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08 de dezembro de 2015, 12h13

Cordel – A mulher que não queria ser mãe

A MULHER QUE NÃO QUERIA SER MÃE

Por Jarid Arraes
Sheila era o nome dela
Trinta anos já contava
Trabalhava com afinco
Muito ela se dedicava
Pois a sua profissão
Era a mais pura paixão
Que amar ela adorava.

Seu marido era incrível
Companheiro e carinhoso
Na rotina conviviam
De um modo harmonioso
O respeito ali presente
Era sempre recorrente
Era bem maravilhoso.

Sempre junto do parceiro
Sheila amava viajar
Conhecer o mundo todo
Da montanha até o mar
Era intensa a energia
Era imensa a alegria
Ao planeta desbravar.

Sheila era uma mulher
Como se pode notar
Plenamente satisfeita
Sem de nada reclamar
Mas só tinha um problema
Um incômodo dilema
Sempre a Sheila perturbar.

A família dos pombinhos
Na chatice a incomodar
Com frequência pressionava
Para Sheila engravidar
Todo dia era a pressão
Irritante sem noção
E difícil de aguentar.

Sheila já tinha explicado
Que ser mãe não desejava
Pois não tinha vocação
Nem talento ela encontrava
Não queria ter criança
Que acabasse a esperança
Da família que amolava.

Mas ninguém compreendia
Muito menos respeitava
Sheila era importunada
Se mordia e se irritava
Não queria engravidar
O que custa respeitar
Ela sempre questionava.

Era sempre a mesma coisa
Sempre a mesma discussão
Sheila logo se aprontava
Com muita argumentação
Tentando ela a explicar
Pra família se acalmar
Mas não tinha solução.

Sua mãe lhe perguntava
Se dinheiro era a questão
Mas dinheiro não faltava
Isso tinha era um montão
Seu trabalho era seguro
Com vislumbre de futuro
Pra ganhar a promoção.

O seu pai se preocupava
Perguntando sem parar
Se saúde era o dilema
Para Sheila engravidar
Mas estava tudo bem
Se quisesse um neném
Poderia então gerar.

Sua sogra na agonia
Se jogava pra chorar
Já que muito desejava
Um netinho pra mimar
Mas a Sheila rejeitava
Da ideia não gostava
Sem indicio de mudar.

Mas o marido de Sheila
Era muito descansado
Respeitava sua escolha
Não ficava aperreado
Pois já tinha aprendido
Tinha enfim compreendido
E ficava então calado.

Tudo aquilo que viviam
Era lindo e importante
Para eles muita coisa
Era mais interessante
Pois a tal maternidade
E essa tal paternidade
Não lhes era relevante.

Sheila até se divertia
E brincava com criança
Mas que isso não gerasse
Nenhuma falsa esperança
Só gostava de brincar
De um tempo dedicar
Sem de mente ter mudança.

Mas agora aos 30 anos
As famílias pioravam
Sem fazer a cerimônia
Se metiam, se enfiavam
Invadindo seu espaço
Dominando seu pedaço
Eles só lhe irritavam.

Sheila fez um ultimato
Convocou a parentela
Prum jantar organizado
Com comida na panela
Todo mundo se animou
E enfim logo pensou
Que acabava-se a querela.

Todos foram já pensando
Que Sheila anunciaria
A sonhada gravidez
Que muito se insistia
Mas foi a decepção
A mais forte emoção
De quem tudo ali ouvia.

Sheila logo levantou
E se pôs logo a falar
Que aquela situação
Não podia se esticar
Com força de pensamento
Dominou o seu momento
Sem parar de explicar.

Disse Sheila assertiva:
Parem de me pressionar
Eu não quero ter criança
Eu não quero engravidar
Essa é minha decisão
Se incomodar ou não
Passem a se conformar.

Sheila então continou:
Porque eu posso escolher
Tenho sorte e privilégio
E vocês precisam ver
Que a mulher desinformada
Que é pobre e desamparada
Está jogada pra sofrer.

Peço que fiquem felizes
Porque eu sou exceção
Sou a dona da minha vida
E eu possuo essa opção
Não insistam na chantagem
Parem essa fuleragem
De me impor resolução.

Eu não tenho obrigação
De acabar engravidando
Só porque eu sou mulher
Vocês ficam importunando
Pois eu tenho mais função
Do que ter a gestação
Só porque tão pressionando.

Na nossa sociedade
Querem sempre ensinar
Que mulher tem um lugar
Onde deve se portar
Com um jeito submisso
Sem querer nada além disso
E sem nada questionar.

Pois eu digo que rejeito
Esta vil imposição
O meu corpo me pertence
Assim como a decisão
De jamais engravidar
Por assim eu desejar
Acabou-se a discussão.

A família ficou muda
Ninguém disse nem um “piu”
Um silêncio tão profundo
Sheila mesmo nunca viu
Mas ficou bem satisfeita
Com o sucesso da receita
Bem melhor do que previu.

Noutro dia foi trabalho
E o sucesso imaginado
Sheila enfim foi promovida
Seu salário aumentado
Teve a comemoração
Com toda a repartição
Pelo que foi conquistado.

Com viagem já marcada
Sheila estava bem feliz
Pois enfim conheceria
Um lugar que sempre quis
No amor realizada
Sheila era abençoada
Do seu reino imperatriz.

Gravidez é muito bom
Para quem a desejar
Mas se isso não quiser
Que ninguém vá perturbar
Escolher é um direito
Optar é um preceito
Que devemos respeitar.

FIM

 

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