01 de agosto de 2018, 17h27

Daniel Trevisan Samways: “A esquerda e Bolsonaro”

Talvez devamos nos questionar como foi possível a volta de todo esse entulho autoritário. Como a defesa da tortura, do racismo, do machismo e do preconceito, com a pregação aberta da violência, podem colocar um sujeito em primeiro lugar nas pesquisas sem Lula?

(Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Por Daniel Trevisan Samways*

Nos últimos dias, boa parte das análises políticas se concentrou na participação de Bolsonaro no programa Roda Viva, da TV Cultura, e suas costumeiras imbecilidades. Gostaria de centrar em um aspecto de uma parcela da esquerda brasileira: o discurso de que Bolsonaro cresce por conta de uma suposta publicidade do campo progressista, que, na tentativa de denunciá-lo, acabaria por promovê-lo. Tal interpretação, dada por alguns analistas que admiro e respeito, parte do pressuposto que Bolsonaro não seria conhecido e não teria tantos admiradores se não fosse pela atuação combativa de grupos que tentam fazer uma crítica às suas posturas preconceituosas e fascistas.

O problema desse argumento está em negar que uma parcela significativa de nossa sociedade namora com o conservadorismo e, se fosse preciso, casaria com o fascismo para evitar a ascensão de parcelas da sociedade ou a concessão de direitos para grupos discriminados e marginalizados historicamente. Essa parcela, acreditem, não é pequena. Talvez seja esse grupo o responsável pelo crescimento de Bolsonaro e não aqueles que o denunciam. Compreender o crescimento de Bolsonaro exige paciência, mas também o rechaço a simplificações, normalmente rasas, de quem acredita que o problema está na esquerda e não no lado de lá.

O aumento da popularidade de Bolsonaro se relaciona com um contexto internacional de negação da política e o surgimento de outsiders, movimento crescente nos últimos anos, mas também com uma poderosa crise econômica, que veio acompanhada da retirada de direitos, o encarecimento do custo de vida e sua consequente precarização. Partidos e grupos de extrema direita pipocam mundo afora e os exemplos não são poucos. Em comum, esses grupos buscam “dialogar” com a população e apresentar candidatos vendidos como externos ao mundo político tradicional, a encarnação real do antipolítico. Trazem também a figura de uma ameaça, de algo que pode colocar famílias, valores ou toda a nação em risco. Em um cenário de crise, de desemprego crescente e da falta de lideranças políticas, esses grupos têm nadado de braçada. Crise e o sentimento de ameaça serão sempre um prato cheio para líderes autoritários. Ou candidatos a tal posto.

Bolsonaro é fruto de tudo isso que nos assola nos últimos anos e que vem martelando nas consciências de milhões de brasileiros. Seu discurso já abriu mão de algo factível para se preocupar muito mais com a forma. Os seguidores de Bolsonaro se empolgam com a maneira agressiva com que se porta, com sua capacidade de atacar, de demonstrar uma suposta força e de não ter medo daquilo que chama de “politicamente correto”. Mas não foi o MBL um dos precursores desse tipo de estratégia? Bolsonaro bebe em várias fontes, seja na insatisfação de brasileiros com a crise, seja no antipetismo patrocinado por uma direita liberal que sempre se vendeu como “ilustrada”. Foi essa direita que puxou manifestações contra programas sociais – vistos como o avanço da esquerda -, as cotas, o Mais Médicos, ProUni, Minha Casa Minha Vida, a PEC das Domésticas. Foi ela quem abraçou com unhas e dentes o discurso em prol de uma moralização da política, mesmo que rasgando a Constituição, patrocinando o projeto golpista, vendido como um impeachment legal, tocado por juristas das plumas tucanas e um ex-petista. Foram aqueles que hoje se vendem como uma opção “de centro” que se jogaram com toda força no desmonte da legislação trabalhista, vista como empecilho ao crescimento econômico. Foi essa turma mequetrefe, dos Jardins, da Zona Sul, do Leblon, que resolveu colocar fogo no país esperando que em meio às cinzas surgisse alguém limpo, cheirando hidratante francês, para terminar o desmonte total do Estado brasileiro e entregar o que resta de nossas riquezas, nos colocando mais uma vez na posição de colonizados. Faltou combinar com os russos. Ou com os bolsominions.

Talvez devamos nos questionar como foi possível a volta de todo esse entulho autoritário. Como a defesa da tortura, do racismo, do machismo e do preconceito, com a pregação aberta da violência, podem colocar um sujeito em primeiro lugar nas pesquisas sem Lula? Como alguém que é incapaz de apresentar meia linha sobre política econômica que não seja a palavra “liberalização” pode ser visto como “mito”? O quanto erramos como sociedade para que uma parte significativa da população, a mesma que sofre com cortes de direitos e que depende de serviços públicos, pode depositar todas suas fichas em um projeto de ditador que promete vender tudo quanto for possível e acabar com o restante das garantias  e programas aos mais pobres, tudo em nome de uma entidade fictícia chamada mercado? As respostas são difíceis. A única certeza é que não nos resta outra alternativa a não ser a luta e o enfrentamento. Não podemos nos calar em um cenário com um candidato que defende pautas extremamente autoritárias e contra tudo que entendemos por Direitos Humanos. Mas é preciso, e isso fica para um outro texto, mobilizar todo o campo progressista para essa dura empreitada, com propostas e projetos que melhorem a vida do cidadão comum dentro de uma perspectiva democrática e plural. Existe uma parcela enorme da sociedade esperando por isso.

*Daniel Trevisan Samways é doutor em História e professor do Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM)