02 de junho de 2010, 17h38

Colômbia para americano ver

A diferença entre as pesquisas e os resultados do primeiro turno das eleições na Colômbia, um “erro” de mais de 20 pontos percentuais, atestaria uma bem feita operação político-midiática do governo, de acordo com líderes da oposição como a senadora Piedad Córdoba

A diferença entre as pesquisas e os resultados do primeiro turno das eleições na Colômbia, um “erro” de mais de 20 pontos percentuais, atestaria uma bem feita operação político-midiática do governo, de acordo com líderes da oposição como a senadora Piedad Córdoba

Por Vinicius Souza 

Para a oposição colombiana, a diferença entre as pesquisas e os resultados do primeiro turno das eleições na Colômbia, um “erro” de mais de 20 pontos percentuais, atesta uma bem feita operação político-midiática do governo. O objetivo seria dar ao pleito uma “aparência de democracia”. “As pesquisas inflaram artificialmente as intenções de voto em Antanas Mockus, do Partido Verde, como forma de legitimar um simulacro de eleições livres”, afirma a ex-candidata ao Senado pelo Pólo Democrático Alternativo, Lilia Solano. “O que se viu na verdade em todo o país, e isso é confirmado pela Missão de Observação Eleitoral – MOE, foi o controle da mídia, a compra de votos e intimidações de eleitores por parte de militares, paramilitares, políticos e narcotraficantes”.

A senadora Piedad Córdoba, um dos principais líderes da oposição, concorda com a tese e sustenta que além de ter criado a candidatura Mockus, o Palacio de Nariño, sede do governo colombiano, seria ainda o responsável direto pelo seu crescimento “fictício e midiádico”. Segundo a última pesquisa divulgada pelo instituto Ipson Napoleón Franco, o candidato da situação, o ex-ministro da Defesa Juan Manuel Santos, teria 34% dos votos no primeiro turno contra 32% de Mockus. Mas as urnas trouxeram os números de 46.56% para a candidatura situacionista contra 21,5% para o candidato do PV. Outro fato pouco divulgado é a abstenção de 50,08% entre os 29,9 milhões de colombianos aptos a votar.

Córdoba reforça as acusações da MOE de centenas de casos de uso da máquina pública e insinua uma possível fraude eleitoral geral. De acordo com ela, depois de mais de três meses das eleições parlamentares, de 14 de março, ainda não se conhecem seus números finais. Mas no próprio domingo de primeiro turno do pleito para a presidência, 30 de maio, os totais de votação foram anunciados de forma quase simultânea ao fechamento das urnas. “Esse é um fato inexplicável”, informou a senadora por seu Twitter. “Como se pode contar manualmente uma votação dessa magnitude em tão poucos minutos?”.

Na Colômbia, a ligação entre o poder e a mídia hegemônica é ainda maior do que no Brasil. Tanto o candidato oficial como seu primo, o vice-presidente da República, Francisco Santos Calderón, fazem parte da família que divide a propriedade do jornal El Tiempo, que por vários anos foi o único diário a atingir todo o país, com um grupo de mídia transnacional Planeta, da Espanha. “Houve uma longa campanha de desestabilização do concorrente, El Espectador, que virou semanal em 2001 e só recentemente voltou a ter uma distribuição nacional, ainda que precária”, explica Lilia Solano. “Além disso, o grupo disputa no momento uma licitação para obter a licença para um canal de televisão, que seria o terceiro em nível nacional para disputar a audiência com as redes Caracol e RCN”. Outro político importante da família Santos foi Eduardo Santos Montejo, presidente da Colômbia entre 1938 e 1942.

Agora que já teria passado a necessidade de se simular uma eleição democrática, Lilia acredita que o candidato do presidente Álvaro Uribe, Juan Manuel Santos, mostrará seu verdadeiro “potencial eleitoral”. “A única diferença entre as candidaturas é que Santos representa a política atual de associação direta com o narcotráfico, extermínio físico da oposição, apoio às bases estadunidenses e o assassinato em massa de jovens civis como se fossem guerrilheiros para pagamento de bonificações em dinheiro para os militares; enquanto Mockus tem um discurso pela valorização da vida, pela educação e pelo fim da corrupção”, diz. “Mas quando tentamos uma aproximação com o PV antes do primeiro turno, o candidato disse publicamente que não queria se associar a partidos ‘ligados ao terrorismo e às guerrilhas’”.

Se somarmos a votação de Santos somente às porcentagens de votos nos principais candidatos identificados com a direita (Germán Vargas Lleras do Partido Cambio Radical com 10,14% e Noemí Sanín do Partido Conservador com 6,15%) e metade dos votos de centro (Rafael Pardo do Partido Liberal com 4,39%), ele teria garantido no segundo turno algo como 65%. Muito diferente, portanto, dos números da pesquisa eleitoral da empresa Datexco, divulgadas há 10 dias pelo jornal El Tiempo, em que Mockus venceria Santos com 45% a 44% dos votos.

Foto por Maria Eugênia Sá.