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06 de dezembro de 2012, 14h44

De Doha a Dacar, a insegurança alimentar é a norma

Dos 70,2 milhões de hectares de terras arrendadas ou compradas durante a última década, 34,3% se encontram na África. O Catar e outros países do Golfo adquiriram em conjunto 6,4 milhões em países com economias pobres

Dos 70,2 milhões de hectares de terras arrendadas ou compradas durante a última década, 34,3% se encontram na África. O Catar e outros países do Golfo adquiriram em conjunto 6,4 milhões em países com economias pobres Por Mantoe Phakathi, da IPS/Envolverde O Catar talvez seja um dos países mais ricos do mundo, mas tem algo em comum com as nações da África: a insegurança alimentar. Esta nação petrolífera do Golfo importa 90% de seus alimentos, porque sua terra é seca e não pode ser cultivada. “A comida é muito cara aqui”, disse à IPS um taxista de Doha, natural de...

Dos 70,2 milhões de hectares de terras arrendadas ou compradas durante a última década, 34,3% se encontram na África. O Catar e outros países do Golfo adquiriram em conjunto 6,4 milhões em países com economias pobres

Por Mantoe Phakathi, da IPS/Envolverde

O Catar talvez seja um dos países mais ricos do mundo, mas tem algo em comum com as nações da África: a insegurança alimentar. Esta nação petrolífera do Golfo importa 90% de seus alimentos, porque sua terra é seca e não pode ser cultivada. “A comida é muito cara aqui”, disse à IPS um taxista de Doha, natural de Gana e que pediu para não ser identificado. “Aqui, um litro de petróleo é mais barato do que a água”, acrescentou o motorista, que passou os últimos dias transportando delegados da 18ª Conferência das Partes (COP 18) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que começou no dia 26 de novembro e terminará amanhã, na capital do Catar.

Enquanto os problemas alimentares do Catar se devem às características de seu próprio território, os países da África lutam contra a insegurança alimentar devido à pobreza e aos erráticos padrões climáticos, que reduziram drasticamente a produção agrícola nos últimos anos. Assim explicou à IPS Emmanuel Seck, gerente de programas da organização Environment and Development Action in the Third World, que tem sua sede em Dacar.

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Vários países africanos se esforçam para aproveitar seus vastos recursos de terras para melhorar sua produção de alimentos, enquanto nações do Golfo, como o Catar, bem como economias emergentes como a China, optam por arrendar ou comprar terrenos na África, detalhou Seck. Segundo um informe apresentado este ano pelo independente Oakland Institute, dos Estados Unidos, investidores desse país e da Europa lideram a aquisição de terras no resto do mundo.

Enquanto isso, países do Sul em desenvolvimento, como a Suazilândia, estão alinhando suas políticas para fornecer alimentos ao Catar. “Temos uma vasta terra virgem em nosso país, e podemos usá-la para produzir alimentos para esse país, e assim impulsionar nossa economia”, disse à IPS o chefe da missão técnica da Suazilândia na COP 18, Mbuso Dlamini. Este pequeno reino africano, porém, é incapaz de produzir alimentos básicos suficientes para seus próprios cidadãos, tendo que importar da vizinha África do Sul. O produto com o qual obtém mais divisas é o açúcar.

Segundo o último informe do não governamental e internacional Worldwatch Institute, dos 70,2 milhões de hectares de terras arrendadas ou compradas em todo o mundo durante a última década, 34,3% se encontram na África. O Catar e outros países do Golfo adquiriram em conjunto 6,4 milhões de hectares em países com economias pobres.

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O ideal parece ser um equilíbrio que garanta que as comunidades pobres dependentes da agricultura de subsistência não sejam expulsas de suas terras para dar lugar a projetos de governos estrangeiros e companhias multinacionais. Foi o que disse à IPS o diretor do Programa de Pesquisa sobre Mudança Climática, Agricultura e Segurança Alimentar do Consórcio CGIAR, Bruce Campbell.

“Os países devem adotar mecanismos para garantir que o arrendamento de terras não marginalize as comunidades”, afirmou o diretor desta aliança mundial de organizações de pesquisa. Campbell explicou que o arrendamento não é necessariamente uma má ideia, se as pessoas que antes se dedicavam à agricultura de subsistência puderem encontrar novos empregos.

O especialista disse que as chamadas “Diretrizes voluntárias sobre a governança responsável da posse da terra, da pesca e das florestas no contexto da segurança alimentar nacional”, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), poderiam ajudar a alcançar esse equilíbrio.

Emma Limenga, pesquisadora tanzaniana da Universidade de Dar es Sallam, alertou os governos africanos sobre o perigo de ceder terras por longos períodos. O habitual é que os acordos de arrendamento durem 99 anos, mas a especialista disse que isso poderia afetar a segurança alimentar das próximas gerações. “Recomendamos que as futuras gerações não sejam responsáveis pelas decisões que tomamos hoje”, afirmou à IPS.

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Segundo Limenga, “um acordo de arrendamento entre dez e 20 anos é algo razoável”. Também disse que não é necessariamente contra a prática de alugar terras. “Algumas comunidades nem mesmo estão cultivando devido aos padrões climáticos erráticos, e o acesso a empregos ajuda as pessoas a comprarem comida”, afirmou.

Por seu lado, o diretor executivo da organização não governamental Centre d’Actions e de Realisations Internationales, Burger Patrice, disse à IPS que a pobreza na África não deve ser uma desculpa para “a concentração de terras”. Acrescentou que a reabilitação de áreas secas poderia ser uma solução para a insegurança alimentar. “As terras secas são resultado das variações climáticas de muitos anos, por isso é mais barato reabilitar a terra com o uso de fertilizantes e da agricultura ecológica do que deixar que continue se deteriorando”, apontou Patrice.

“Está dentro dos interesses de países como o Catar começar a produzir seus próprios alimentos, porque de certa forma ficarão sem petróleo e não poderão se dar ao luxo dos altos custos de importar suas necessidades básicas”, alertou. Patrice lamentou que as negociações em Doha marginalizem o tema vital do uso da terra, e afirmou que a comunidade internacional não dá a atenção que merece a Convenção das Nações Unidas de Luta Contra a Desertificação.

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