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30 de julho de 2018, 11h54

Crimes de guerra de Israel (II): limpeza étnica

Yuri Martins Fontes aborda, em novo artigo, o conflito Israel-Palestina: “Autodefesa” como discurso legitimador do pior genocídio do novo século”

Foto: Wikimedia Commons

O exército de Israel assassinou desde março deste ano, data do início da Grande Marcha do Retorno do povo palestino desterrado, mais de uma centena e meia de pessoas. Somente na última sexta-feira de julho, foram fuzilados um jovem de 14 anos e um homem de 43, ambos desarmados, nas cercanias da fronteira onde ocorrem os protestos. Um deles foi alvejado à distância de 250 metros da linha demarcadora do apartheid: estava sentado, e não oferecia a mínima ameaça aos mercenários militares, segundo informe do Ministério da Saúde de Gaza, reportado pela Telesur.

Aberrações como estas são noticiadas quase que semanalmente, há décadas, diante da indiferença da chamada “comunidade internacional”, para quem os “direitos humanos”, como se sabe, são restritos a certas nacionalidades, cores de pele, etnias, culturas.

Mas vejamos quais os interesses que tem o governo sionista em incentivar este genocídio a conta-gotas, promovido por seus subordinados superarmados.

Palestina: ampla maioria árabe até meados do século XX

Até 1947, quando estoura a Guerra de Independência israelense-árabe, a Palestina era habitada por cerca de um milhão de árabes (2/3 do total, ou seja, o dobro da população judaica), sendo que um terço deles viviam nas terras destinadas pela ONU ao Estado judeu (a fatia majoritária de 56% do território).

O nítido desequilíbrio da proposta das Nações Unidas (que oferece à maioria árabe apenas 44% das terras) seria o estopim dos enfrentamentos: ver o último texto desta coluna: “Crimes de guerra de Israel (I)”, em: www.revistaforum.com.br/crimes-de-guerra-de-israel-i/.

Ao fim do conflito, a situação demográfica estava drasticamente mudada. Quase 250 mil árabes deixam a região “judia” (restando apenas 100 mil). Além disso, o Estado israelense sai da guerra com uma área 50% maior do que a que lhe caberia segundo o plano de repartição original.

Segundo os chamados “Novos historiadores” israelenses, corrente historiográfica composta por acadêmicos judeus, críticos das barbáries perpetradas pelo regime sionista, o argumento de que os árabes-palestinos teriam deixado suas casas e propriedades motivados pela “repulsa” ao domínio judaico é uma falácia: falsa narrativa que visa legitimar a conquista militar e anexação da Palestina.

Os “Novos historiadores” israelenses contra a falácia sionista

Benny Morris, destacado membro dessa corrente historiográfica, é provavelmente quem mais contribuiu para abalar – e profundamente – esse discurso sionista. Em “1948 and after: Israel and the Palestinians” (1994), Morris esmiúça um relatório produzido pelo Serviço de Inteligência de Israel, referente a seis meses de conflitos armados, que vão de dezembro de 1947 (quando a ONU divulga o plano de partição da Palestina), até junho de 1948 (logo da proclamação da independência de Israel).

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Trata-se, portanto, de uma análise correspondente apenas à fase inicial da guerra, quando o Estado israelense sequer existia formalmente. Segundo Morris, o relatório estima que no território destinado originalmente ao Estado judaico, ao final de 1947 havia 219 aldeias árabes e quatro cidades, total ou parcialmente árabes. No conjunto, a população árabe dessas localidades seria de 342 mil pessoas.

Contudo, em 1º de junho de 1948, 180 dessas aldeias haviam sido evacuadas, com 239 mil árabes abandonando o território destinado a Israel. Outros 150 mil que viviam em 70 aldeias e 3 cidades, localizadas na área destinada ao Estado palestino, também fugiram. No total, o número de refugiados nesse período chegou a cerca de 390 mil palestinos. De acordo com o documento, pouco mais de 100 mil árabes permaneceram nas terras em que viviam originalmente, dentro do território destinado pela ONU ao Estado judeu.

Sobre as causas do êxodo, Morris afirma que o Serviço de Inteligência não aponta para uma “oposição [árabe] ao estabelecimento do Estado [de Israel], ou oposição política à perspectiva de se viver sob um governo judaico”. Ao invés disso, segundo o historiador, o relatório lista uma diversidade de fatores, de modo que sua conclusão é que: “sem dúvida, as operações hostis [das forças sionistas] foram a causa principal”. Ele afirma ainda que as ações militares israelenses, juntamente à de grupos “dissidentes judaicos” (paramilitares), foram responsáveis pelo abandono de 70% das propriedades árabes.

“Confronto”, não: um genocídio planejado

Se o pesquisador israelense Benny Morris não chega a atribuir o êxodo palestino a um plano genocida previamente arquitetado pelos sionistas, esta é, contudo, a conclusão do historiador palestino Nur Marsalha.

Em “The Israel-Palestine Question” (1999), Marsalha critica Morris, acusando a posição do colega de contraditória, diante da enorme quantidade de exemplos que o próprio Morris coletou.

Ademais, segundo o palestino, há o agravante de que esses documentos analisados por Morris são os menos incriminadores, pois o grosso da documentação sobre o tema vem sendo “cuidadosamente liberada” pelas autoridades israelenses, enquanto “muitos dos arquivos e documentos” relativos ao assunto “permanecem fechados aos pesquisadores”.

Vale frisar que para dar ares de “legalidade” a tais crimes de guerra, o governo fasci-sionista atualmente no poder se usa de meandros econômicos dos mais vis, como a cobrança de cerca de 40 mil dólares para autorizar uma construção residencial, na Cisjordânia – de modo que, não dispondo obviamente de tais cifras, o palestino acaba erguendo sua casa de modo ilegal. E depois, acossado pela lei do invasor israelense, o residente perde a casa, e ainda pior, por vezes ele mesmo é obrigado a destruí-la (!), já que o governo cobra taxas para a demolição de casas irregulares.

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Israel: o discurso de “autodefesa” como justificativa para a limpeza étnica

Posições como essas chocam-se com a imagem do Israel democrático, amplamente divulgada, ponto de vista segundo o qual Israel se utiliza de sua força militar somente para fins de “autodefesa”. Essa imagem, baseada no mito judaico da “pureza das armas”, está há muito tempo arranhada.

Hoje, corroborando as mencionadas pesquisas de Morris e Marsalha, a escola dos “Novos historiadores” israelenses contesta grande parte das supostas “verdades” estabelecidas pela historiografia oficial desde a fundação do país, negando a explicação anterior de que a população palestina que vivia no território ocupado por Israel deixou suas casas e aldeias “voluntariamente”, incitada pelos Estados árabes vizinhos. Para os historiadores judeus, ao menos a metade do um milhão de palestinos que fugiu na época, foi expulsa pelas forças militares e paramilitares do Estado israelense que nascia.

Fatos mais recentes demonstram ainda que Israel está longe de agir apenas em “legítima defesa”. Uma das evidências disto, é a instalação de colônias nos territórios ocupados da Cisjordânia – o que vem ocorrendo desde a Guerra dos Seis Dias (1967) quando Israel se aproximaria incondicionalmente dos EUA.

Semelhantes abusos criminais, que atentam contra os direitos humanos dos palestinos, vêm se perpetuando apesar das críticas da vasta maioria da comunidade internacional e do veemente repúdio da ONU (entidade desprezada pelo governo judeu e por seus tutores ianques).

De acordo com o artigo “Recuso-me a ser cúmplice dessa agressão” (2014), do cientista social especializado em identidade judaica Marcelo Gruman (UFRJ) – brasileiro que declaradamente professa o judaísmo: a “sacralização do genocídio” promovido pelos judeus tem permitido cenas assombrosas como as mostradas frequentemente pela mídia, em que se opera um “esmagamento da população palestina em Gaza”, uma região “transformada em campo de concentração e isolada do resto do mundo”. Como exemplos, o estudioso cita: a “destruição da infraestrutura” e de “milhares de casas”, o “assassinato de civis”, as “famílias destroçadas”, e até mesmo “crianças torturadas em interrogatórios ilegais, conforme descrito por advogados israelenses”.

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Mas o pior, reflete o pesquisador judeu, é que esses fatos trágicos “não são a exceção, não são o efeito colateral de uma guerra suja”, mas sim “práticas sociais genocidas” que têm por objetivo “final do processo” o “aniquilamento físico” da população palestina que habita a Palestina.

Transnacionais sionistas e sua atrativa bolsa-judeu

Um levantamento do Centro de Pesquisas para os Direitos dos Refugiados Palestinos Badil mostra que na atualidade 85% da população palestina já foi usurpada e expulsa de suas terras. Com isso se ampliou a capacidade de alojamento para novos moradores judeus vindos de todo o mundo.

Para que Israel receba um bom fluxo migratório – e racialmente “seletivo” –, transnacionais sionistas e grupos a elas associados patrocinam uma espécie de “bolsa-judeu internacional”, que faz brilhar os olhos de jovens descendentes de judeus, praticantes e não praticantes de todo o mundo, e até mesmo daqueles parentes não religiosos, mas simpatizantes ou ao menos não opositores da causa sionista.

Como seria de se esperar, trata-se de uma verba voltada ao mundo ocidental capitalista, branco e de classe média: notadamente jovens de pele clara de países semiperiféricos (mais suscetíveis a tais auxílios econômicos), pertencentes a segmentos sociais decadentes, mas com boa formação técnica superior (e algum espírito aventureiro).

A população destes chamados “colonos judeus” na Palestina já é de mais de meio milhão de pessoas. Recente relatório do comitê criado em 2016 pelo Ministério da Diáspora de Israel afirma que há no mundo cerca de 60 milhões de pessoas que ou mantêm alguma tradição judaica, ou têm alguma “afinidade” com o judaísmo ou com Israel.

Em vista destes dados, o tal comitê apresentou um polêmico “plano estratégico” visando cooptar o apoio destas pessoas às políticas expansionistas do regime, bem como promover o “retorno” de alguns dos mais capacitados (migração de cérebros), e eventualmente convertê-los ao judaísmo.

A ideia foi criticada tanto por religiosos sionistas, como por ativistas sociais. “O judaísmo não tem a intenção de influenciar ninguém a se converter”, disse o rabino Dov Lior ao jornal Haaretz, de Tel Aviv.

Já no campo progressista, manifestantes declararam ao Times of Israel que o interesse principal do governo tem sido sobretudo o de expulsar pessoas, como palestinos e refugiados africanos – um projeto de corte sócio-racial que vem, portanto, a se somar aos planos desse mencionado comitê racista.