19 de outubro de 2018, 19h51

Consultor do PSDB sobre escândalo do WhatsApp: “Se for provado, Bolsonaro tem que ser impugnado”

Marcelo Vitorino cuidou do marketing digital de Alckmin. Nesta entrevista exclusiva, ele explica como funcionam os disparos ilegais, como eles alteraram o resultado e diz que Alckmin foi uma das vítimas das fake news

Marcelo Vitorino. Foto: Reprodução Facebook
O consultor de marketing digital da campanha presidencial de Geraldo Alckmin (PSDB), Marcelo Vitorino, disse em entrevista exclusiva à Fórum que, se for provado o uso de disparos de WhatsApp com fake news, a chapa do candidato Jair Bolsonaro (PSL) deve ser impugnada. “A gente foi trapaceado. E quem trapacear tem que enfrentar a lei. Não é nada pessoal. Digo isso sobre qualquer campanha, defendo a nulidade de todo o candidato que usar este tipo de expediente”. Vitorino alega não ter dúvidas de que o uso de mensagens falsas via WhatsApp foi determinante para o resultado do primeiro turno das eleições. “Não...

O consultor de marketing digital da campanha presidencial de Geraldo Alckmin (PSDB), Marcelo Vitorino, disse em entrevista exclusiva à Fórum que, se for provado o uso de disparos de WhatsApp com fake news, a chapa do candidato Jair Bolsonaro (PSL) deve ser impugnada.

“A gente foi trapaceado. E quem trapacear tem que enfrentar a lei. Não é nada pessoal. Digo isso sobre qualquer campanha, defendo a nulidade de todo o candidato que usar este tipo de expediente”.

Vitorino alega não ter dúvidas de que o uso de mensagens falsas via WhatsApp foi determinante para o resultado do primeiro turno das eleições. “Não é só o WhatsApp, tem também as redes sociais. O empresário Luciano Hang, dono das lojas Havan, foi condenado por essa mesma prática”, alerta.

“Neste caso específico, fui eu que fiz a denúncia. E ele já havia sido multado antes pelo impulsionamento. O que eu me pergunto é: não tem que notificar o Ministério Público, abrir um inquérito e fazer uma investigação? Ai quando vem a notícia de que, além disso, também contratou o WhatsApp, eu acredito. O crime compensa. Ele levou uma multa de apenas R$ 10 mil”, desabafa.

Alckmin sofreu ataques

O consultor tucano lembra que a campanha de Geraldo Alckmin (PSDB) sofreu diversos ataques virtuais. “O que teve de fake news contra a campanha foi um absurdo. A história da merenda. Já foi tudo explicado, mas eles vão lá e continuam fazendo de conta, como se não fosse nada. Teve uma que eu chamei de ‘fantasy news’: o Alckmin teria feito um acordo com o PT pra dar indulto ao Lula. Quem estaria disseminando isso, o PT? Caro que não”, desabafa.

Perguntado como se combate esse tipo de prática fora da esfera legal, Vitorino alegou ser impossível. “Você vai pra uma guerra com baioneta e o seu adversário tem um canhão. No meu caso, eu peguei 1,7 milhão de filiados do PSDB, nos tribunais eleitorais, fiz um trabalho de enriquecimento de dados e consegui o telefone de 520 mil, peguei os números de todos os que foram eleitos pelo PSDB, senadores, deputados etc. Juntei com os cadastrados e, somando tudo, deu 580 mil números. Esse era o meu cadastro. Essas empresas que vendem WhatsApp têm milhões, o cara vende pro estado de São Paulo 30 milhões de cadastros. Não tem como competir. Isso é abuso de poder econômico e descompensa a disputa democrática. A chapa de qualquer candidato que tenha feito o uso irregular de WhatsApp deveria ser anulada. Isso é o que está na lei”, repete.

TSE foi avisado

Vitorino recorda que avisou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) várias vezes. “Eu avisei o TSE. Não podem dizer que foram pegos desprevenidos. Em novembro de 2017, eu falei no Conselho de Comunicação Social do Congresso e avisei que o problema seria no WhatsApp. Avisei também que era preciso fiscalizar isso”.

Ele diz ainda que a fiscalização seria relativamente simples. “Não existem mais do que 50 empresas que têm capacidade de fazer disparos em massa a ponto de modificar uma eleição. No Conselho eu fui muito claro: ‘acredito que o TSE deveria fazer uma força tarefa com a Polícia Federal para fiscalizar essas empresas. Não é tanta coisa assim’. Falei isso em novembro de 2017, tive uma reunião no TSE, em maio, e repeti a advertência e, em junho deste ano, no Congresso, voltei a falar. Em três momentos diferentes você avisa que o problema vai ser no WhatsApp e a solução é fiscalizar as empresas, ninguém fez nada e agora todos ficam em pânico? Não acharam importante”, ironiza.

Bazuca contra canhão

O consultor adverte para a grande injustiça que a prática de disparos ilegais provoca na disputa eleitoral. “Nós gastamos, na campanha do Alckmin, cerca de R$ 500 mil com o disparo de WhatsApp. Pelas contas, parece que o Bolsonaro, por meio de empresários, gastou cerca de R$ 12 milhões só com esta primeira denúncia. O dono da Havan já tem antecedentes, quer dizer… não deram atenção: ‘ah, isso ai é só internet’. Só internet nada. Essa foi a eleição do WhatsApp, as pessoas dão muita atenção ao que elas leem lá”, exclama.

Ofertas negadas

O consultor disse ainda que recebeu ofertas deste tipo de serviço de “várias empresas querendo disparar WhatsApp com a base própria. Não é um caso isolado. Todos os candidatos receberam”, alertou.

Em matéria publicada nesta sexta-feira (19), no jornal O GLOBO, Vitorino contou que recebeu oferta, por parte do presidente da empresa DOT Group, Luiz Alberto Ferla, da entrega de disparo de mensagens por WhatsApp para até 80 milhões de pessoas, usando cadastro de terceiros.

Vitorino alega que negou o serviço. “Fiz duas perguntas para ele (representante da empresa) sobre a ilegalidade de usar base de terceiros e ele insistiu que não havia problema”, disse o consultor. Ferla nega que tenha feito a oferta. “Ele tem o direito de negar, assim como eu tive o direito de não contratar, pois a prática é ilegal”, encerrou.

Sobre a matéria do Globo, Vitorino advertiu na sua conta do Facebook que “há um erro enorme. Eu nunca procurei o jornal para fazer denúncia alguma. Fui procurado pela jornalista para confirmar informações de uma reunião e qual a postura do partido”, escreveu.

Informações complementares

A legislação eleitoral permite o envio de mensagens de WhatsApp por candidatos, mas somente para lista de contatos previamente cadastrados por eles ou partidos. É proibido o uso de cadastro de terceiros.

Segundo reportagem do jornal “Folha de S.Paulo”, publicada nesta quinta-feira (18), empresas pagaram até R$ 12 milhões para o envio em massa de mensagens contra o PT no segundo turno da eleição presidencial. A prática beneficiaria a campanha de Jair Bolsonaro (PSL), embora as doações não tenham sido declaradas. A partir da reportagem, PT e PDT acionassem a Justiça para cobrar providências.