória, trajetória e história deles, mas também porque, assim como Marielle defendia, nós também acreditamos que todas as vidas importam. Não queremos mais viver em uma sociedade que beira à barbárie. Sonhamos e construímos cotidianamente um outro modelo de vida e de sociedade. E, nele, não há espaço para que outras pessoas sofram e passem pela dor que a minha família, família de Marielle e de Anderson, estão passando.

Nossa força e nosso tamanho, ao contrário do que esperavam, só vêm crescendo. Todos os dias ganhamos novas vozes, ampliamos o alcance delas. E assim será até alcançarmos uma resposta, até comprometermos o Estado brasileiro na defesa e na garantia dos Direitos Humanos. Diante de um legado enorme deixado por Marielle, de luta, de outra forma de fazer política, de criação de redes de solidariedade, de afeto, também temos a força para a construção de uma nova sociedade. Somos resistência!