02 de dezembro de 2018, 09h24

Com Bolsonaro, aristocracia da “República de Curitiba” chega ao Planalto

Com Sérgio Moro no superministério da Justiça e Velez Rodriguez na Educação, o movimento conservador que nasceu no Paraná e acovardou o Judiciário e o Congresso - como o ex-presidente Lula alardeou - chega ao poder pelas mãos do capitão da reserva.

Com o sugestivo título “Um novo rumo no mundo” e convidados como o guru intelectual do clã Bolsonaro, Olavo de Carvalho, e o “príncipe” Luiz Philippe de Orleans e Bragança, Paraná, mais precisamente a cidade de Foz do Iguaçu, será sede, no próximo sábado (8), da Cúpula Conservadora das Américas.

Como o próprio nome diz, o evento organizado pelo deputado eleito Eduardo Bolsonaro (PSL/SP) reunirá representantes da “intelligentsia” da extrema-direita das Américas no Estado onde nasceu a chamada “República de Curitiba”, alcunha pela qual passou a ser chamada a capital paranaense após a concentração de processos da Operação Lava Jato, julgados em primeira instância por Sérgio Moro, futuro superministro da Justiça do governo Jair Bolsonaro (PSL).

O termo, utilizado pejorativamente pelo ex-presidente Lula – e vazado para a imprensa – para definir o acovardamento do Judiciário e do Congresso diante dos abusos da operação, foi apropriado pelos apoiadores do movimento, que chega ao planalto central pelas mãos do capitão da reserva, que assume a Presidência a partir de janeiro.

A trupe de Moro vai a Brasília
Alçado à condição de superministro da Justiça após desenvolver diversas peripécias jurídicas para prender – e manter preso – o líder isolado nas pesquisas das eleições presidenciais e divulgar áudios, sem provas, do ex-ministro Antonio Palocci a seis dias do primeiro turno da disputa, Sérgio Moro está levando boa parte da república a qual presidia para a capital federal.

Superintendente da Polícia Federal do Paraná, Maurício Valeixo foi escalado para comandar a direção nacional da PF, auxiliada pela futura chefe do DRCI (Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional), a delegada Érika Marena.

Erika foi responsável pela conturbada ação que prendeu o reitor Luis Carlos Cancellier, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Exposto à execração pública pela mídia, o reitor não resistiu e se matou, atirando-se do alto do principal shopping da capital catarinense, em outubro do ano passado.

Atual braço direito de Valeixo, o delegado Roberval Ré Vicalvi dificilmente deixará de ocupar uma posição na nova diretoria da PF, na capital federal. Outro que deve ser incorporado a partir do ano que vem na Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado (Dicor) é o delegado Igor Romário de Paula, coordenador das operações policiais da Lava Jato em Curitiba desde seu início, em 2014. O chefe da perícia, Fábio Salvador, que também atuou ativamente na Lava Jato em Curitiba, é o mais cotado para assumir a Diretoria Técnico-Científica (Ditec).

Moro também levou para a equipe de transição o amigo, Rosalvo Franco Ferreira, ex-superintendente regional da Polícia Federal no Paraná, Flávia Blanco, que será sua chefe de gabinete no ministério, e Marcos Koren, ex-chefe de comunicação da superintendência da PF no Paraná.

“Eu sempre afirmei que seria um tolo se não aproveitasse pessoas que tralharam comigo, especialmente no âmbito da Operação Lava Jato, porque essas pessoas já provaram tanto sua integridade quanto sua eficiência”, disse Moro no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), onde comanda a transição ao lado de Bolsonaro.

Aristocracia na Educação
Alardeado como indicação de Olavo de Carvalho, o futuro ministro da Educação tem relações muito próximas com a aristocracia paranaense, em especial na área que vai comandar no governo Bolsonaro.

Integrante de um grupo pequeno de filósofos conservadores desde que chegou ao Brasil em 1970, o colombiano Ricardo Vélez Rodríguez tem uma vida acadêmica intensa, que foi mantida em reduto militar até ser anunciado como chefe da pasta de Educação de Bolsonaro – agradando, sobretudo a bancada evangélica.

Em obras publicadas no Centro de Pesquisas Estratégicas Paulino Soares de Sousa, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que agrega estudos sobre a História Militar do Brasil, ele utiliza rompantes dos períodos da ditadura para ao fim usar dados parciais e termos chulos – baseados na grande mídia – para se referir aos tempos em que Lula e o PT estiveram no poder.

Assim como o amigo Olavo, Velez Rodriguez coleciona fãs. Entre eles está Oriovisto Guimarães, futuro senador pelo Podemos do Paraná e empresário do ramo de educação e fundador do Grupo Positivo que tem, entre seus negócios, a Faculdade Positivo, onde o futuro ministro é professor no campus de Londrina.

Segundo o jornalista Fabio Campanha, Rodriguez é considerado como um guru de Oriovisto, citando como fonte o reitor da Universidade Positivo, José Pio Martins, que, entre diversas funções, é integrante do Instituto Millenium, que agrega nomes da nata neoliberal do País, como o futuro superministro da Economia, Paulo Guedes.

“O reitor da Universidade Positivo, José Pio Martins, diz que as ideias de Velez são muito respeitadas, inclusive pelo novo senador Oriovisto Guimarães, proprietário e ex-presidente do empreendimento Positivo”, disse o jornalista em seu blog.

A educação como negócio
Principal beneficiado do escândalo de corrupção que abateu o tucano Beto Richa (PSDB) na disputa ao Senado no Paraná, Oriovisto construiu um império na área de educação a partir de um cursinho pré-vestibular fundado em 1972 e se elegeu senador em outubro pela sigla capitaneada pelo também paranaense, senador Álvaro Dias – que durante a disputa presidencial se apresentava como “o candidato da Lava Jato”.

Com patrimônio declarado de mais de R$ 239 milhões – um dos maiores entre os eleitos em 2018 -, Oriovisto é o maior devedor como pessoa física da União, com dívida pessoal de R$ 5,5 bilhões, segundo levantamento feito pelo jornal O Estado de S.Paulo.

Pelo blog de Fábio Campana, Oriovisto rebateu a reportagem d’O Estado de S.Paulo, informando “que a dívida é decorrente de atividades exclusivamente vinculadas às operações das sociedades empresárias do Grupo Positivo do qual ele fez parte até 2012”.

“Ex-esquerdista”, como Velez Rodriguez, Oriovisto fez parte da Polop (Política Operária) e chegou a ser preso no famoso congresso de Ibiúna (SP), em 1968. Quatro anos depois da prisão, fundou o cursinho e nas 4 décadas em que esteve no comando diversificou as frentes de atuação, levando o grupo a ultrapassar a receita de R$ 1 bilhão em 2017 e entrar no rol das 500 maiores empresas do país.

Do cursinho nasceu uma rede de escolas de ensino fundamental, outra de ensino médio, a criação e o licenciamento de um sistema de ensino, uma gráfica, uma editora de livros didáticos e, por fim, a maior fabricante brasileira de computadores.

Entre a diversidade de atuação na esfera educacional, o grupo mirou sob o comando de Oriovisto a estrutura estatal e as licitações. No ano em que deixou a presidência do grupo para abrir frentes no mercado financeiro, as vendas de materiais didáticos e computadores para os governos representava 30% do faturamento do grupo.

Alinhado aos projetos de Bolsonaro, de privilegiar a educação à distância, a Universidade Positivo agora se prepara para tornar até 2022 todo seu ensino “híbrido” – ou semipresencial -, aguardando apenas a regulamentação do Ministério da Educação, que hoje considera apenas as modalidades presencial e à distância.

O pró-reitor acadêmico da Universidade Positivo – e diretor da Associação Brasileira de Educação à Distância (Abed) -, Carlos Longo, prevê que a partir de 2019 – quando o professor Velez Rodriguez assumirá o comando do Ministério da Educação de Bolsonaro – a oferta de cursos “semipresenciais” deve crescer de forma exponencial.

Nota de esclarecimento

Referente às citações do senador eleito, Oriovisto Guimarães (Podemos /PR), na matéria “Com Bolsonaro, aristocracia da ‘República de Curitiba´ chega ao Planalto”, publicada no site: www.revistaforum.com.br, no dia 02/12/18, o senador Oriovisto esclarece, por meio de sua assessoria de imprensa, que, como demonstra certidão positiva, nada deve à Receita Federal”. O senador Oriovisto esclarece ainda que nunca foi filiado à Polop e desconhece o pensamento do futuro ministro da Educação.