23 de janeiro de 2019, 23h00

Daniel Trevisan Samways: “O fundo do poço”

Como e se sairemos desse buraco ainda é um enorme ponto de interrogação. O atual governo não completou nem um mês e já tem um enorme histórico de denúncias

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil Por Daniel Trevisan Samways* Descemos ao fundo do poço com o governo Bolsonaro e sua família. Enquanto era deputado, Jair Messias Bolsonaro criou a imagem do político honesto e inimigo dos bandidos e da corrupção, conseguindo, por conta disso, levar os filhos a reboque para diferentes cargos. 01, 02 e 03, como chama seus pimpolhos, dificilmente teriam alguma chance na política se não fosse pelo sobrenome. Bolsonaro colocou o filho Carlos – o Carlinhos, aquele que foi no bebê conforto no carro presidencial no dia da posse -, para disputar com a própria mãe uma vaga...

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Por Daniel Trevisan Samways*

Descemos ao fundo do poço com o governo Bolsonaro e sua família. Enquanto era deputado, Jair Messias Bolsonaro criou a imagem do político honesto e inimigo dos bandidos e da corrupção, conseguindo, por conta disso, levar os filhos a reboque para diferentes cargos. 01, 02 e 03, como chama seus pimpolhos, dificilmente teriam alguma chance na política se não fosse pelo sobrenome.

Bolsonaro colocou o filho Carlos – o Carlinhos, aquele que foi no bebê conforto no carro presidencial no dia da posse -, para disputar com a própria mãe uma vaga na Câmara Municipal do Rio. Rogéria Nantes Braga Bolsonaro era vereadora desde 1992 e era obrigada a consultar Jair nas votações, sinal evidente do machismo do atual presidente. A fama de Jair Bolsonaro tornou possível a eleição de Carlos como vereador no Rio, Flvio como senador e Eduardo como deputado federal. Não duvido que lance Renan, o 04, em breve. Mas Jair sempre esteve circunscrito a um círculo muito restrito de eleitores até meados de 2016 – a fraca votação de Flávio para a prefeitura do Rio de Janeiro é prova disso.

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Enquanto deputado federal, Jair se valia de declarações polêmicas para estar nos holofotes e se articulava com o chamado “baixo clero”, grupo ao qual pertencia. A maioria dos jornalistas que cobre o cotidiano no Congresso nunca procurou Jair para saber de assuntos e decisões importantes, já que ele sempre esteve apartado delas. Mas como ex-capitão, Bolsonaro sempre teve grande prestígio no meio militar e nas campanhas aparecia vestindo farda. E foi exatamente de uma parcela desse meio que surgiu aquilo que conhecemos por milícia.

Não podemos afirmar que Bolsonaro enriqueceu por conta de ligações com o crime organizado. Mas também não é possível negar que existem ligações com milicianos. Flávio e Jair já se mostraram muito favoráveis a eles no passado, afirmando que apenas garantem a segurança da comunidade. Os rastros não são poucos. Como diz o próprio Moro, é preciso seguir o dinheiro.

Flávio nomeou Queiroz e sua filha para seu gabinete. Flávio homenageou dois militares envolvidos com a milícia. Queiroz é ex-militar. Queiroz organizava o esquema da “rachadinha” dos funcionários. Queiroz conseguiu que sua filha fosse trabalhar com Jair em Brasília. Ops, ela não trabalhava lá, mas como personal no Rio. Logo, era funcionária fantasma e embolsou mais de 200 mil reais, repassando parte da quantia para o pai. Quando o esquema estourou, Queiroz se escondeu em uma favela dominada pela milícia, onde também tirava uns trocos com uma van clandestina. Flávio também nomeou a mulher e a mãe de um dos principais nomes do Escritório do Crime, Adriano Magalhães, o mesmo que havia sido homenageado por Flávio, para seu gabinete. A mãe de Adriano, Raimunda Magalhães, aparece como uma das depositantes na conta de Queiroz. Adriano é suspeito de envolvimento com a morte de Marielle Franco e Anderson Gomes. Nada disso tem ligação com Jair, certo? O problema para o atual presidente, por enquanto, é o depósito na conta da sua esposa Michelle feito por Queiroz, para, segundo Bolsonaro, quitar um empréstimo. Contudo, esse empréstimo não foi declarado. Que tal seguir o dinheiro?

Muita coisa precisa ser explicada, como o aumento do patrimônio de toda a família – em 2018 eram 13 imóveis totalizando mais de 15 milhões de reais -, totalmente incompatível com as rendas dos cargos políticos que ocupavam. Mas, principalmente, o papel de Fabrício Queiroz, peça-chave dessa história pra lá de suspeita.

Parte dos eleitores de Jair Bolsonaro ainda insistem em endeusar o atual presidente, acreditando que ele veio para moralizar “isso daí” e livrar o país do “socialismo”. Mas não duvido que uma parte considerável já comece a se questionar sobre o novo presidente. Afinal, querem soluções práticas e rápidas para seus problemas, e o que têm visto, além dos chavões em discursos oficiais, são denúncias sérias de envolvimento com o que existe de pior na política e no mundo do crime.

Como e se sairemos desse buraco ainda é um enorme ponto de interrogação. O atual governo não completou nem um mês e já tem um enorme histórico de denúncias, passando pela eleição, com caixa 2 nas mensagens de WhatsApp e gastos não declarados, até transações financeiras muito suspeitas e envolvimento com a milícia, sem esquecer das absurdas tentativas de censura e de ataque à imprensa, como no recente processo movido contra a Revista Fórum. Enquanto isso, o paladino da justiça Sérgio Moro permanece em silêncio, assim como as panelas nos bairros endinheirados. Nos rincões do país, muitas permanecem vazias.

Talvez exista um fundo falso nesse poço e a queda seja ainda maior.

*Daniel Trevisan Samways é doutor em História e professor no Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM)

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