ASSISTA
25 de Março de 2015, 11h26

“Congresso não pode passar por cima do cadáver de milhares de mulheres”, diz Jean Wyllys

Deputado responde às declarações do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), de que aborto só será discutido "por cima de seu cadáver". Ontem, psolista protocolou na Casa projeto de lei que legaliza e regulamenta a interrupção voluntária da gravidez

Deputado responde às declarações do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), de que aborto só será discutido “por cima de seu cadáver”. Ontem, psolista protocolou na Casa projeto de lei que legaliza e regulamenta a interrupção voluntária da gravidez

Por Redação

O deputado federal Jean Wyllys (Psol-RJ) mandou, na última terça-feira (24), um recado direto ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). “Hoje estou protocolando um projeto de lei que cria uma política pública de garantia dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres para que o o Congresso não continue passando por cima dos cadáveres de muitas delas, de milhares delas”, disse, em vídeo publicado no Facebook.

Wyllys se refere ao PL 882/2015, de sua autoria, que assegura às mulheres o respeito a seus direitos sexuais e reprodutivos, além de legalizar e regulamentar a interrupção voluntária da gravidez, determinando que possa ser realizada com segurança, pelo Sistema Único de Saúde, por qualquer motivo até a 12ª semana de gestação. Hoje, o procedimento só é permitido no Brasil em três casos específicos: gravidez decorrente de violência sexual, anencefalia do feto ou risco à vida da mulher.

No início do mandato como presidente da Câmara, Cunha causou a revolta do movimento feminista ao afirmar que a pauta do aborto só seria discutida na Casa “por cima de seu cadáver”. “No aborto sou radical, não vou pautar nem que a vaca tussa”, considerou à ocasião. 

Em entrevista ao portal O Dia, Wyllys comentou novamente as declarações do peemedebista. “Não vou passar por cima do cadáver do Eduardo Cunha porque ele não está morto, mas passarei sobre a arrogância dele. A lei é para que o Congresso não passe por cima do cadáver de milhares de mulheres que abortam clandestinamente em açougues e morrem todos os dias”, argumentou.

Como bem lembra o deputado do Psol em seu vídeo, o parlamentar evangélico ignora completamente as estatísticas. Segundo a pesquisa “Magnitude do abortamento induzido por faixa etária e grandes regiões”, produzida pelos professores Mario Giani Monteiro, do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), e Leila Adesse, da ONG Ações Afirmativas em Direitos e Saúde, somente em 2013, cerca de 850 mil abortamentos induzidos podem ter ocorrido no Brasil. Destes, conforme o Ministério da Saúde, apenas 1.523 são casos de abortos legais. Em outras palavras, a interrupção da gestação de forma clandestina e insegura acontece aos montes no país, colocando em risco a vida de milhares de mulheres.

“Sentimos a necessidade de apresentar um projeto que mudasse esta realidade e reconhecesse esse quadro como uma questão de saúde pública e não como uma questão moral”, explica Wyllys. “Precisamos tornar essa pauta uma política pública, independente de ser contra ou a favor da interrupção voluntária da gravidez indesejada. Não deve ser fácil para qualquer pessoa fazer um aborto, mas se ele é praticado na maioria dos casos por falta de política pública e de educação sexual; de acesso a métodos contraceptivos; e de serviços de interrupção segura.”

De acordo Wyllys, o projeto deve, agora, ser encaminhado para três comissões que o analisarão, ou então seguir para um grupo especial, criado especialmente para discuti-lo. Tudo dependerá da decisão de Cunha.

(Foto: Antônio Augusto/Câmara dos Deputados)

Leia também: Dor em Dobro – uma investigação sobre o serviço de aborto legal na rede pública de saúde