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03 de junho de 2015, 19h14

Conheça o fenômeno ‘Jout Jout Prazer’

Fórum conversou com Jout Jout, o mais novo fenômeno da internet; ela se tornou conhecida por postar vídeos engraçados em que aborda temas cotidianos, mas também acabou fazendo muita gente refletir sobre assuntos como masturbação feminina, homossexualidade, padrões estéticos e relacionamentos abusivos.

Fórum conversou com Jout Jout, o mais novo fenômeno da internet; ela se tornou conhecida por postar vídeos engraçados em que aborda temas cotidianos, mas também acabou fazendo muita gente refletir sobre assuntos como masturbação feminina, homossexualidade, padrões estéticos e relacionamentos abusivos Por Maíra Streit Ela é um fenômeno. Um ano depois de postar seu primeiro vídeo no YouTube, a carioca Julia Tolezano, de 24 anos, já acumula mais de 12 milhões de visualizações e 150 mil inscritos no canal Jout Jout Prazer. A página dela no Facebook conta com 88 mil fãs, que acompanham de perto todos os passos...

Fórum conversou com Jout Jout, o mais novo fenômeno da internet; ela se tornou conhecida por postar vídeos engraçados em que aborda temas cotidianos, mas também acabou fazendo muita gente refletir sobre assuntos como masturbação feminina, homossexualidade, padrões estéticos e relacionamentos abusivos

Por Maíra Streit

Ela é um fenômeno. Um ano depois de postar seu primeiro vídeo no YouTube, a carioca Julia Tolezano, de 24 anos, já acumula mais de 12 milhões de visualizações e 150 mil inscritos no canal Jout Jout Prazer. A página dela no Facebook conta com 88 mil fãs, que acompanham de perto todos os passos e opinam sobre temas a serem tratados nas próximas publicações.

E os temas são os mais variados possíveis. Aliás, o mérito de Jout Jout é a leveza e a forma com que aborda o cotidiano, de maneira espontânea e sem grandes produções. Ela ensina passos de dança, arranca risadas, fala palavrão e reflete sobre coisas aparentemente sem sentido, como a anatomia do próprio pé.

Mas se engana quem pensa que toda essa informalidade traz consigo conteúdos rasos. O vídeo Não tira o batom vermelho [assista abaixo], de maior sucesso até agora, chegou a quase 700 mil pessoas e provocou muita discussão ao alertar sobre os riscos de um relacionamento abusivo.

A ideia acabou gerando uma campanha contra a violência nas redes sociais, com a hashtag #nãotiraobatomvermelho. Foram muitas as mensagens de internautas que reconheceram estar em uma relação destrutiva e ganharam forças para lutar contra isso.

O público – em boa parte formado por adolescentes e jovens mulheres – ainda encontrou espaço para falar abertamente sobre masturbação, homossexualidade, menstruação, padrões de beleza, opressões causadas pelo machismo e outros temas ainda vistos como tabus pela sociedade.

Não à toa, Júlia, que é formada em Jornalismo pela PUC-Rio, foi uma das convidadas da ONU Mulheres para palestrar no evento TEDxParquedasNaçõesWomen, realizado em Brasília na última semana com o objetivo de promover a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres. Na ocasião, a youtuber conversou com a Fórum sobre essas questões e comentou o seu engajamento nas pautas feministas.

Confira:

Fórum – Você disse algumas vezes que não tem a pretensão de levantar bandeiras, mas é inegável o efeito que seus vídeos tiveram na vida de muitas mulheres, principalmente as mais jovens. Isso foi uma surpresa? O que mudou a partir daquele vídeo, o Não tira o batom vermelho?

Jout Jout – Primeiro, é maravilhoso receber esses e-mails que eu recebo das pessoas dizendo “obrigada”, agradecendo porque eu fiquei alguns minutos na frente de uma câmera falando algo que mudou muito para elas, sabe? E mudou também porque eu falava: “Não sou feminista, não sou nada, sou só a Jout Jout”. E, depois de muito estudar e de muitas pessoas falarem “Você é feminista sim, querida, pode parar com essa palhaçada”… Eu vi muitos vídeos, muitas coisas, vi tudo o que o feminismo prega e tudo o que eu prego. E falei: “Gente, é a mesma coisa!”. Não tem muito como sair disso.

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Fórum – Algumas pessoas se assustam com essa palavra, né? Criou-se um estereótipo do que seria o feminismo, mas ele nada mais é do que a busca pela igualdade de direitos entre homens e mulheres.

Jout Jout – E você vê que todo mundo que é legal é feminista (risos). Às vezes você nem precisa se declarar feminista. Às vezes simplesmente só vive aquilo, sente aquelas coisas e vê vídeos feministas e fica toda arrepiada. Acho que foi meu primeiro indicativo. Eu via uns vídeos, ficava inteira arrepiada e falava: “Gente, isso está mexendo muito comigo”.

Fórum – Quais vídeos?

Jout Jout – Tipo Emma Watson falando na ONU ou todos os TEDs [conferências realizadas por uma fundação norte-americana para disseminação de boas ideias] de todas as mulheres maravilhosas falando como é maravilhoso ser uma mulher maravilhosa. Foi meio que assim, dando essas coisas em mim também. E é extremamente gratificante. Muito! Às vezes eu vou dormir falando: “Nem acredito”. Eu estava vindo para cá chorando e pensando: “Caraca, olha onde que eu estou. Faço vídeos sobre algumas coisas e as pessoas veem aquilo e aquilo é muito bom para elas”. Sem querer, estou fazendo super bem a um monte de gente.

Fórum – E a ironia é que você se inspirava em mulheres que via em palestras no TED e hoje você é também uma das palestrantes.

Jout Jout –  Mas a gente faz isso, né? A gente se inspira e vira inspiradora, se inspira em quem se inspirou em você e vai todo mundo se inspirando, vira uma bola louca de inspiração.

Fórum – Vir a público falar de masturbação feminina, de homossexualidade, de menstruação – que não deveriam ser, mas são temas que causam estranheza nas pessoas – é uma quebra de paradigmas. E você faz isso de uma forma muito leve. Por que você acha que ainda hoje há tantos melindres em relação a esses assuntos?

Jout Jout – Acho que é porque ninguém fala muito sobre isso e você acha que só acontece com você. Eu acho que todo o problema é você achar que só acontece com você. Aí depois que se dá conta que não, fala: “Ah, então tudo bem”. Porque a gente fica com vergonha. A gente tem medo de gente. E lá embaixo ficou muito provado isso [local onde ela participou do evento]. Você vai dar uma palestra para pessoas que são só pessoas e você quase se caga nas calças. Tem medo do que eles vão pensar ou qualquer coisa assim. Mas quando vê que está todo mundo na mesma sina, aí fala: “Ah, tranquilo. Não tem problema. É normal”.

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Fórum – Você tem tido sucesso na internet, que pode ser também um ambiente muito hostil. Não acontece tanto com você, mas existe por aí uma cultura de ódio sendo disseminada e as pessoas se sentem à vontade de xingar, de ofender e de destilar seus preconceitos.

Jout Jout – Acontece. No meu canal, tem um fenômeno que não tem muito hater, tipo uma pessoa que chega, me acha ridícula, fala “você é ridícula” e vai embora. Tem muitos fãs que gostam de mim, gostam dos meus vídeos, aí eu boto um vídeo que eles não gostam e ficam decepcionados, tipo: “Esse tá médio, hein, Jout Jout?”. “Hum, tá fraco esse aí, não gostei”. São mais fãs decepcionados do que pessoas que me odeiam de verdade.

Fórum – Mas você tira de letra.

Jout Jout – Às vezes tiro, às vezes eu choro. Depende do dia, depende do ciclo menstrual, depende de muita coisa. Tem dia que eu vejo um comentário e morro de rir, tem dia que eu fico [pergunta em tom dramático]: “Por quê? O que foi que eu fiz?”. Tipo nada definido. Não estou nem madura, nem imatura. Cada dia é uma reação louca diferente.

Fórum – E o que você acha de determinados tipos de humoristas que muitas vezes, sob o pretexto de fazer rir, acabam reproduzindo a discriminação contra mulheres, negros e outros grupos?

Jout Jout – Não é bom isso. Não é coisa para rir. O que eu gosto no humor é quando as coisas são muito naturais. Eu acho maravilhoso. No meu canal, faço tudo para que você se sinta acolhido, abraçado e fala: “Eu não sou uma aberração. Essas coisas não acontecem só comigo. Acontecem com todo mundo”. E a pessoa se sente bem. Eu prefiro assim, é engraçado de um jeito leve, sabe? Porque você fazer graça de coisa que não é engraçada pode ser engraçado [no momento], mas depois você se sente até mal de ter rido daquilo. Para quê? Não tem por quê. É forçar muito a barra.

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Fórum – Falando um pouco do evento que você participou, teve palestras com médica, antropóloga, cientista. O que você tirou de tudo isso? O assunto te impactou de alguma forma?

Jout Jout – Eu acho legal porque todo mundo é importante, sabe? A menina está lá em Madri fazendo pesquisa para curar o câncer e está lá no palco. E eu que fico em casa fazendo uns vídeos de pijamas também estou no palco. Então, tudo é ótimo. A palestra da parteira [Naolí Vinaver], quando começaram as fotos daquelas mulheres parindo, e aquelas caras de “estou vivendo intensamente o momento”, eu não conseguia parar de chorar. Eu fiquei pensando: “Caio, me engravida agora porque eu preciso parir! Eu quero muito parir! Preciso”.

Eu estava longe de Caio [namorado], ele estava lá atrás se debulhando em lágrimas quando ela falou que quando você vai parir não sente só dor, como todo mundo fala, mas sente o universo inteiro passando por você. A palestra dessa parteira foi um desespero na minha vida. Fiquei desesperada de alegria, de amor, arrepiada o tempo inteiro. Descobri agora que eu quero ser doula também, além de youtuber. Fiquei super querendo ser doula.

Fórum – E agora, escrevendo para a Cosmopolitan [antiga revista Nova, onde ela é colunista desde maio], você fez as pazes com o jornalismo?

Jout Jout – (Risos) É um meio jornalístico, mas não estou lá como uma grande jornalista. Estou falando das coisas que eu falo [nos vídeos], só que por escrito. Não é que eu tenha brigado com o jornalismo, só que eu não tenho nada a ver com isso. Eu sabia muito bem a estrutura, mas ter que sair na rua, entrevistar gente, morri de tédio.

É tipo ser médica. Se me mandassem ser médica, acabou a Julia. Não ia sair de casa. Mas acho ótimo que alguém goste do jornalismo, é muito importante que alguém faça isso. Mas também é importante que tenha alguém no YouTube falando das coisas. Então, estou mais feliz fazendo isso do que sair e ir para a rua. Acho lindo, mas se fosse para eu fazer, seria extremamente infeliz, o que é ótimo porque as pessoas são diferentes e temos que abraçar as diferenças.

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