06 de agosto de 2018, 22h11

Como engordar um porco para depois servi-lo no jantar

Em novo artigo, Raphael Fagundes explica como a mídia "apoia" Bolsonaro e faz o povo acreditar que não. "Trata-se se de um jogo muito bem estruturado onde a mídia parece combatê-lo quando, na verdade, promove a sua imagem para, então, manipulá-la em seu próprio favor"

Reprodução/GloboNews

As sabatinas realizadas pelos principais canais de televisão do país serviram, até agora, para mostrar o quanto a mídia e os empresários querem Bolsonaro no segundo turno, o candidato mais fácil de ser derrotado. Os jornalistas selecionam perguntas cujas respostas fortalecem a imagem do político perante o seu séquito, seus aduladores. Mas por quê?

As corporações industriais querem que o eleitorado de Bolsonaro não se amplie, resumindo-se apenas aos “convictos”, mantendo, desta maneira, os indecisos até o segundo turno. Lá, esses indecisos escolheriam o político que se opusesse a Bolsonaro, já que o deputado tem um grande índice de rejeição e se prende a um discursinho truculento que não vai muito além do seu grupo de eleitores já cristalizado.

A mídia e os grandes investidores acreditam que a partir da propaganda eleitoral gratuita, Alckmin conseguirá ampliar seu eleitorado, cativar esses indecisos. É a crença no bom e velho poder da imagem e da cena. Somente assim, o tucano chegaria ao segundo turno, onde venceria Bolsonaro, principalmente por causa de uma aliança com o MDB.

O mais curioso é que se trata de um golpe, ou melhor, do desdobramento do que aconteceu em 2016, para, a todo custo, manter os tucanos golpistas no poder. A democracia acaba por se transformar, de fato, em uma espécie de manipulação da opinião pública, uma forma bastante realista da utopia roussauneana.

Não me surpreenderia se as sabatinas futuras mantiverem esse mesmo ritmo, com perguntas pegadinhas e polêmicas que reforçam a imagem de Bolsonaro perante o seu eleitorado. Trata-se se de um jogo muito bem estruturado onde a mídia parece combatê-lo quando, na verdade, promove a sua imagem (apenas em seu meio, diga-se de passagem) para, então, manipulá-la em seu próprio favor. É como engordar um porco para no fim servi-lo suculento no jantar.

De qualquer forma, o fato que pode vir a surpreender será a decisão de Lula em apoiar algum candidato. Sem dúvida, essa questão irá definir tudo, pois tal chapa chegaria facilmente ao segundo turno. As corporações estão apreensivas quanto a isso, e não titubearão em fechar um acordo com o candidato petista nos bastidores.

Seja como for, essas eleições acabaram por se tornar as mais interessantes dos últimos tempos. Temos até um candidato do MDB.

A questão ideológica

Bolsonaro busca sempre enfatizar a questão ideológica em suas entrevistas. Provavelmente porque percebeu que seu eleitorado fiel adora esse tipo de assunto. Acusa a esquerda de ser ideológica demais. Contudo, a sua campanha é a mais ideológica de todas, pois se apoia em um mote carregado de valores moralistas.

A nossa esquerda (PT, PCdoB e PDT) é muito menos ideológica que a “direita vulgar”, setor da política representado por Bolsonaro e pelo MBL. Entendendo ideologia como um mecanismo capaz de esconder os elementos chave da luta de classe, podemos dizer que essa direita vulgar é que funciona como um aparelho ideológico do Estado, investindo intensamente nesses temas que, por sua vez, escondem, ou justificam de forma turva, as relações de produção que se precarizam de forma cada vez mais acelerada.

A direita tradicional incentiva essa discussão ao fazer perguntas sobre a ditadura militar, homofobia etc. ao candidato do PSL à presidência da República. O deputado sempre se esquiva das perguntas sobre economia, respondendo-as imperiosamente por meio da questão ideológica. Os jornalistas, por seu turno, sabem disso, mas acreditam que estão demonstrando o despreparo do deputado que visa assumir o cargo mais importante da nação.

É uma jogada perfeita, pois o afasta dos eleitores que esperam algo mais definitivo sobre a economia e o aproxima ainda mais dos seus seguidores.

Deste modo, o candidato fica cada vez mais preso a seu eleitorado, que se constituiu em número suficiente para levá-lo para o segundo turno, mas não para dá-lo a vitória. Enfim, o cenário está montado e dependerá em última instância de quem Lula decidirá apoiar, levando esses indecisos a se decidir.

A questão é: quem Lula irá apoiar em um possível segundo turno entre Alckmin e Bolsonaro?