#FÓRUMCAST
15 de Abril de 2018, 14h30

Cinco erros de análise de uma parcela da esquerda radical

A parcela da esquerda radical que tergiversa sobre a criminalização de Lula pela operação Lava Jato, defendendo o “Fora Todos” e agora o “Prisão para todos” cede à pressão da popularidade da Lava Jato.

Algumas correntes da esquerda radical brasileira não compreendem que a prisão de Lula significa que qualquer um na esquerda brasileira, a partir de agora, tem boas razões para ficar preocupado com o seu destino. Essas correntes vêm cometendo, nos últimos três anos, cinco erros de análise. As posições políticas obedecem, para marxistas, a pressões de classe.

Primeiro, nem no Brasil, nem em país algum do mundo, a burguesia tem um “comitê central” para expressar sempre de maneira uníssona ou monolítica a defesa dos seus interesses. Por isso, quando acontece uma divisão na classe dominante, uma parcela da esquerda fica perplexa, procurando qual é a fração mais reacionária, e aquela que poderia cumprir um papel progressivo. Acontece que nenhuma delas é progressiva. É ingênuo julgar uma posição política pelos seus argumentos ou popularidade. Posições políticas devem ser julgadas pelos interesses que defendem, e pelas suas consequências.

É verdade que um dos muitos arcaísmos da dominação burguesa no Brasil tem sido a relação corrupta dos partidos da classe dominante com as grandes corporações. E é verdade, também, que há uma fração de classe burguesa que quer impedir a Lava Jato, enquanto outra apoia a operação. De um lado aqueles que se expressam no STF através de Fachin e, na sociedade, pela Globo, querem deslocar o sistema partidário que esteve de pé nos últimos trinta anos.  E aqueles que se expressam através de Temer no governo, e Gilmar Mendes no STF, querem deter a Lava Jato nos limites da criminalização do PT.

A parcela da esquerda radical que tergiversa sobre a criminalização de Lula pela operação Lava Jato, defendendo o “Fora Todos” e agora o “Prisão para todos” cede à pressão da popularidade da Lava Jato. Como se estivesse em disputa uma renovação das tradições arcaicas do sistema político, e não uma perseguição política para impedir a  candidatura de Lula. E até mesmo prevenir que ele possa fazer campanha por outro candidato do PT.

Silenciam sobre os métodos de Moro, como a gravação do telefonema de Dilma para Lula em 2016. Desconhecem a parcialidade de decisões do STF, como a desautorização da nomeação de Lula como ministro da Casa Civil, quando Temer não teve qualquer embaraço em nomear Moreira Franco. Calam-se diante da condenação sem provas no episódio do apartamento do Guarujá.

Segundo, desconsideram o significado reacionário das mobilizações que reuniram muitas centenas de milhares, em 2015/16, mas lideradas por uma fração da burguesia, iludidos pela forma “democrática” da bandeira contra a corrupção. Foi um grave erro desprezar a fúria de classe e o ódio social que foram o combustível da explosão da classe média.

Terceiro, não compreendem que o impeachment de Dilma foi uma aberração jurídico-política, uma violação da ordem legal do próprio regime, um golpe encoberto pelo domínio de uma maioria parlamentar, com o pretexto das pedaladas fiscais que violariam a lei de responsabilidade fiscal. Não é verdade que esta manobra jurídico-parlamentar, tal como já tinha acontecido no Paraguai, não subverteu a ordem constitucional, e que isso só foi possível por uma inversão desfavorável da relação social de forças entre as classes.

Quarto, diminuem as sequelas provocadas pelo governo Temer, como se este governo fosse “mais do mesmo”, ou até mesmo uma continuidade do governo Dilma Rousseff. Assistimos desde a posse de Temer, em ritmo frenético, a uma contrarreforma constitucional que passou pela PEC do teto dos gastos, pela Lei das Terceirizações, pela Reforma Trabalhista, entre outras.

Quinto, não vêem o perigo que o neofascista Bolsonaro representa como expressão de uma corrente com influência de massas, ainda que minoritária, mas com influência nos órgãos do aparelho repressivo do Estado. Quantas Marielles terão que morrer, para que compreendamos o que significam as ramificações das milícias com o movimento que germina na sociedade, defende abertamente a herança da ditadura militar, e já agrupa milhares de membros ativos em todo o país, das capitais às médias e até pequenas cidades, como ficou claro nos ataques à caravana Lula pelo sul?