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22 de Abril de 2018, 14h00

Curitiba, quem diria, transformou-se na “Capital da Resistência”

No Paraná, acampamento e vigília em defesa de Lula seguem firmes. Um ato tornou-se rotina: dar bom dia e boa noite ao presidente. Segundo os senadores, ele responde do local onde está isolado: “Bom dia, companheiros”.

Foto: Gibran Mendes

Por Gibran Mendes, de Curitiba (PR)

Desde a chegada de Lula a Curitiba, no último dia 7 de abril, a conservadora cidade transformou-se na “Capital da Resistência”. Nas proximidades da sede da Superintendência Regional da Polícia Federal, onde o ex-presidente está preso, um acampamento foi montado por militantes, ativistas e apoiadores da maior liderança política e popular do país. Separados por uma faixa de segurança, que delimita e restringe o acesso nas proximidades do prédio – fruto de um interdito proibitório -, os manifestantes passaram os últimos dias. Atos políticos, manifestações artísticas e culturais são programadas diariamente no bairro Santa Cândida.

Caravanas chegando no início da montagem do acampamento (Foto: Gibran Mendes)

O acampamento funciona com uma pequena vila com vida própria. Há cozinhas, espaço para doação de alimentos e outros itens, barracas da coordenação, outra para a comunicação e uma para receber cartas que serão encaminhadas a Lula. Há um espaço também para arrecadação de recursos, com venda de materiais como camisetas e livros. Uma biblioteca comunitária e um ambulatório com medicina popular também estão à disposição.

A cozinha comunitária do acampamento (Foto: Gibran Mendes)

Tudo isso aliado a segurança e regras com períodos determinados para limpeza, refeições e as manifestações. O espaço esbanja organização, ao contrário do que as fake news da direita tentam propagar. A vizinhança estava dividida. Enquanto alguns torciam o nariz, outros abriam suas portas para banhos, recargas em aparelhos eletrônicos e até mesmo refeições.

Desde a terça-feira (17) o acampamento, propriamente dito, foi dividido em dois. Fruto de um acordo com a prefeitura de Curitiba. O executivo municipal acionou a Justiça para multar em R$ 500 mil por dia as entidades envolvidas caso os espaços para dormitório não fossem retirados das proximidades da Polícia Federal. A vigília e as manifestações, no entanto, continuam no mesmo local.

Elas acontecem a uma quadra de distância do prédio. Neste local está a “Praça Olga Benário”, espaço batizado pelos manifestantes e onde acontecem todos os atos públicos. Por este ambiente já passaram referências políticas e dos movimentos sociais. Lideranças locais alternam-se como “mestres de cerimônia” e acolhem os visitantes, apresentando-os e garantindo a fala de todos

Primeiro grande ato realizado no acampamento (Foto: Gibran Mendes)

O líder do MST, João Pedro Stédile, o presidente da CUT, Vagner Freitas e representantes de outras centrais sindicais são alguns dos nomes ligados ao sindicalismo e aos movimentos sociais que estiveram no local. Foi lá, por exemplo, de onde saiu o anúncio da realização do 1º de Maio nacional e unitário em Curitiba, ou ainda, onde Stédile fez duras críticas ao ministro Edson Fachin.

A cantora Ana Cañas, por exemplo, foi uma das artistas que se apresentou no local. Aproveitou a agenda em Curitiba para fazer um show gratuito na Praça Olga Benário. O rapper Renegado também garantiu uma apresentação para os acampados. A chef Bel Coelho e a apresentadora Bela Gil, igualmente, foram ao acampamento prestar sua solidariedade e apoio ao ex-presidente Lula.

A cantora Ana Cañas se apresentou no acampamento (Foto: Gibran Mendes)

A presença de deputados, senadores, governadores e ex-ministros é constante no local. Fernando Haddad, Celso Amorim, Patrus Ananias, Vicentinho, Gleisi Hoffmann, Maria do Rosário, Henrique Fontana, Miguel Rosseto, Lindbergh Farias e Paulo Pimenta são alguns dos nomes que passaram pelo acampamento. Análises de juristas como Luiz Moreira e intelectuais, como Jessé Souza, são outros exemplos de quem acompanha o cotidiano dos acampados e visitantes.

Os pré-candidatos à Presidência da República pelo PSOL e pelo PCdoB, Guilherme Boulos e Manuela d’Ávila, da mesma forma, foram prestar seu apoio ao ex-presidente. “O que Boulos e eu estamos fazendo não é mais que nossa obrigação, pois o que nos une é muito maior do que qualquer diferença que possa existir entre a gente. O que nos une é Lula, Lula vale nossa unidade. Lula vale todos os esforços coletivos para estarmos juntos, pois ele está preso por causa da gente, pelo o que fez pelo povo brasileiro. Gritar por Lula livre hoje é gritar pelo Brasil livre”, afirmou Manuela no último dia 9 de abril, quando esteve no local.

“Lula é um preso político, por isso temos que fazer essa denúncia internacional, da esculhambação que isso aqui se tornou, as instituições brasileiras estão esculhambadas. Se a grande imprensa daqui não mostra, cabe a nós mostrar”, disse Boulos dois dias depois no Acampamento Lula Livre.

Pré-candidato à presidência pelo PSOL e líder do MTST, Guilherme Boulos também marcou presença no local (Foto: Gibran Mendes)

A estimativa da organização do acampamento é que, diariamente, ao menos 2 mil pessoas passam pelo local. Portanto, o grosso é de militantes que vêm de diversas regiões do Brasil. Pernambuco, Minas Gerais, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e, evidentemente, São Paulo, são alguns dos locais de origem.

Os manifestantes vêm em caravanas, ou ainda, de forma autônoma. Muitas vezes só com passagem de ida para a capital paranaense. Como é o caso do aposentado Richard Faulhaber, de 63 anos. Ele está em Curitiba desde o último dia 12 para prestar sua solidariedade e apoio a Lula. Faulhaber, que fez greve de fome durante 14 dias em Porto Alegre, durante o julgamento de Lula no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) , diz que está no Paraná sem data para voltar. “Vim apenas com passagem de ida, sem data para voltar. Estamos na luta em defesa do nosso grande guerreiro, irmão, companheiro Lula. É um homem imprescindível para luta, para resgatar tudo o que estava sendo conquistado. Ele dedicou a vida pessoal, privada, da família”, enfatizou.

Ao lado dele, misturam-se trabalhadores rurais, trabalhadores sem terra, povos quilombolas, bancários, petroleiros e um sem fim de categorias de anônimos que engrossam a resistência contra prisão do ex-presidente. Todos com energia e disposição para ficar na capital paranaense o tempo que for necessário. Até que Lula fique livre.

Apoiadores de todo o país chegam diariamente ao acampamento em Curitiba para prestar solidariedade ao ex-presidente (Foto: Gibran Mendes)

Ataques

Desde a chegada de Lula em Curitiba dois momentos de violência foram registrados. O primeiro deles foi quando o ex-presidente aterrissava no heliponto da Polícia Federal. Enquanto a militância cantava em sua homenagem bombas foram atiradas contra a multidão.

A primeira impressão foi de que tratavam-se de rojões atirados do outro lado do prédio, onde estavam manifestantes favoráveis à prisão de Lula. Contudo, após a terceira ou quarta explosão, ficou claro que as bombas vinham da Polícia. Com a correria também vieram tiros de bala de borracha que atingiram, inclusive, mulheres. Há registros de disparos que acertaram pessoas pelas costas.

Militantes foram atingidos com balas de borracha disparadas pela polícia. (Foto: Gibran Mendes)

Segundo a professora Cida Reis, ao menos dez de suas colegas foram hospitalizadas, entre elas a professora Marlei Fernandes, da direção da CNTE. Elas foram atendidas nos hospitais Cruz Vermelha e Evangélico, na capital paraense. “Foi horrível. Assim do nada. Estávamos muito próximos. A primeira bomba nem acreditamos que fosse uma bomba, achamos que fosse um sinalizador”, relatou.

Com os ataques da PM, apoiadoras do ex-presidente chegaram a ser hospitalizadas (Foto: Gibran Mendes)

Já o segundo momento de violência aconteceu na noite de terça-feira (17) nas proximidades do novo acampamento. Pessoas que identificaram-se como torcedores do Coritiba atacaram com barras de ferro um grupo que retornava das atividades na vigília. Em nota, a organização do movimento afirmou que “pede que as medidas cabíveis sejam tomadas e que a segurança seja efetiva nos locais onde permanecem os acampados”.

Visitas

O ex-presidente, desde que chegou a Curitiba, recebeu a visita do seu advogado Cristiano Zanin e de seus filhos. Na terça-feira (17), uma comitiva formada por 11 senadores também conseguiu encontrar Lula. Ele disse aos parlamentares que está se exercitando diariamente, além de ler livros para passar o tempo. A comitiva, em entrevista coletiva, disse repudiar o isolamento de Lula, bem como o desrespeito à Lei de Execução Penal pelo descumprimento da regra que permite que presos recebam visitas de familiares e amigos.

A comitiva também afirmou que o ex-presidente é capaz de, em determinados momentos, ouvir o que acontece no acampamento e na vigília. Em especial de um ato que se tornou rotina: dar bom dia e boa noite ao presidente. Segundo os senadores, ele responde do local onde está isolado: “Bom dia, companheiros”.

A senadora Regina Sousa (PT-PI) relatou, após sair da Superintendência Regional da Polícia Federal, como foi o encontro. “Lá dentro ele mandou ninguém chorar e ninguém chorou. Ele manda e a gente obedece. E ele [Lula] também mandou a gente manter a resistência”, disse. “Lula não é um criminoso, ele não teve sequer julgado seu processo em última instância. Se ele fosse um criminoso comum não teria tanta gente querendo visitá-lo, não teriam visitas de governadores, de senadores, de líderes políticos, de um prêmio Nobel da Paz e não teria todo esse povo aqui neste acampamento”, completou a presidenta do PT, senadora Gleisi Hoffmann.

Mas, antes deles, nove governadores de cinco partidos, de estados do Norte e Nordeste do Brasil, foram barrados no dia 10 na Polícia Federal. Eles pretendiam visitar Lula, mas foram impedidos por uma decisão da Justiça Federal. “É mais um gesto de descumprimento da lei e da Constituição. Infelizmente é mais uma decisão arbitrária, equivocada e injusta da Justiça Federal, que desconsiderou o que está previsto no artigo 41 da Lei de Execução Penal”, afirmou em entrevista coletiva o governador do Maranhão, Flávio Dino, que foi juiz Federal.

Governador do Maranhão, Flávio Dino, discursou para os militantes. Ele foi impedido de visitar o ex-presidente Lula (Foto: Gibran Mendes)

Repercussão internacional

No acampamento também é possível encontrar comitivas internacionais que chegam para prestar seu apoio ao ex-presidente. Representantes de movimentos da Argentina, Uruguai, México e até mesmo Noruega, entre outros, já passaram pelo local. Da mesma forma, veículos de comunicação de outros países participam da cobertura cotidiana da Vigília.

Entre nomes de destaque, o Prêmio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel passou pelo acampamento na quinta-feira (19) e tentou, também sem sucesso, visitar Lula. O ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica, também confirmou que irá até o local. Porém, ainda sem data definida.

Enquanto isso, entre personalidades nacionais e internacionais, o acampamento segue em defesa da liberdade de Lula. O tempo de permanência, ou ainda uma eventual transferência do ex-presidente, ainda são temas imprevisíveis. Mas o que parece visível para quem acompanha o dia a dia do acampamento é, no que depender dessa militância, Lula continuará recebendo seu bom dia e boa noite, seja onde for.

Pai e filha no acampamento Lula Livre (Foto: Gibran Mendes)