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07 de Fevereiro de 2018, 09h13

Conselho Federal de Psicologia denuncia novela da Globo que trata vítima de abuso sexual com coaching e hipnose

Órgãos afirmam que a abordagem equivocada de traumas, como ocorre em “O outro lado do paraíso”, pode provocar graves consequências.

Foto: Divulgação/TV Globo

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) lançou uma nota denunciando a forma como a novela “O outro lado do paraíso”, da TV Globo, vem retratando a situação de vítima de abuso sexual e saúde mental. Na trama de Walcyr Carrasco, a personagem Laura (Bella Piero) (foto) foi abusada durante a infância pelo padrasto (Flavio Tolezani) e, para entender o trauma, foi levada a se consultar com uma advogada especializada em hipnose e coaching (termo que, de maneira literal, significa treinador – uma espécie de técnico capaz de motivar o cliente para que ele possa atingir seus objetivos).

Segundo o comunicado, a obra é capaz de formar opinião e trata “com simplismo e interesses mercadológicos um tema tão grave como o sofrimento psíquico”. O órgão reitera que é essencial que as pessoas com sofrimento emocional, mental e existencial recebam um tratamento adequado e que ele deve ser realizado pelos profissionais da Psicologia.

O Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais (CRP-MG) também se posicionou contra a novela. O CRP-MG lembrou que o coaching não é uma atividade reconhecida e não está vinculado a nenhuma formação universitária específica, além de utilizar técnicas focadas na administração de empresas e na gestão de pessoas.

Para a instituição, a trama apresenta o abuso como uma questão passível de soluções rápidas e define a prática do coaching como uma “ferramenta para extrair a verdade”.

“Com essa conduta equivocada, a Rede Globo desrespeita os profissionais da Psicologia e sua profissão, que é devidamente qualificada por meio de curso superior específico e regulamentada por Conselho, mais habilitada e indicada para tratar da terapêutica de casos como o da personagem”, termina.

Veja a íntegra da nota

A respeito da apresentação da atividade de coaching como intervenção terapêutica na novela “O outro lado do paraíso”, da Rede Globo de televisão, o Conselho Regional de Psicologia – Minas Gerais (CRP-MG) vem a público declarar extrema preocupação com os eventuais equívocos de interpretação que possam causar diante da complexidade do tema em questão que é o abuso sexual intrafamiliar e os prejuízos psicológicos que acompanham as vítimas e o adoecimento dessas famílias.

O coaching não é uma profissão reconhecida e não está vinculado a nenhuma formação universitária específica. Trata-se, segundo o Instituto Brasileiro de Coaching, de “um processo de desenvolvimento humano que usa de técnicas da Administração de Empresas, Gestão de Pessoas e do universo dos esportes para apoiar pessoas e empresas no alcance de metas, no desenvolvimento acelerado e, em sua evolução contínua”. No entanto, a novela em questão sugere como “solução rápida” e como uma “ferramenta para extrair a verdade” a prática do coaching para acessar o bloqueio sexual oriundo de abusos sexuais sofridos na infância.

O CRP-MG ressalta que tal prática não é ferramenta adequada para lidar com problemas psíquicos, transtornos mentais ou qualquer outro tipo de fragilidade emocional que demande cuidado e tratamento, tal como indica a novela. O tratamento psicológico, sim, é capaz de interferir na perpetuação do sofrimento, trazendo reestruturação e resiliência para as vítimas de abuso.

Dada a repercussão e o tamanho da audiência de uma novela em horário nobre na emissora, levar um tipo de informação como esta pode induzir a erros graves na conduta, intervenção e no tratamento de pessoas psiquicamente fragilizadas e adoecidas, agravando problemas e sintomas. A Rede Globo de televisão e outros quaisquer responsáveis pela novela incorrem, nesse caso, em falta ética grave contra a sociedade.

Além disso, com essa conduta equivocada a Rede Globo desrespeita os profissionais da Psicologia e sua profissão, que é devidamente qualificada por meio de curso superior específico e regulamentada por Conselho, mais habilitada e indicada para tratar da terapêutica de casos como o da personagem.

*Com informações do Brasil de Fato