20 de junho de 2018, 12h17

Crimes de guerra de Israel (I)

Em seu mais novo artigo, Yuri Martins Fontes destaca a violência no Oriente Médio: massacrados por europeus, sionistas massacram palestinos em nome de “autodefesa”

Há recentes 80 anos, judeus, ciganos, comunistas e outras ditas “minorias” foram massacradas pela Alemanha nazicapitalista, que com fúria emergiu das cinzas nos anos 1930 (após a pilhagem sofrida pelos germânicos no pós-Primeira Guerra e a crise liberal-especulativa de 1929 que agravou o caos no centro do capitalismo).

Quinze anos depois, o povo judeu, que coincidentemente, ou não, era a única minoria perseguida que tinha presença significativa nas classes médias e altas europeias, obteria com respaldo europeu um lugar para se instalar (enquanto os ciganos e outros tantos povos não tiveram a mesma sorte e seguem perseguidos até hoje). Este território, estrategicamente próximo ao petróleo do Oriente Médio, e suficientemente distante da Europa Ocidental, é a Palestina – nação que à época estava submetida colonialmente ao imperialismo inglês.

Desde então, há 70 anos os palestinos vêm sendo sujeitados a uma paulatina limpeza étnica por “insistir” em viver em seu próprio território originário (onde habitam há um milênio e meio, e no qual são maioria desde o século VII).

Este processo, caracterizado como genocídio pela ONU e organizações humanitárias das mais variadas tendências ideológicas, tem sido promovido ora por regimes sionistas de viés trabalhista, ora por fundamentalistas conservadores, mas sempre sob o discurso de “legítima defesa” de um “povo perseguido”. Com a crise econômica das últimas décadas, o extermínio se acentuou.

Limpeza étnica para inversão demográfica

Em 2017, o atual governo de extrema-direita israelense autorizou a regularização de 53 colônias judaicas ilegais, construídas sem alvará na Cisjordânia ocupada – gesto invasivo sem precedentes no último meio século.

Nesta mesma linha, em janeiro de 2018, o ministro da Defesa Avigdor Lieberman, conhecido por suas opiniões xenófobas, declarou que seu regime construiria milhares de casas em assentamentos da Cisjordânia: 1285 unidades ainda este ano e mais 2500 nos anos seguintes.

Tal agressão “branda”, somada ao simbolismo dos 70 anos da ocupação palestina por Israel – conhecida como a “Catástrofe” –, deram força a uma série de manifestações, desde março, batizadas como a “Grande Marcha do Retorno”.

Os protestos civis, inicialmente pacíficos, foram brutalmente reprimidos pelo regime israelense. Após as primeiras dezenas de cadáveres, grupos palestinos passaram a lançar pedras e bombas caseiras contra tanques e fuzis do poderoso exército sionista, o que serviria de justificativa para que o governo ampliasse a chacina: em 2 meses já foram assassinados uma centena e meia de palestinos (incluindo uma dezena de crianças), contabilizando ainda cerca de 3 mil feridos – segundo dados publicados até mesmo em meios conservadores, como a Folha-UOL que, à semelhança do resto do PIG global, legitima o massacre como sendo um “enfrentamento de partes imoderadas” (sugerindo assim algum equilíbrio de forças).

Esta prática expansionista de Israel tem por objetivo inverter o balanço demográfico regional, aumentando a população judia nestes territórios, até então majoritariamente palestinos.

Crimes de guerra sistemáticos frente à impotente ONU

A política de extermínio israelense confronta – e na prática nega – a possibilidade da solução dos “Dois Estados”, vindo a se somar a outras agressões aos direitos humanos por parte do regime, fatos que há décadas são condenados pela “decorativa” ONU, cujas moções de repudio são simplesmente desprezadas.

Para se ter uma ideia do nada a que foi reduzida a ONU nas últimas décadas, no ano passado, um mês após resolução desta organização condenando como “ilegais” os assentamentos israelenses, o regime sionista demoliu 43 residências de palestinos na Cisjordânia, desalojando uma centena de crianças e afetando milhares de habitantes do entorno (dados da Agência da ONU para Coordenação de Assuntos Humanitários).

Segundo observa o ativista palestino Amajd Alqasis (em reportagem do Brasil de Fato), de acordo com a IV Convenção de Genebra (1949), consiste em “crime de guerra por apropriação” a transferência populacional por parte da nação invasora para o território invadido, como faz Israel, que “isola as comunidades palestinas para segregá-las, tornando a sobrevivência muito difícil”; a construção dos assentamentos judaicos em terras palestinas, em geral, implica na demolição de residências locais.

Como Israel usurpou o Estado Palestino definido pela ONU

A construção e manutenção de um Estado com maioria religiosa judaica foi uma questão que preocupou os promotores do sionismo, assim que se vislumbrou mais claramente a criação de Israel por iniciativa das Nações Unidas.

O Estado judaico foi proposto pela ONU em 1947 – para coexistir ao lado do Estado palestino – sendo estabelecido no ano seguinte. Contudo, o projeto sionista teve, logo de início, que enfrentar uma séria questão demográfica. Ocorre que o território destinado aos judeus, além de cercado de populações árabes, era ele mesmo bastante povoado, em grande parte, por palestinos: nas terras designadas pela ONU a Israel, estima-se que vivessem antes de 1947 cerca de um milhão de árabes.

Todavia, com a Guerra de Independência israelense-árabe (1947 a 1949) – período em que termina o domínio colonial britânico –, a situação demográfica passa a ser espantosamente diferente. Além disso, ao fim do conflito, o Estado israelense viria a deter uma área 50% maior de que a original.

Acontece que, por motivo da guerra, as propriedades privadas urbanas e rurais dos árabes tinham ficado vazias – já que esta população nativa se refugiara do conflito. Assim, visando legitimar sua ação de conquista e anexação territorial, Israel cria uma lei segundo a qual passa a ser considerada “abandonada” toda propriedade na qual o proprietário não estivesse presente no momento da visita dos fiscais israelenses – e isto mesmo nos casos em que o dono da casa tivesse se exilado temporariamente nas cercanias de seu lar, ameaçado pela violência da guerra.

De acordo com o pesquisador estadunidense de origem judia Don Peretz – professor emérito da Universidade do Estado de Nova Iorque (em “Israel and the palestinian arabs”, Middle East Institute, 1958) –, as propriedades abandonadas pelos palestinos em fuga tiveram um papel crucial no sentido de tornar Israel um Estado viável. Em 1954, segundo ele, mais de um terço dos judeus israelenses vivia nessas propriedades, e quase um terço dos novos imigrantes (250 mil pessoas) tinha sido assentado em áreas urbanas abandonadas pelos árabes. Dos 370 novos assentamentos judaicos criados entre 1948 e 1954, 95% foram estabelecidos em antigas áreas de predominância árabe.

O argumento apresentado pelos líderes sionistas à época, com vistas a legitimar sua barbárie, foi de que os árabes deixaram suas propriedades em “repulsa” ao Estado judaico, estimulados por lideranças locais ou por governos árabes vizinhos.

Essa versão, porém, foi desde logo contestada por estudiosos palestinos, vindo mais tarde a ser refutada até mesmo por um influente grupo de pesquisadores acadêmicos israelenses, conhecidos como os “novos historiadores”.

[*continua na próxima coluna]