Anarca é a mãe

07 de março de 2016, 12h16

Dando conta

amamentandoEstou no restaurante. Pedi macarrão, mas a chef já me avisou que vou receber é carne assada.

O garçom entra na cozinha. Ouço a treta da minha mesa – nananinanão, a cozinha é restrita a chefs e ele é garçom. Cada pessoa no seu quadrado.

Fico preocupada com uma eventual escalada da discussão, mas tudo se resolve abruptamente quando, revoltado, o garçom deixa o estabelecimento – dramática, mas silenciosamente. Penso em ir atrás dele para consolá-lo, mas não parece ser o momento.

E nada da minha carne. Reclamo da demora, a chef pede paciência, diz que para fazer bem feito é assim, demorado.

O ex-garçom então irrompe na sala sentado numa moto, gritando “yo-ho-ho!” (virou um motoqueiro-pirata ou um pirata-motoqueiro, sabe-se lá). Pergunto e ele apenas responde “tesouro!” e me entrega o ar.

Que bom. Agora posso pagar a conta. Se a carne um dia chegar.

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Eu não posso falar por todas as mães, nem por todas as mães de mais de uma criança, nem por todas as mães de duas crianças, nem por todas as mães de duas crianças com idades diferentes, nem por todas as mães de duas crianças com dois anos e três meses de diferença de idade entre elas… e meu microcosmo representativo diminui ainda mais, claro, se eu considero todos os privilégios que tenho e os que não tenho.

Mas eu queria falar mesmo assim, porque quero muito dizer, para as mães que, talvez, estejam se sentindo como eu um dia há não tanto tempo me senti – desesperada, angustiada, com uma sensação de “como é que alguém consegue dar conta?” constante – que existe luz no fim do túnel. Que, pelo menos para mim, está melhor agora. Tipo, de verdade. O “vai passar” realmente não é uma lenda. Um tanto aos poucos, um tanto aos borbotões, vai passar mesmo.

A perda da bebezice na casa é agridoce… a gente chora pelos cantos quando vê as bochechas diminuindo, mas sorri com ternura quando vê os cotovelos e joelhos aparecendo, os pescoços esticando. Os deliciosos passinhos desajeitados vão embora, mas aparecem audazes saltos, galopes, rodopios que fazem nosso coração cantar enquanto tenta sair pela nossa boca; é triste dizer adeus ao código secreto das palavras inventadas, mas é feliz dar as boas-vindas às palavras que aparecem para substituí-las, inteligíveis para todas as pessoas (e não apenas a família).

E um dia você se pega olhando as crianças brincando e se maravilha com os gestos bem-coordenados e seguros, os diálogos ricos e cheios de palavras e conjugações e pronomes oblíquos. E se dá conta de que, olha só, agora, passear em um espaço aberto junto, com só você de pessoa adulta responsável, está se tornando uma tarefa cada vez mais… possível, quase tranquila. Agradável em vários momentos. E você está conseguindo fazer cocô mais ou menos de boas mesmo quando está sozinha em casa com elas. Loosho total.

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Faz quatro anos e oito meses que eu deixei de ser a mãe perfeita para ser a mãe que eu podia ser. E faz dois anos e quase cinco meses que eu tomei um banho de humildade – e aprendi que circunstâncias diferentes influenciam a mãe que a gente é.

E que eu só posso mesmo falar por mim. Esta mãe que sou. Dentro desta família.

Eu não sei direito o que é “dar conta”, mas, nas minhas contas, eu dei. Quer dizer, estamos aqui, estamos bem, conforme me informam as criaturas risonhas que correm pela casa palestrando sobre os mais diversos assuntos e cobrindo as paredes com garatujas e sorrisos e primeiras letras, palavras. E eu encantada demais para impedir de forma eficaz a nova decoração.

E acho hoje que a maternidade é assim mesmo, que a gente nunca está pronta, a gente nunca fica pronta. A gente é a mãe que é na hora em que é, do jeito que dá para ser. E às vezes a gente sente que a mãe que a gente é não é suficiente e se angustia e se estressa, como é natural se angustiar e se estressar diante desse sentimento. Mas vivemos naquele momento e somos, invariavelmente, o que temos para sermos no momento. E daí tem hora que a gente para e percebe, não sem surpresa, que a tempestade passou e que estamos respirando. Quem sabe até há algum tempo já.

E daí, quando aparece uma pessoa estranha e diz “não sei como você dá conta”, eu fico… confusa. Porque, na hora, não costuma parecer para mim que estou dando conta. Mas, quando olho para trás, vejo que, mesmo com meus tantos erros, minhas tantas limitações, eu dei.

E cá estamos.

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