16 de julho de 2018, 18h36

Croácia, Tito e futebol-caranguejo

Nas matérias sobre a Croácia, depois que o país começou a se destacar na Copa do Mundo, os jornalistas conseguiram a façanha de não citar o Marechal Tito, personagem central da história da Iugoslávia, à qual a Croácia pertencia, em boa parte do século XX. O futebol-caranguejo fica por conta da seleção brasileira

Será possível escrever sobre a História da Rússia – e seu período como parte da União Soviética – sem citar Lenin?

E da História da Alemanha do século XX para cá sem citar Hitler? Da França sem citar De Gaulle?

Pergunto isso por causa das matérias em jornais e telejornais – pelo menos as que li ou vi – explicando o que é a Croácia, depois que o país começou a se destacar na Copa do Mundo.

Os jornalistas conseguiram a façanha de não citar o Marechal Tito, personagem central da História da Iugoslávia, à qual a Croácia pertencia, em boa parte do século XX.

Filho de pai croata e mãe eslovena, Josip Broz Tito nasceu na Croácia, em 1892. Lutou na Primeira Guerra, e no fim dela foi criado o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, sob Alexandre I. Em 1929 o país, ainda um reino, passou a se chamar Iugoslávia.

Na Segunda Guerra, quando o rei era Pedro II (de lá, claro – hoje em dia é preciso explicar isso ou vão pensar que o Pedro II daqui migrou para lá, já com uns cento e tantos anos), Tito liderou mais de um milhão de Partisans, guerrilheiros que combateram os nazistas e parte dos sérvios e dos croatas aliados deles. Depois do fim da guerra, Tito tornou-se presidente e foi reeleito sucessivamente até morrer, em 1980.

Não é o caso de fazer uma grande matéria neste blog, mas lembro algumas coisas que tornam o Marechal Tito personagem muito importante. Tão importante que, quando morreu, seu funeral contou com a maior presença de chefes de Estado e autoridades de todo o mundo até então. Só 25 anos depois, um funeral seria superado pelo seu: foi quando morreu João Paulo II.

Tito conseguiu manter unidas e convivendo pacificamente seis repúblicas com uma tradição de relações conturbadas: Sérvia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Eslovênia, Montenegro e Macedônia, além de uma região conflituosa da Sérvia, Kosovo.

Como presidente da Iugoslávia (por sinal, país de tradição futebolística – foi vice-campeão mundial na Copa de 1962, perdendo para o Brasil) peitou Stalin, não aceitou se filiar à Otan nem ao Pacto de Varsóvia, criou com outros líderes do Terceiro Mundo, entre eles Nasser, do Egito, e Nehru, da Índia, o Movimento dos Países Não-Alinhados.

O socialismo iugoslavo tinha características próprias. Cerca de 80% das terras foram restituídos aos agricultores e foi implantada a autogestão dos trabalhadores nas indústrias. Quem viajava para lá – desde 1967 não era exigido visto de estrangeiros – contava que podia-se circular livremente. Lembro isso porque alguns não comunistas que viajavam para a União Soviética diziam que havia um certo controle sobre os turistas.

Depois da morte de Tito é que a coisa começou a desandar. Sua liderança era aceita por todas as nações da Iugoslávia, o que não ocorreu com os presidentes que o sucederam. O poder passou a ser exercido por um colegiado, com um membro de cada república, e a presidência era rotativa, mas começaram a ressuscitar nacionalismos e, com eles, rivalidades e encrencas. Com a desintegração da União Soviética e a conversão de países do Leste europeu ao capitalismo, a coisa desandou de vez, resultando também no esfacelamento da Iugoslávia, depois de guerras sucessivas.

Bom… Falei (superficialmente) de Tito e da Croácia (como parte da Iugoslávia), mas o que isso tem a ver com o que chamo de futebol-caranguejo?

Nada!

O futebol da seleção croata, na Copa, ia para o ataque, jogava para ganhar. A brasileira, sim, é que tem a ver. O Brasil deixou de ser o país do futebol-arte para ser o do futebol-caranguejo.

Nossa seleção (não sei se é tão nossa, com quase ninguém atuando no futebol brasileiro) tinha supercraques em todas as posições, mas o que adianta ter jogadores tão bons se eles não atacam, ficam jogando de lado? Um passinho pra lá, um passinho pra cá… Um tédio. Nada de ir para o ataque. Fazer gols dependia de um relampejo de algum jogador. Um futebol feio e arriscado, pois os passinhos de lado, estilo caranguejo, eram feitos no campo de defesa.

Conversei com alguns “entendidos” e parte deles dizem que no futebol moderno o importante é manter a posse da bola. Legal, mas manter a posse da bola perto do gol dos adversários, de preferência. E com vontade de fazer gols.

Está certo: o futebol globalizou, os outros melhoraram. E jogam com gana, atacam… O nosso futebol-caranguejo me lembra a música de João Bosco e Aldir Blanc em que citam como dançar bolero, dando passos… “dois pra lá, dois pra cá”.