A vítima perfeita

Que mundo horrível pra ser mulher. Especialmente quando você não é a vítima perfeita.

Esta semana eu fui violada por um motorista de Uber.

E foi resolver denunciar nas redes para descobrir que a pior parte de fazer um relato de violência, além dos óbvios de sempre que duvidam das vítimas, é que o assunto se torna sua vida e sua vida se torna o assunto. Foi escolha minha expor e foi a melhor possível, já que trouxe à tona um problema muito maior do que o meu caso e mostrou que não era um fato isolado. Conseguimos, em esforço coletivo, tirar o foco do que me aconteceu e entrar em modo ativista ao lado de companheiras fantásticas criando a hashtag #MeuMotoristaAbusador, que recolheu milhares de relatos muito rapidamente.

Só que aí você tenta seguir sua vida, ouvir seus discos, prestar atenção no que suas amigas estão fazendo pra não ficar na espiral do assunto e não consegue, porque o problema é tão grande que dominou sua vida, suas redes, tudo. Meu ponto de não querer registrar ocorrência na polícia foi provado da pior maneira. No dia seguinte ocorreu outro caso horrível: um homem ejaculou em uma mulher no ônibus, diante de dezenas de testemunhas, e mesmo com boletim de ocorrência registrado, com cinco outros BOs anteriores, o juiz disse que “não houve constrangimento e tampouco violência” e decidiu deixar o agressor solto.

Aí fica difícil mesmo de mudar o foco.

Repito: que mundo horrível pra ser mulher. Especialmente quando você não é a vítima perfeita.

Imagina, eu saí de casa e fui ao cinema dois dias depois de fazer uma denúncia dessas nas redes sociais! E ainda tirei foto e postei! Eu deveria estar em posição fetal revivendo o momento e sucumbindo aos haters de internet, não é? Deveria estar contemplando meu olho roxo e sentindo pena de mim mesma. Deveria, deveria, deveria, decidem os outros por mim.

Não. Não eu. Entendo perfeitamente quem fica desgraçada ao viver uma violência. Cada uma reage de uma forma. Mas essa já não é a primeira vez e eu, infelizmente, estou acostumada a ataques, sou uma mulher que escreve, e, pior, escreve abertamente sobre feminismo na internet, além de não esconder que não tenho medo da minha sexualidade, do meu corpo e de viver como acredito. Definitivamente: não sou a vítima perfeita.

E como seria uma vítima perfeita?

A mulher ilibada, que não bebe, que vive numa bolha de castidade e age de acordo com o que os conservadores acham que deve: bela, recatada e do lar, não é? Essa, aos olhos dos machistas, é a única que merece solidariedade. A que não hesita em correr desavisadamente para a delegacia achando que o boletim de ocorrência será um papelzinho mágico que a protegerá e fará justiça. Que não imagina que, mesmo numa Delegacia da Mulher, está sujeita a um interrogatório como se a criminosa fosse ela. E às vezes nem ela escapa. Basta sair da conduta que os hipócritas consideram correta que você já está sujeita a julgamentos.

O que estava fazendo na rua àquela hora? Que roupa estava vestindo? Se estivesse voltando da igreja não teria acontecido nada. Até parece, viu. Nenhuma de nós está segura em lugar algum. A violência contra a mulher acontece no âmbito público, privado, em casa, no trabalho, no transporte e, infelizmente, dentro de casa.

O Brasil é o quinto país do mundo mais violento com as mulheres. Então por que meu caso teve tanta repercussão?

Porque eu sou uma mulher branca e com projeção. Se fosse uma mulher negra, tanto faz se embriagada ou sóbria, voltando pra casa, onde quer que fosse essa casa, além de culpabilizada duvidariam do meu relato, me ignorariam e invisibilizariam.

A imprensa internacional tem me procurado por causa do ocorrido no domingo e não posso deixar de tocar, além da questão da violência contra a mulher, no fato de que o Brasil é uma falsa democracia racial. As mulheres negras sofrem muito mais do que as brancas, sofrem racismo, sofrem com a hiperssexualização, sofrem com baixa autoestima, sofrem porque ganham menos e os números de violência contra negras são assustadores. Em 10 anos, o feminicídio contra mulheres negras aumentou 53%, enquanto caiu 10% contra brancas.

Muitas das mulheres, assim como eu, não confiam no sistema e preferem não fazer denúncias formais. O que temos que repensar é a estrutura machista da sociedade e do sistema, e não questionar e culpabilizar ainda mais as vítimas. Espero que os casos horríveis dos últimos dias sirvam para que algo mude. No discurso, no pensamento, nas nossas estruturas, posto que nada muda se não for debatido e repensado. Precisamos começar por algum lugar.

E este lugar é usando a nossa voz.


1 comment

  1. Um comentarista do WordPress Responder

    Olá, isso é um comentário.
    Para começar a moderar, editar e deletar comentários, visite a tela de Comentários no painel.
    Avatares de comentaristas vêm a partir do Gravatar.